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Notícias, matérias e especiais sobre Cultura: Cinema, Livros e Música no Último Segundo - iG




Reuters

História polêmica da criação do Facebook cria expectativa nos Estados Unidos

Foto: Getty Images

Descrito como uma história visceral e inspiradora sobre a fundação do Facebook, "A Rede Social" ("The Social Network") deu à abertura do Festival de Cinema de Nova York, na sexta-feira, uma aura de antecipação e um toque de controvérsia.

O filme atraiu atenção generalizada ao alegar que narra a verdadeira história da fundação do site ? que hoje tem mais de 500 milhões de membros e está avaliado em dezenas de bilhões de dólares. No entanto, se baseia em um livro criticado por seus métodos de reportagem.

Um dos filmes mais comentados do ano, "A Rede Social" foi transformado em filme por David Fincher, um cineasta respeitado de Hollywood, e pelo roteirista Aaron Sorkin. A estreia emprestou entusiasmo incomum ao festival de 17 dias de duração, que em geral enfatiza o cinema de arte mais que as estreias ao modo de Hollywood.

"Este filme é certamente uma história real, mas com a diferença de que as pessoas discordam quanto a qual seja a verdade, e o filme não toma posição sobre essa disputa. Apresenta as versões de todos os envolvidos", disse Sorkin, mais conhecido por sua série de TV "The West Wing", à Reuters.

O filme vai estrear nos Estados Unidos em 1º de outubro, para relatar como Mark Zuckerberg, co-fundador do Facebook, se transformou de um aluno inteligente e desajeitado da Universidade Harvard em um dos mais respeitados empresários do Vale do Silício, com a criação da comunidade online.

"A Rede Social" traz cenas intercaladas que mostram os depoimentos judiciais de Eduardo Saverin, o outro co-fundador do Facebook e antigo melhor amigo de Zuckerberg, bem como os depoimentos de Tyler e Cameron Winklevoss, ambos ex-alunos e membros da equipe de remo em Harvard. Os dois processos resultaram em acordos extrajudiciais vultosos mas de valor não revelado.

Zuckerberg, 26, não deve comparecer à estreia na sexta-feira. Recusou-se a cooperar com o filme e disse a Oprah Winfrey em seu programa de entrevistas na sexta-feira que "é um filme, o objetivo é divertir", mas que sua vida real não havia sido tão dramática.

Com patrimônio hoje avaliado em 6,9 bilhões de dólares pela revista Forbes, Zuckerberg anunciou doação de 100 milhões de dólares às escolas de Newark, Nova Jersey, na sexta-feira, desviando parte da atenção da mídia quanto à estreia do filme.

Reuters

Autora da série concede rara entrevista à apresentador Oprah Winfrey

Foto: Getty Images

A escritora britânica J.K. Rowling aparecerá numa rara entrevista no programa de televisão "The Oprah Winfrey Show" para falar sobre sua vida e carreira e a possibilidade de escrever outro livro sobre Harry Potter.

A escritora de 45 anos, que apareceu num ranking da revista Forbes este ano com uma fortuna estimada em 1 bilhão de dólares, conversou com Winfrey pela primeira vez desde Edimburgo, na Escócia, em uma entrevista que será transmitida na sexta-feira, informou a editora norte-americana da autora, a Scholastic Inc., na segunda -feira.

Rowling conversou sobre fama, pressão e ela "compartilha seus pensamentos sobre a possibilidade de algum dia escrever outro livro de Harry Potter", disse a Scholastic num comunicado. Ela contou à Winfrey que sabia que seus livros sobre o garoto mágico eram populares e que sua vida mudou para sempre quando viu uma fila enorme de fãs do lado de fora de uma grande loja durante seu segundo tour de lançamento nos Estados Unidos.

A escritora, que não concede muitas entrevistas à imprensa, também afirmou que a postura calma que apresentou no auge da febre de Harry Potter não era bem o que aparentava. "Você pergunta sobre pressão. Naquele momento, eu dizia às pessoas, sim, estou lidando com isso...mas a verdade é que houve momentos em que eu me segurava por um fio", disse ela, de acordo com trechos já divulgados da entrevista.

Os livros, que venderam mais de 400 milhões de cópias em todo o mundo, foram transformados em filmes de sucesso. O último livro de Harry Potter, chamado "Harry Potter e as Relíquias da Morte", foi lançado em meados de 2007 em mais de 90 países e vendeu 11 milhões de exemplares nas suas primeiras 24 horas apenas na Grã-Bretanha e nos EUA.

A adaptação para o cinema de "Harry Potter e as Relíquias da Morte" já foi filmada e a primeira parte deve ser lançada em novembro.

 

iG São Paulo

Gloria Stuart chegou a ser indicada ao Oscar pelo épico de James Cameron

Foto: AP/Divulgação

A veterana atriz norte-americana Gloria Stuart, 100 anos, conhecida por seu papel em "Titanic" (1997), morreu ontem em Los Angeles. A informação foi confirmada pela família da atriz, que sofria há cinco anos de um câncer no pulmão.

