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iG São Paulo

Pesquinda da USP mostra que famílias de classe média não levam em conta a qualidade das escolas do bairro ao escolher onde morar

Ao escolher um lugar para morar, a classe média paulistana não leva em conta a qualidade das escolas próximas. A conclusão é de pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo.

?Esse não parece ser um fator chave na hora da decisão e por isso a dinâmica do mercado imobiliário não valoriza a qualidade da escola e sua proximidade ao imóvel?, afirma Carla Jucá Amrein, autora da pesquisa, em reportagem da Agência USP. ?A decisão da escola onde o filho vai estudar parece ser feita em um segundo estágio?, completa.

Segundo ela a importância maior e daa à segurança ou à distância a centros de empregos. Pessoas de renda mais baixa, principais consumidoras do ensino público, tendem a valorizar mais a proximidade a meios de transportes coletivos, como a distância do imóvel a linhas de trem.

A autora compara a situação com os Estados Unidos e Europa, onde a proximidade de boas escolas é fator relevante na escolha da moradia. Em geral, o sistema de ensino público nos Estados Unidos e na Europa tem como regra para matrícula de um aluno que este more próximo a escola. ?Mais especificamente, essas cidades são divididas em distritos escolares e, para poder ser matriculada em um determinado colégio público, a criança precisa residir ali?, explica Carla.

Em São Paulo também existe a regra de matrícula vinculada ao local de residência, mas ela é bastante flexível. Já os colégios particulares, procurados pela maior parte das famílias de classe média, não possuem essa regra de matrícula por proximidade.
 

iG São Paulo

Infográfico mostra pontos principais das obras e biografia dos autores. Leia também análises dos clássicos da literatura brasileira

Na reta final para os vestibulares da Unicamp e da Fuvest, cujas primeiras fases serão realizadas nos dias 21 e 28 de novembro, o iG publica um infográfico com informações sobre as obras e análises feitas por especialistas e pesquisadores destes clássicos da literatura brasileira. A ideia é que os estudantes revisem o conteúdo e se atendem a pontos cruciais para a compreensão dos livros.

O maior vestibular do País, que seleciona alunos para a Universidade de São Paulo (USP) e para o curso de Medicina da Santa Casa, a Fuvest e a Unicamp têm uma lista unificada de nove obras exigidas no vestibular: Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Iracema, de José de Alencar; Dom Casmurro, de Machado de Assis; O Cortiço, de Aluísio Azevedo; A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Capitães da Areia, de Jorge Amado; e a Antologia Poética (com base na 2ª ed. aumentada) de Vinícius de Moraes. As obras são exigidas também nos vestibulares de outras 25 instituições de ensino superior do País. No infográfico abaixo é possível selecionar os livros e as universidades que exigem esses títulos.

O iG elaborou fichas de leitura, com a ajuda dos professores do Cursinho da Poli, de São Paulo, e entrevistou escritores, professores mestres e doutores que estudam e pesquisam os autores e as obras exigidas pelo maior vestibular do Brasil. As análises dos especialistas vão além do resumo da obra, mas ajudam os leitores a entenderem o contexto histórico e literário dos textos e apresentam dicas que ajudarão na compreensão dos livros.

Veja o infográfico acima e confira as análises:

- ?Auto da Barca do Inferno?, uma peça com quase 500 anos
- ?Memórias de um Sargento de Milícias?, uma crônica do Rio
- ?Iracema?, o romance indianista de José de Alencar
- ?Dom Casmurro?, o enigma nunca desvendado de Machado de Assis
- ?O Cortiço?, um retrato da vida urbana no fim do século 19
- ?A Cidade e as Serras?, o romance póstumo de Eça de Queirós
- ?Vidas Secas?, o sertão brasileiro na ótica de Graciliano Ramos
- ?Capitães da Areia?, a narrativa pela ótica de meninos de rua
- ?Antologia Poética?, as três fases de Vinicius de Moraes
 

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Texto publicado após a morte do escritor português não foi revisado totalmente pelo autor

Foto: Reprodução

?A Cidade e as Serras? é uma obra póstuma de Eça de Queirós, publicada em 1901, um ano após a morte do escritor português. Apesar de o romance estar praticamente pronto, a versão final ainda não tinha passado por todas as revisões que Eça costumava fazer. Em busca do perfeccionismo estilístico, o autor revia inúmeras vezes o texto e fazia alterações, até mesmo no desfecho da história.

?O romance não está totalmente referendado pelo autor. Não temos nem como saber se o final seria esse mesmo?, diz Helder Garmes, doutor em Letras e professor da Universidade de São Paulo (USP). Eça dedicava atenção especial ao desfecho de seus romances. O final vinha sempre a reforçar uma tese trabalhada no livro ou relativizá-la. ?Os finais são de fato um espaço privilegiado para o autor. Este é um tanto desautorizado?, afirma o professor.

Desenvolvimento do conto ?Civilização? (1892), o romance trata de um tema obsessivo para o autor, a discussão do que é ou não civilização. Em ?A Cidade e as Serras?, a cidade é a capital francesa, Paris, e as serras são Tormes, no interior de Portugal. ?Eça critica o projeto civilizatório e a falsidade da noção de que a civilização europeia seria superior ao resto do mundo?, avalia Garmes, que coordena o projeto de pesquisa ?Perspectivas críticas da obra de Eça de Queirós? na USP.

No livro a oposição entre campo e cidade trabalha os temas barbárie e civilização. Mas Eça mostra que tanto em um espaço quanto no outro há exploração do trabalho, relações desiguais e exploratórias. ?É interessante notar que o autor desenvolve os aspectos sociológicos. Há uma crítica à falta de compromisso da classe dirigente com o projeto de país e com os trabalhadores?, destaca Garmes.

Análises

Até meados do século 20, alguns críticos defendiam a teoria de que a fase final do autor seria uma reconciliação dele com sua pátria, Portugal. Em ?A Cidade e as Serras?, Jacinto, o personagem principal, deixa Paris e volta para Tormes, onde se apaixona pela serra, pela comida e pela simplicidade da vida no local. Algumas leituras veem esse romance como um elogio à terra natal, em detrimento do progresso de uma vida fútil em Paris.

Garmes explica que, mais recentemente, a crítica literária percebeu que Eça havia mudado a forma de criticar Portugal, após o próprio ter deixado o país para morar em Paris. ?Ele não havia se reconciliado e continuava sendo irônico e extremamente crítico?, aponta Garmes.

Há muitas maneiras de interpretar a obra do escritor português. Uma das análises possíveis é a de que o autor queria retratar a realidade portuguesa da segunda metade do século 19. Em ?A Cidade e as Serras?, ele faz uma crítica à visão da elite portuguesa de que Portugal seria um país fadado a ser agrário religioso onde a simplicidade seria a única qualidade. ?Em sua fase final, Eça deixa de lado sua parte mais polemista e crítica. Mas ele sempre olhou Portugal com um olhar crítico e áspero.?
 

Veja outras análises:

- ?Auto da Barca do Inferno?, uma peça com quase 500 anos
- ?Memórias de um Sargento de Milícias?, uma crônica do Rio
- ?Iracema?, o romance indianista de José de Alencar
- ?Dom Casmurro?, o enigma nunca desvendado de Machado de Assis
- ?O Cortiço?, um retrato da vida urbana no fim do século 19
- ?Vidas Secas?, o sertão brasileiro na ótica de Graciliano Ramos
- ?Capitães da Areia?, a narrativa pela ótica de meninos de rua
- ?Antologia Poética?, as três fases de Vinicius de Moraes
 

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Livro mistura elementos indígenas mitológicos com históricos em busca da formação de uma identidade nacional

A história da índia Iracema que se apaixona por um europeu, Martim Soares Moreno, personagem histórico real, mistura aspectos mitológicos da cultura indígena com a colonização do Brasil. Publicado em 1865, ?Iracema?, do escritor cearense José de Alencar, é um romance escrito em prosa poética, o que dá a obra uma dimensão mítica, de lenda, mas sempre apoiada em um argumento histórico.