Estrela de musicais e filmes de horror na década de 1930, como "Frankenstein" e "O Homem Invisível", Stuart conseguiu uma indicação ao Oscar por "Titanic", aos 87 anos, e é até hoje a mais velha atriz a concorrer ao prêmio. Ela perdeu para Kim Basinger e seu "Los Angeles Cidade Proibida", mas ganhou a mesma honraria do Sindicato dos Atores, órgão que ajudou a fundar.

À época do lançamento de "Titanic", o diretor James Cameron afirmou que queria escalar alguém que havia vivido a era de ouro de Hollywood. Stuart, por sua vez, concordou que era uma das poucas atrizes de sua idade que "ainda estava disponível, sem problemas com álcool, reumatismo ou caindo por aí".

"Titanic" venceu 11 estatuetas no Oscar e arrecadou US$ 1,8 bilhão nas bilheterias mundiais, sendo superado apenas por "Avatar", este ano, com US$ 2,7 bilhões.

Stuart se aposentou das telas nos anos 1940, mas voltou à ativa 40 anos depois, na série "Assassinato por Escrito". Depois de "Titanic", ainda apareceu em "O Hotel de Um Milhão de Dólares" e "Medo e Obsessão", ambos de Wim Wenders, e em seriados como "General Hospital".

Foi casada duas vezes, primeiro com o escultor Blair Gordon Newell e depois com o roteirista Arthur Sheekman. Deixa uma filha, quatro netos e 12 bisnetos.

* com EFE

Agência Estado

Estrelas do acervo do museu paulistano querem atrair mais visitantes

Foto: Divulgação

A partir de sexta-feira, as obras do Museu de Arte de São Paulo (Masp) vão sair para passear. Em trechos das ruas da Consolação e Estados Unidos, da Avenida Brigadeiro Luís Antônio e da Radial Leste-Oeste, o projeto "Revelarte - O Masp nas Ruas" vai exibir reproduções de 40 obras do museu. As imagens de trabalhos de Van Gogh, Modigliani, Manet e Cézanne, entre outros, ficarão do lado de fora do Masp durante todo o mês de outubro.

As reproduções são digitais ? fotos impressas em placas de fórmica ?, em tamanho um pouco maior ou menor que o original. "Não queríamos fazer cópias, e sim réplicas parecidas com o original", diz um dos organizadores da mostra, Ronaldo Graça Couto. "O objetivo é despertar a vontade de conhecer o museu." As telas ficarão em locais a no máximo 1,5 quilômetro do Masp.

Os quadros reproduzidos são alguns dos mais importantes do acervo, como "Menina Com as Espigas", de Renoir, "Paisagem com Tamanduá", de Frans Post, "Retrato de Fernando VII", de Francisco de Goya, e "Natureza-Morta com Prato, Vaso e Flores", de Van Gogh. A escolha foi feita pelo crítico e curador Teixeira Coelho. "A ideia não é que as pessoas parem diante das obras. Em uma cidade neurótica como São Paulo isso não acontece", diz. "Só queremos que elas quebrem um pouco a rotina visual, que os retratos sirvam como interruptor do circuito de pensamento."

Segundo Couto, a inspiração do projeto veio da National Gallery de Londres. Em 2007, a instituição colocou reproduções de seu acervo em ruas da capital inglesa. Algumas foram roubadas, outras depredadas. "O mesmo pode acontecer aqui, mas as fotos das telas não têm valor financeiro. O que importa é a mensagem que passam."

Dentro da lei

O Revelarte teve autorização da Prefeitura para usar muros e vitrines nos Jardins e na Consolação, sem infringir a Lei Cidade Limpa. Os quadros vão ficar em fachadas de prédios e vitrines com grande movimento, entradas das Estações Consolação e Trianon-Masp do Metrô, além de restaurantes e livrarias. O fotógrafo Ary Diesendruck vai registrar a exposição e a reação do público nas ruas para um eventual livro sobre a iniciativa.

iG São Paulo

Rapper se apresenta em São Paulo dia 5 de novembro, no festival F1 Rocks

Foto: Getty Images

A venda de ingressos para o show que Eminem faz em São Paulo no dia 05 de novembro começa nesta segunda-feira (27). O rapper norte-americano, que vem pela primeira vez à América Latina, integra o festival F1 Rocks, parte da semana da corrida de Fórmula 1, no Jockey Club

As entradas custam R$ 150 (arquibancada), R$ 260 (pista) ou R$ 500 (pista Vip) e podem ser compradas pela Internet, pelo telefone 4003-1212 (disponível para todo Brasil) ou nos postos autorizados. Outros artistas do festival devem ser anunciados em breve. O jockey vai estrear seu gramado central, o Peão do Prado, com 50 mil metros quadrados, para eventos do gênero.

Esta deve ser a única apresentação de Eminem no país, que viaja com a turnê do álbum Recovery, lançado em junho e um dos atuais campeões de vendas nos Estados Unidos. O disco sucede Relapse, de 2009, que acabou com um jejum de cinco anos sem novidades.

Serviço ? Eminem no Brasil
Festival F1 Rocks, São Paulo
05 de novembro de 2010 (sexta-feira), às 19h
Hipódromo do Jockey Club
Avenida Lineu de Paula Machado, 1263, Jardim Everest
Ingressos: R$150 (arquibancada), R$ 260 (pista) e R$ 500 (pista Vip)
Vendas: internet, telefone 4003-1212 e postos autorizados

Reuters

Depois de alta em 2009 e 2008, setor não registrou aumento em 2010

A rápida ascensão das vendas de música digital se estagnou nos Estados Unidos, o maior e mais importante mercado mundial, e o primeiro semestre de 2010 não registrou alta com relação ao mesmo período um ano antes.

De acordo com o grupo de pesquisa de mercado Nielsen, as vendas digitais se mantiveram imóveis no mercado dos EUA, depois de alta de 13% em 2009 ante 2008 e de 28% em 2008 ante 2007.

Grandes empresas do setor de música, como a Universal Music, do grupo Vivendi, depositavam suas esperanças na alta das vendas legais de música digital, a fim de combater a pirataria online e o colapso nas vendas de CDs.

Jean Littolff, diretor executivo da Nielsen Music, disse à Reuters que as vendas estáveis nos EUA podem se dever a uma queda na confiança dos consumidores, à falta de atrativos dos novos lançamentos musicais e à confusão quanto às muitas maneiras diferentes pelas quais as pessoas podem adquirir música online.

"Creio que atingimos um ponto de estabilidade e isso não significa que haverá queda substancial no consumo de música digital", explicou. "É um ponto de estabilidade, mas ainda não de saturação".

O mercado de música digital vem sendo dominado primordialmente por sites que vendem faixas individuais ou álbuns, como o iTunes da Apple, e a Nielsen afirma que os serviços por assinatura, nos quais os consumidores pagam por acesso a música sem baixá-la, ainda estão enfrentando dificuldades para causar impacto no mercado de massa.

Os sites de streaming audiovisual como o YouTube continuam altamente populares, enquanto os serviços de música para celulares vêm ganhando mais ímpeto.

De acordo com as pesquisas da Nielsen, as vendas de música digital subiram 7% no Reino Unido, 13% na Alemanha e 19% na França.

 

Agência Estado

Zé Celso comandou montagem de peça de Flávio de Carvalho em São Paulo

Foto: AE

Os atores do Teatro Oficina, comandados por José Celso Martinez Corrêa, encenaram ontem sua releitura para "O Bailado do Deus Morto", de Flávio de Carvalho, na 29ª Bienal de São Paulo, no Pavilhão do Ibirapuera. O atraso de 40 minutos deixou o público impaciente. Uma senhora resolveu puxar palmas e foi seguida pela plateia.

Mas foram em vão os apelos para que o diretor começasse logo. Muitos não sabiam, mas do outro lado do prédio os atores, seminus, já tocavam seus tambores, dançavam e eram seguidos por uma multidão. A obra, única peça escrita por Flávio de Carvalho, em 1933, e que chegou a ser interditada pela polícia na época, surgiu em nova versão pelas mãos de Zé Celso. Mas não menos polêmica.

Com tom mais festivo que o texto original, o diretor transformou o espetáculo em um grande cortejo carnavalesco e abriu espaço para incorporar uma série de comentários, muitos em tom crítico, aos episódios que marcaram o primeiro dia de abertura da Bienal ao público, no sábado.

Durante a encenação, surgiram menções ao pichador Djan Ivson, que teria invadido a instalação "Bandeira Branca", do artista Nuno Ramos, e pichado a frase "libertem os urubu" (sic), anteontem à noite. A obra, cercada por tela, tem três urubus.

A ação dos seguranças, que entraram em confronto com pichadores e manifestantes que protestavam contra a instalação, também foi citada durante uma das passagens. Mas, apesar do tom irônico, o curador-geral da Bienal, Moacir dos Anjos, afirma não ter visto na performance críticas à organização. "O Zé Celso sempre incorpora o que acontece em seu trabalho. É um teatro vivo, político", disse o curador, logo após a apresentação do grupo.

De fato, não faltaram referências à política atual na encenação. Durante a peça, o diretor fez questão de ressaltar aquilo que chamou de "temas tabus". Os atores incorporaram à sua dramatização questões como o narcotráfico.

Reuters

Reencontro de Oliver Stone com Michael Douglas fatura apenas US$ 19 milhões

Foto: Divulgação

A ganância não é mais do que aceitável nas bilheterias norte-americanas. A sequência de "Wall Street", de Oliver Stone, foi o destaque em cartaz neste domingo, embora não tenha se sobressaído, com rendimentos modestos de 19 milhões de dólares nos Estados Unidos e no Canadá.

"Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme" liderou uma semana que inclui dois estreantes: "A Lenda dos Guardiões" em 3D na segunda colocação com 16, 3 milhões de dólares e a comédia romântica da Disney "You Again" em quinto lugar com 8, 3 milhões de dólares.

"Atração Perigosa", o suspense sobre roubo a bancos escrito e dirigido por Ben Affleck e campeão de bilheteria da semana passada, caiu para a terceira posição com 16 milhões de dólares. A comédia adolescente "Easy A" desceu duas colocações e ficou em quarto lugar com 10, 7 milhões de dólares em sua segunda semana.

Na semana passada especialistas haviam previsto que "Wall Street" e "A Lenda dos Guardiões" iriam arrecadar 20 milhões cada um, enquanto "You Again" prometia metade disso. Nenhum destes filmes agradou aos críticos.