?Para alguns críticos o primeiro brasileiro aparece na figura de Moacir ? filho da união da índia Iracema com o elemento colonizador, Martim. É a formação da identidade nacional simbolizada nesse encontro?, avalia Marcelo Almeida Peloggio, professor e Coordenador do Grupo de Estudos José de Alencar, na Universidade Federal do Ceará.

Autor de teses de mestrado e doutorado sobre o Alencar, Peloggio destaca a importância da compreensão da simbologia utilizada pelo autor. Mito e história se complementam na obra. ?Iracema vai sendo esmaecida pelo fator histórico, que é a chegada dos portugueses e a ocupação da terra. É uma representação do que houve com a população indígena, que foi dizimada ou sofreu aculturação?, afirma o professor.

Durante a leitura, é importante que os estudantes estejam atentos a alguns pontos. Peloggio destaca a riqueza poética, a valorização da natureza, a celebração das características brasileiras, próprias do romantismo. ?É importante perceber a cor local que Alencar imprime na obra ao valorizar os elementos. Pássaros, árvores, animais, a linguagem e o cenário do Ceará do século 17.?

Os estudantes também devem notar a harmonia que havia entre Iracema, sua tribo e sua terra, e como essa relação pacífica é quebrada a partir do momento em que o elemento histórico (a colonização portuguesa) avança e domina. ?Quando Iracema se entrega a Martim, ela rompe os laços sagrados com a sua tribo e sai da esfera mítica para entrar na esfera da história. Alencar mostra a dura realidade do povo indígena e do combate civilizatório que se travou naquele momento.?

Identidade nacional

A heroína é idealizada, representante da natureza brasileira e símbolo da perfeição. Martim é o colonizador: desperta curiosidade e fascínio, traz o amor e a desgraça para Iracema (representa a destruição para as tribos indígenas). A narração em terceira pessoa, deixa, por vezes, entrever a primeira pessoa, um eu (narrador) saudoso de sua terra natal. ?É uma obra que busca criar uma identidade nacional, um símbolo da nacionalidade brasileira que era uma necessidade da sociedade naquele tempo?, resume Peloggio.
 

Veja outras análises:

- ?Auto da Barca do Inferno?, uma peça com quase 500 anos
- ?Memórias de um Sargento de Milícias?, uma crônica do Rio
- ?Dom Casmurro?, o enigma nunca desvendado de Machado de Assis
- ?O Cortiço?, um retrato da vida urbana no fim do século 19
- ?A Cidade e as Serras?, o romance póstumo de Eça de Queirós
- ?Vidas Secas?, o sertão brasileiro na ótica de Graciliano Ramos
- ?Capitães da Areia?, a narrativa pela ótica de meninos de rua
- ?Antologia Poética?, as três fases de Vinicius de Moraes
 

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Esquetes de Manuel Antônio de Almeida retratam com humor e sarcasmo a vida carioca no começo do século 19

Com ironia, sarcasmo e bom humor, ?Memórias de um Sargento de Milícias?, de Manuel Antônio de Almeida, conta as peripécias de Leonardo, o sargento do título, na cidade do Rio de Janeiro do começo do século 19. Originalmente publicado aos domingos no jornal ?Correio Mercantil?, entre os anos 1852 e 1853, o livro tem muito a ver com o formato da publicação.

As ?Memórias? eram publicadas em uma pacotilha, a versão do Correio Mercantil que circulava aos domingos. Mais leve e com um caráter de entretenimento, a pacotilha comentava comicamente os fatos do Rio de Janeiro então contemporâneos, trazia recados para personalidades, políticos e pessoas públicas, sempre com uma boa dose de humor.

?As ?Memórias? ecoam os comentários, as pílulas que eram publicadas na pacotilha?, destaca Mamede Mustafa, professor doutor da Universidade de São Paulo (USP) e autor da tese ?Sob o Império da Letra: Imprensa e Política no Tempo das ?Memórias de um Sargento de Milícias??.