Mas a distribuidora do filme de Stone disse que os números do lançamento da sequência foram "excelentes". Chris Aronson, vice-presidente sênior do estúdio para distribuição nacional, acrescentou que espera uma arrecadação na casa das centenas de milhões nos três dias do final de semana.

A filial da News Corp. está confiante de que o filme vai segurar a onda nos próximos finais de semana, porque se dirige a uma plateia mais velha ? 65% têm mais de 30 anos ? que normalmente não corre para ver um filme na estreia.

O financista Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, retorna no conto moral sobre o mundo das finanças, 23 anos após sua proclamação de que "a ganância... é boa" se tornar uma metáfora da decadência do boom financeiro dos anos 1990. Shia LeBeouf é seu parceiro no filme de 60 milhões de dólares. O primeiro "Wall Street" arrecadou cerca de 87 milhões, feita a conversão para os dias de hoje, e deu um Oscar a Douglas.

 

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial do iG Cultura

O rapper explica cada uma das 18 músicas de seu novo trabalho

Foto: Augusto Gomes

"E Agora?" ? ?Agora nós tem carro, casa, comida,/ e vai cantar que não dá pra vencer na vida??, indaga Emicida nos primeiros versos de Emicídio. Com esse desafio, busca quebrar o tabu de que o rap deva retratar apenas as mazelas da periferia, mesmo que seus autores tenham avançado na escala social. ?Eu nem tenho carro ainda, mas tenho opção de ter?, ele diz. ?Que o rap fale da favela, mas seja maduro o suficiente para dizer que é possível vencer e superar as dificuldades.?

"Cê Lá Faz Ideia" ? Essa rima fala dos sentimentos de um cidadão negro quando um taxista se recusa a transportá-lo por medo de ser assaltado, ou quando um cidadão branco atravessa a rua ao vê-lo de longe. ?Algumas coisas nunca mudam?, afirma a letra, num lamento, antes de narrar casos de discriminação racial, assumir o ?ódio? que provocam e desaguar no eloquente refrão: ?Cê lá faz ideia do que é um vidro subir, alguém correr, quando avistar você?/ não?/ cê não faz ideia, não faz ideia, não faz ideia, não faz?.

"Rinha (Já Ouviu Falar?)" ? Aqui começa o bloco em que Emicida revisa o próprio passado e o compara com o presente. O tema é a fase das batalhas de MC e da rinha de freestyle que acontecia em Interlagos, onde ele começou a se destacar. ?Foi uma prova concreta de que o rap se fortalece mais pelas margens da cidade que qualquer lugar. Hoje a rinha acontece na rua Augusta, fiquei triste quando veio para o centro. Pegar o que a gente tem de melhor e levar para o centro é uma perda, uma derrota na guerra.?

"Isso Não Pode Se Perder" ? Desenvolvendo o mote de Rinha, aborda criticamente o momento em que o rap troca os espaços improvisados de apresentação ao ar livre pelo ambiente fechado das casas noturnas. ?As pessoas veem como uma conquista, mas não é. Sua personalidade é moldada com base no que você ouvia aos 15 anos. Ficar restrito a casas noturnas para maiores de 18 anos mata a próxima geração do hip-hop.?

"Santo Amaro da Purificação" ? Aqui, Emicida trata do sincretismo religioso em que sempre viveu. ?Acho o nome da música bonito, só depois descobri que é a cidade onde nasceu o Caetano Veloso?, ri. Mas é sua mãe, Jacira, quem assume a explicação: ?Fomos budistas, católicos, frequentamos o Brasil para Cristo. Se convidar a gente vai?. Hoje estudante de diáspora africana e dos orixás do Candomblé no Instituto Cultural Cachoeira, ela lembra: ?Estudei em convento, era só rezar e apanhar. Queriam que eu fosse freira, e saí de lá virada no cão. Para eles tudo é pecado, eu tinha essa birra com Deus?.

"Então Toma" ? ?É um rap sobre o rap?, explica Emicida. ?Lendo o poema A fúria da Beleza, da Elisa Lucinda, fiquei pensando em como as coisas bonitas são violentamente bonitas. Quis falar de conquistas, de como é ter suas coisas.? Diz a letra: ?Não tá entendendo, tio/ modéstia nunca foi meu forte memo/ em vez de reclamar (?) eu fui trabalhar e arrumei espaço pro meu rap?.

"Emicídio" ? ?Quem ganha mais com a miséria?/ os políticos, o Datena ou o rap??, fulmina Emicida na faixa mais cortante da mixtape. O propósito é ampliar o discurso do rap e reconhecer que, para isso, o movimento precisa se analisar e se autocriticar. ?Muitas pessoas se acostumam a dizer que as coisas não acontecem em certos lugares da sociedade. Fui na Globo, participei do Jô Soares e do Altas Horas, de programas que todo mundo fala que tenho que pagar pra entrar. Comigo não foi assim. Reclamar é um lugar muito cômodo, ?as coisas não viram porque vim da favela?. Os políticos aparecem de tempos em tempos, retratam miséria e sofrimento e somem. Datena faz isso o tempo todo. E a gente, no rap, está fazendo a mesma coisa.?

"Santa Cruz" ? ?Essa fecha o bloco de raps sobre o rap.? O tema é a batalha de freestyle que frequentava quando adolescente ? e que acontece até hoje, todos os sábados, na estação Santa Cruz do metrô, na zona sul paulistana, para interessados de todas as idades e locais.

"Velhos Amigos" ? Leandro homenageia seus amigos, aos quais dedica nominalmente ?esta canção? ? sim, o rap pode ser mais falado que cantado, mas para Emicida ele é canção, é música popular brasileira. ?Fulano casou/ sicrano morreu/ beltrano mudou, desapareceu/ um virou pastor/ outro se perdeu?, enumera. Homenagem à parte, ele diz que não costuma lotar seu palco de amigos e companheiros, como é comum no rap nacional. ?Vejo lá muita gente que não faz nada. Querer subir no palco é legal, mas, pô, faz alguma coisa!?, brinca.

"Rua Augusta" ? A faixa mais lírica do CD fala da rua paulistana central onde faz grande parte de seus shows atuais, mas a aborda identificando-se com a ótica das prostitutas que trabalham nas calçadas: ?Contando as horas com casaco de visom/ do olho a cor tá combinando com o batom/ atenta nas buzinas ela vai pelo som/ escrevendo sua história com neon?. O desafio, aqui, é à misoginia no rap e na sociedade: ?Muita gente tem a vida delas como fácil, mas não é. Os caras passam jogando ovo, pedra, estão sujeitas a tanta coisa?.

"I Love Quebrada" ? ?É um filme de passear pelo morro, pelas coisas boas do morro. Várias pessoas nunca foram para Nova York e usam aquelas camisetas ?I love New York?, eu amo o lugar de onde vim?, diz. ?Como diz o (rapper) Funk Buia, o leão não escreve, quem conta a história é o caçador. O maior sonho da gente é ver a favela ser retratada por dentro.? É o que faz I Love Quebrada: ?Não que eu queira fugir daqui/ eu quero é viver de renda pra pretinha bonitinha de sainha apertada/ de preguinha, curtinha, toda emperiquitada?.

"Eu Gosto Dela" ? ?Parece música de amor, mas fala de como as mulheres mudam de humor. Acho que é de humor, não de amor?, ele ironiza o rap mais romântico da mixtape, todo formulado com rimas em ?ina?e ?ona? (?menina?, ?mandona?, ?valentona?, ?ilumina?, ?amazona?, ?bonitona?, ?maracujina?, ?bela dona?, ?popstar Madonna?, ?brigona?, ?sabichona?, ?ave de rapina?, ?brincalhona?).

"Só Mais Uma Noite" ? ?É a música que eu mais ouço?, classifica a faixa funkeada que fala da noite e do mal-estar que às vezes acomete o artista no palco. ?Às vezes você vê que a plateia não está nem aí, você pensa: ?Foda-se, é só mais uma noite?. Tem momentos que simplesmente eu não queria ir. Falam do Tim Maia, mas fico pensando nos bastidores dele??, confessa, beliscando o lado duro do showbizz, que a maioria dos artistas prefere esconder. ?Como diz a música do Ivan Lins cantada pela Claudia (Pois É, Seu Zé), ?ultimamente ando matando cachorro a grito/ e a plateia aplaudindo e pedindo bis?. A plateia só quer ser feliz, mas você, se fizer um show ruim, vai ser apedrejado pelo resto da vida.?

"De Onde Cê Vem?!" ? ?É sobre a época dos bailes na Vila Zilda. Virou uma gomenagem aos Racionais, ao início do rap.?

"Um Final de Semana" ? ?Escrevi essa para minha mãe. Nunca passo na casa dela, não dá tempo.?, diz Emicida, para espanto de Jacira. ?Hum?, ela reage, como quem não acredita muito. Diz que ainda não ouviu o disco. ?Ando ocupada estudando folclore?, desvia. ?Ela não tá nem aí, viu??, provoca Leandro. ?Mas vai com a minha camisa no show.?

"Novo Nego Veio" ? ?Nessa eu falo sobre ser pai. Teve moleque que me disse que ouviu e chorou.? Repete-se o tema da falta de tempo para a família, agora em relação à filha bebê. ?Ela acorda às 6 horas da manhã, não chora, fica reclamando. É espaçosa pra caramba. Se eu não acordo, fica pegando na minha cara até eu acordar.?

"Avua Besouro" ? Foi composta sob inspiração do filme Besouro, do qual Leandro só viu o trailer. ?É sobre um capoeirista da Bahia que ninguém vencia, sobre o cara ser vencedor. Os guetos precisam de heróis, coloco isso na música para canalizar o ódio para uma coisa que construa algo.?

"Beira de Piscina" ? ?É a mais sincera, sem medo de ser feliz. Tenho uma briga interna comigo mesmo, de querer escrever uma música tranquila, que tranquilize as pessoas. Vinicius de Moraes tinha um milhão de problemas, mas vê se aparece um deles em Tarde em Itapuã. Meu pai morreu, se eu fizer música sobre isso todo mundo vai se identificar. Com sentimento ruim é muito fácil compor?, filosofa. ?Na beira da piscina é onde a entrevista do próximo disco vai começar?, gargalha.