Apesar de também terem sido escritas no Romantismo, as ?Memórias? são bem distintas dos romances de José de Alencar, escritor contemporâneo a Almeida. ?O gênero é diferente, mais cômico e documentário. As ?Memórias? e os textos da pacotilha eram praticamente satíricos. O cômico apenas provoca, mas o satírico agride?, explica Mustafa. ?Em termos de ousadia de linguagem era um humor bastante contundente.?

Durante a leitura, o professor recomenda prestar atenção na falta de um julgamento moral e nas ilegalidades que as personagens comentem. Prevaricação, perjúrio e roubo são algumas das peripécias do sargento. ?Leonardo apronta, mas acaba sempre sendo perdoado?, aponta Mustafa.

?Um brasileiro?

Publicado em livro em 1854 (primeiro volume) e 1855 (segundo volume), ?Memórias de um Sargento de Milícias? tem estrutura de folhetim, capítulos autônomos, curtos e histórias com começo, meio e fim. No jornal, as aventuras saíram sem assinatura e na primeira edição em livro, o texto ganhou a autoria de ?Um Brasileiro?.

Para Mustafa, há várias hipóteses para explicar a omissão da autoria de Almeida. ?Provavelmente, no ambiente letrado da corte, que era pequeno, tudo mundo sabia quem era o autor das Memórias. Pode ser também que ele tenha optado por não assinar, por não considerar o texto bom. Ou talvez não interessasse assinar por motivos políticos?, elenca o professor e organizador da edição da obra publicada pela Editora Ateliê. Mustafa lembra também que na época não era raro escritores publicarem texto sem autoria ou usarem pseudônimos.
 

Veja outras análises:

- ?Auto da Barca do Inferno?, uma peça com quase 500 anos
- ?Iracema?, o romance indianista de José de Alencar
- ?Dom Casmurro?, o enigma nunca desvendado de Machado de Assis
- ?O Cortiço?, um retrato da vida urbana no fim do século 19
- ?A Cidade e as Serras?, o romance póstumo de Eça de Queirós
- ?Vidas Secas?, o sertão brasileiro na ótica de Graciliano Ramos
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- ?Antologia Poética?, as três fases de Vinicius de Moraes
 

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Livro com poemas selecionados pelo próprio autor mostra a evolução da obra do ?poetinha?

Foto: AE

Para mergulhar na ?Antologia Poética? de Vinicius de Moraes, é preciso ler com bastante atenção o texto que abre o livro, escrito pelo próprio autor em 1949. Nesta apresentação, Vinicius faz uma advertência e explica a construção da antologia, organizada por ele. O poeta faz uma autoapreciação crítica de sua obra, suas fases e seu desenvolvimento

O ?poetinha?, como Vinicius ficou conhecido, divide a antologia em três partes, que seriam as fases de sua obra. A primeira parte é mística e religiosa, a segunda, uma fase de transição, e a terceira parte do livro, de tendência esquerdista, com temas como a valoração do trabalho humano e os preconceitos de classe e de meio. Esta terceira parte da ?Antologia? seria a segunda fase da obra de Vinicius de Moraes, aquela que ele vê como definitiva.

?Grande parte da crítica segue o modelo e a divisão em fases proposta pelo poeta. Mesmo que a crítica discorde não é possível desconsiderar a leitura desta introdução. Não se trata de uma verdade absoluta, por ser a opinião do autor, mas basicamente é uma visão compartilhada por muitos?, avalia Eucanaã de Nazareno Ferraz, poeta e professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Durante a leitura é interessante notar que há textos que se comunicam. Ferraz aponta que na última fase há um desejo da pureza da primeira fase. ?Vinicius ama o amor quando ele não se realiza. A realização amorosa é um problema. É como se ele guardasse um resquício daquele período inicial que sugeria que o verdadeiro amor é um amor divino, do homem para com Deus?, explica o professor e pesquisador de poesia moderna e contemporânea.