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial do iG Cultura

Rapper paulista lança sua segunda mixtape, "Emicídio", e vai contra a corrente do discurso negativo do rap

Foto: Augusto Gomes

O rap brasileiro encara suas próprias contradições e protagoniza uma nova movimentação, desta vez no coração do bairro de Santana, na zona norte de São Paulo. Ali funciona, num imóvel alugado, o Laboratório Fantasma, mistura de estúdio, gravadora e produtora do rapper paulistano Leandro Roque de Oliveira, de 25 anos, que tem conquistado notoriedade crescente sob a alcunha de Emicida.

Nestes dias, ele e seu irmão mais novo, Evandro ?Fióti?, consomem grande parte do tempo no Laboratório produzindo artesanalmente centenas de cópias do disco "Emicídio". Esse novo trabalho significa, nas palavras de Leandro, ?a morte e o renascimento do Emicida, com outra visão?.

Nascido no Jardim Fontales, na periferia norte da capital paulista, Emicida, ?matador de MCs?, é um exímio improvisador, ligado por laços indiretos à histórica tradição dos repentistas nordestinos. Adquiriu notoriedade nas chamadas batalhas de freestyle, em que os MCs (mestres de cerimônia) do hip-hop se enfrentam em desafios de rimas formuladas na hora.

Em 2009, o também caseiro "Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe?" atravessou obstáculos, alastrou-se da periferia para o centro, disseminou o incômodo nome ?Emicida? na mídia, ajudou o jovem artista a ganhar prêmios e se apresentar Brasil afora.

Com 18 faixas, "Emicídio" é sua segunda mixtape, como ele denomina ? Leandro considera que não produziu, ainda, seu álbum de estreia. ?Os ?beatmakers? me mandam as batidas e em cima eu faço as rimas. Um álbum é um trabalho mais complexo que isso?, explica. ?Tanto os ?beatmakers? como eu sofremos uma influência muito forte da América do Norte, e isso começa a me parecer repetitivo. No meu primeiro álbum quero dar continuidade à música brasileira. Musicalmente, a gente pode dar muitos passos ainda?, ele se autoanalisa.

A segunda mixtape prossegue a saga de Emicida, pela via da desconstrução, mais ou menos inédita no rap nacional. O artista discorda, acima de tudo, do predomínio do discurso negativo no nosso hip-hop. ?Não dá para eu ir tocar pra criançada com discurso de sofrimento e ser tão sincero quanto fui quando chorava. Não é mais a minha realidade. Os CDs de rap vendem, os shows dão dinheiro, e isso não está sendo retratado. Fica o mesmo discurso de 20 anos atrás, que vicia os moleques numa depressão, faz acreditar que o mundo não é feito pra gente.?

Não é que o protesto se dilua na esteira do sucesso e do assédio midiático, ao contrário. A vida de privação numa favela não é mais o cotidiano de Leandro, mas ainda há muito a dizer em "Emicídio". O CD fala muito sobre racismo e discriminação, enfrenta o tabu de inserir raps de amor, tece considerações sobre como às vezes é difícil estar num palco, identifica-se com o dia-a-dia das prostitutas da rua Augusta.

Em "Cê Lá Faz Ideia", por exemplo, Emicida narra os constrangimentos que um cidadão tem de enfrentar cotidianamente por ser negro. ?Os pretos na sociedade são vistos como se fossem ratos. Tem vários ratos famosos, Mickey Mouse, Jerry do Tom & Jerry, mas quem vê um rato na rua só pensa em matar e sair de perto. Ouvem Jimi Hendrix em casa, mas quando encontram um preto na rua só querem atravessar pro outro lado?, afirma. ?Me sinto muito mal de ir à avenida Faria Lima, ter de entrar no banco e o segurança perguntar o que eu fui fazer lá. Eu já vou logo causando: ?Não vou roubar essa porra, não?.?

Põe-se a narrar um conflito que teve com um taxista na rodoviária de São Paulo: ?Minha mina deu uma nota de R$ 50 para pagar, ele achou que era falsa, não queria aceitar. Me chamou de macaco. Eu causei uma dor de cabeça pra ele, mano. Fomos pra delegacia, mas a polícia é foda. Quer tudo, menos um boletim de ocorrência de racismo. Foi registrado como injúria, não como racismo. O velho se ajoelhava pra mim, chorava, dizia: ?Eu tenho um sobrinho mais escuro de você?. Podia ser avô de Zumbi dos Palmares, não faz diferença. Perdi o show daquele dia, mas fiz o B.O. ?Hoje eu aprendi uma lição?, ele disse no final. Se tiver chance, eu faço isso?.

Episódios como esses, em que Leandro se impõe sobre o racismo, são cruciais para a autoafirmação do cidadão, e também para a autoconfiança do artista. ?Nós não falamos o que as pessoas querem ouvir. Esteticamente, a nossa aparência não é aquela que o Brasil compra. A gente tem que ser muito foda e confiar muito no nosso taco. Se tem que fazer dez vezes mais para alcançar alguma coisa, burro é você se fizer só oito?.

Jacira, a mãe de Leandro e Evandro, chega ao Laboratório Fantasma e se integra à entrevista. É dela o painel meticulosamente construído com retalhos, sementes, miçangas, búzios, conchas, fitas, madeira e sucata que está pregado à porta do estúdio, para dar proteção aos filhos. O estandarte retrata os orixás do candomblé, decifra um alfabeto africano e transcreve a letra de um samba de Clara Nunes.

Viúva e em dificuldades financeiras antes de se casar novamente (com um agente funerário que ajudou a criar os meninos), ela levava os filhos pequenos ao culto evangélico, mais para alimentá-los do que pela religião em si, como Emicida lembra dando risada. ?Fui empregada doméstica, vivia morando na casa dos outros, mal empregada. Armei barraca na feira, tive 500 profissões, ou mais. Aliás, não é profissão, é função?, conta. ?Depois voltei para a escola, concluí o fundamental.?

Ela lembra que Leandro, quando criança, cantava repetidas vezes o verso bossanovista ?o barquinho vai, a tardinha cai?. E se mostra tão sensível quanto o filho às questões raciais: ?Quando mudei para cá, com cinco anos, esta região da Serra da Cantareira tinha muito japonês. Minha referência eram festas japonesas, e as filhas dos portugueses eram nossas professoras, que foram marcando em mim a ideia de que a nossa cor não é boa. Até três anos atrás eu estava cega, não sabia que sou afrodescendente, negra e brasileira. Se soubesse antes ninguém ia poder comigo?.

Jacira fala criticamente de seus heróis de infância nas histórias em quadrinhos, Tarzan e Fantasma. ?Estudando, vi que Tarzan é o algoz, o herói branco que adentra a África e se comunica com os animais. Acabaram com a minha fantasia?, ri. E relata as aflições que sentia por ter um filho rapper. ?Tinha medo de a música não dar certo, pensava: ?Esse menino é preguiçoso demais, não carrega tijolo?. Achava que ele tinha que ser um bom servente de pedreiro?, admite. ?Ela não me incentivava, mas um dia chegou em casa com um teclado?, lembra o filho.

O hip-hop de Emicida é incomum também porque ele aprecia desafiar a misoginia comum em tantos raps do passado. ?Muitos ainda chamam as minas de vadias. Os rappers criticam o funk carioca, que chama as minas de cachorras, mas fazem a mesma coisa.? A lírica faixa "Rua Augusta" é o melhor exemplo dessa vertente em Emicídio: ?Conheço várias minas que são putas, sei os bastidores da coisa. Passo ali e vejo não como quem come a puta, mas penso nos filhos que ela tem para criar, se está com frio. Ninguém decide ser prostituta com 8 anos de idade?.

Casado e pai de Estela, hoje com sete meses, Emicida avança no tema dos preconceitos e toca em outro tema quase sempre evitado pelo rap (e pela sociedade), a homofobia: ?Pelos estereótipos, puta dá, veado é promíscuo e preto rouba. Se é alguém próximo, você tenta cuidar, mas se não? Tenho um primo gay, a mãe dele fala que é deficiente mental, dá calmante, trata. Ele é normal, todo mundo vê que é gay só a mãe tem receio de assumir isso para o mundo?.

Mãe e filho divergem sutilmente quando o assunto é eleição. ?Eu não gosto do Serra antes de qualquer coisa. Não tenho afeto pelo PSDB?, afirma Emicida, colocando sentimento na política. ?Não achei maneiro a TV Cultura acabar com o Manos & Minas, porque o novo diretor (João Sayad) não conhecia o programa. Não se brinca com essas coisas. Foi o que repercutiu de modo mais negativo na campanha do Serra para mim?.

Diz Jacira: ?O PSDB vem de longa data fechando instituições que lidam com a cultura, circos-escola, centros de juventude, sem dar a menor satisfação. Eu fui petista desde que me vi consciente, trabalhei próxima de Marta e Lula. Mas a gota d?água para mim foi quando Lula ficou contra o fim da CPMF. Não voto em ninguém, nem vou lá.?

Leandro diz que pretende votar, mas ainda está indeciso. ?Me identifico talvez com a Marina. E gosto muito do Lula, por isso acabo me identificando com a Dilma também. Lula é uma ofensa para muita gente, e eu me considero também uma ofensa para muita gente?, compara. Quanto ao próprio Emicida, é difícil crer que alguém possa se ofender com o modo maduro e autocrítico como ele e a nova geração do rap brasileiro têm lutado por se expressar.

Ao final da entrevista, Emicida fez uma rima especialmente para o iG Cultura. Veja abaixo:

AE

No início da noite, um jovem invadiu instalação de Nuno Ramos e pichou a frase "liberte os urubu"

Foto: AE

Um tumulto marcou a abertura, ontem, da 29.ª Bienal, no Parque do Ibirapuera, e provocou seu fechamento antes do horário previsto, às 19 horas. Por volta das 18h20, um rapaz invadiu a instalação Bandeira Branca, do artista Nuno Ramos, e pichou a frase "liberte os urubu (sic)". Houve confronto e troca de agressões entre os seguranças, grupos de defesa dos animais e pichadores. A polícia foi à Bienal.

No meio do tumulto, um casal foi levado para o 36.º DP, acusado da pichação. Eles negaram. O rapaz detido pela polícia entregou à reportagem do jornal O Estado de S.Paulo um cartão com a inscrição "Rafael Pixobomb", nome de integrante do grupo que fez pichações na Bienal de 2008. O casal não foi preso, segundo a polícia.

Os dois e mais 10 integrantes de associações de defesa dos animais registraram boletim de ocorrência alegando ter sido agredidos pelos seguranças que, por sua vez, diziam ter sido as vítimas e agredidos. As pessoas que prestaram queixa diziam que o pichador Djan Ivson havia feito a inscrição na obra. Ele não foi localizado. 

Nuno Ramos não quis dar queixa e não será aberto inquérito para investigar crime ambiental. Ontem, ele ainda decidiu que sua obra seria restaurada para, a partir de hoje, já ser vista sem a pichação. "A palavra, para mim, é triste. Nesse lugar que é a Bienal, o outro aparece numa condição de agressão. Não estou chocado, não estou com raiva, vejo como algo atrasado", afirmou.

A confusão em torno da obra ocorreu durante manifestação ambientalista ao lado da polêmica instalação do artista, que abriga três urubus em seu interior.

Mas segundo alguns manifestantes durante o tumulto, a invasão ocorreu em protesto à seção "Pichação", que reúne vídeos e fotos de pichadores e seus trabalhos. Para eles, a Bienal quer "domesticar" o gênero. "Discordâncias devem ser expostas, mas dentro do respeito", afirmou o curador Moacir dos Anjos. "Foi o ato de uma pessoa do mesmo grupo que participa da 29.ª Bienal", disse ainda o curador.

Pedro Beck, especial para o iG Cultura

Série criada por produtor de Sopranos e dirigida por Scorsese busca apagar vexame pós-recusa de "Mad Men"

Foto: Divulgação

Antes de se tornar a série mais aclamada pela crítica e vitoriosa em premiações recentes, "Mad Men" recebeu negativa da HBO quando seu criador Mattew Weiner ofereceu o piloto para a emissora, que por sua vez alegou não acreditar no sucesso do show.

Dois cenários paralelos sucederam esta recusa: o sucesso de "Mad Men" em todos os âmbitos, e a chuva de críticas da mídia especializada não só ao ato falho da emissora, mas a falta de qualidade no conteúdo recente exibido. Diversas séries estrearam prometendo ser a nova "Sopranos", mas nenhuma alcançou o sucesso de crítica, ou audiência esperada. Aos poucos, a tagline "It's not TV, it's HBO" se tornou uma piada na imprensa e um tiro no próprio pé para a HBO.

Com "Boardwalk Empire", o canal a cabo busca resgatar este prestígio perdido nos últimos anos. Criada por Terence Winter, produtor executivo de "Sopranos", e dirigida por Martin Scorsese - que também acumula o cargo de produtor executivo -, a série de época resgata a era da Proibição nos EUA, nos anos 1920, quando se tornou proibido vender álcool no país.

No centro disso, em Atlantic City, está o viúvo Enoch "Nucky" Thompson, interpretado por Steve Buscemi, sem exageros, um dos melhores atores vivos, que aqui, entrega um personagem de caráter duvidoso e personalidade ambígua: um dos responsáveis pela proibição do álcool em Atlantic City, Thompson é quem oferece à burguesia, uma festa com todo o álcool que seus convidados consigam beber.

O capricho da emissora em reviver os anos 1920 é tão notório que o telespectador, por algumas vezes, se perde no meio dos diálogos ao deslumbrar a riqueza não só dos cenários e locações, mas dos detalhes e caprichos da produção em ambientar o drama de época - deixando o telespectador boquiaberto com alguns costumes e "way of life" da época.

Quanto ao centro das ações, o ponto de partida da produção é o dia que antecede a proibição do álcool. Logo após o ato, como conta a história, muitos gângsteres e políticos se interessam no assunto, alguns para o bem, outros para o mal. Thompson é corrupto e um dos principais responsáveis pelo tráfico de bebidas. Consequentemente, o assunto logo chega aos federais, que tentam persuadir o braço direito de Thompson a trabalhar para o governo e contra Nucky.

O piloto também mistura muito bem personagens fictícios - como Thompson -, com gângsteres reais que fizeram nome na época, casos de Arnold Rothstein (Michael Stuhlbarg) e Charles "Lucky" Luciano (Vincent Piazza), além de uma rápida aparição de um certo gângster que cruza com Jimmy Darmody, personagen de Michael Pitt, e, ao se apresentar, diz se chamar Al Capone.

Em um gesto clássico para mostrar que acredita na série, a HBO prematuramente já renovou "Boardwalk" para uma segunda temporada. O drama, exibido aos domingos, teve a premiere mais assistida dos últimos seis anos da casa.

Os fantasmas de "Mad Men" e "Sopranos" ainda puxam o pé da emissora, mas a julgar pelo ponto de partida de "Boardwalk Empire", a premissa, o elenco, e até o dia e horário em que é exibida - o mesmo de "Sopranos" -, a série parece finalmente colocar o cabo de volta ao mapa das séries de conteúdo relevante. A série estreia no Brasil no dia 17 de outubro, na HBO. A conferir.


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