Ferraz aconselha uma leitura atenta à comunicação entre as fases da obra de Vinicius. É importante descobrir o que os poemas da fase intermediária têm da primeira e o que eles anunciam da segunda. ?Os poemas transitam e se deixam atravessar por vocabulários e temas das duas fases. Observar detalhadamente essa fase de transição é muito importante e prazeroso?, ressalta.

Paciência

Aos leitores jovens, Ferraz recomenda paciência e um dicionário ao lado. ?Na poesia, uma palavra é o universo inteiro. É bom olhar no dicionário os significados daquela palavra, porque ela pode ser a chave para a compreensão.? O pesquisador avisa que não se pode fazer uma leitura apressada, é preciso ler muitas vezes o poema, perceber o ritmo, ?ir descamando-o aos pouquinhos?.

Mergulhar na obra de um poeta é como conhecer uma pessoa. Exige tempo, paciência e dedicação. ?O leitor tem se tornado impaciente. Se ele fica dois minutos em uma página de internet é muito. Para o impaciente, a poesia é mais difícil, mas ao mesmo tempo ela tem muito a dar. E Vinicius tem muito a dar. Ele é engraçado, fala de amor. É uma ótima porta de entrada para este universo.?

 

Veja outras análises:

- ?Auto da Barca do Inferno?, uma peça com quase 500 anos
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Marina Morena Costa, iG São Paulo

Texto de Gil Vicente, escritor português, coloca personagens perante um julgamento moral

Em um porto, almas encontram duas barcas: uma vai para o Inferno, comandada pelo Diabo, e a outra, a da Glória ou do Paraíso, segue para o céu, liderada pelo Anjo. A peça teatral de Gil Vicente, escrita em 1517, é composta de pequenas esquetes, cenas nas quais personagens representantes dos diferentes tipos da sociedade medieval portuguesa encaram o destino após a morte.

?Nenhuma personagem tem nome. Elas são chamadas pela profissão ou função social ? Fidalgo, Agiota, Parvo (débil, tolo, inocente), Frade, Judeu, Juiz, Procurador ? ou por nomes populares. Representam tipos sociais em um auto da moralidade católica?, explica Márcio Ricardo Coelho Muniz, professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador da literatura medieval portuguesa.

Todas elas carregam consigo objetos que representam sua classe social, seu apego à vida terrena e aos prazeres. O destino está traçado, não há negociação. Durante o diálogo com o Diabo e o Anjo, Gil Vicente mostra as razões da condenação ? ou da absolvição ? criando um discurso moral, porém irônico, satírico, sem o peso da moralidade. ?Algumas personagens, ao final da cena, tomam a consciência de que são pecadores, mas não são todos?, afirma Muniz, que estuda a lírica trovadoresca galego-portuguesa e o Teatro de Gil Vicente.

A peça traz representantes das três grandes instituições da sociedade medieval: nobreza (fidalgo), igreja (frade) e justiça (Juiz). ?São os sustentáculos da sociedade do antigo regime?, diz Muniz.

O leitor deve ter em mente que Gil Vicente era um autor da corte, financiado por ela, e era para o rei e a grande nobreza que ele escrevia suas peças. ?O ?Auto da Barca do Inferno? circulou pela sociedade portuguesa, foi representado em feiras e festas populares. Mas a moralidade cristã que ele traz era uma mensagem para a nobreza?, explica Muniz.

Linguagem

Uma das chaves para a compreensão do texto é a linguagem. Por ser muito antigo, o texto traz um vocabulário próprio da época, por isso é importante ter uma edição que traga um bom glossário. ?A linguagem é um elemento de dificuldade, mas não é uma barreira. Os estudante deve trabalhar com o sentido geral, com a caracterização da personagem e a argumentação durante os diálogos. Ele não deve esperar que vá entender palavra por palavra?, avisa Muniz.

O professor destaca ainda habilidade linguística de Gil Vicente para criar discursos cômicos, líricos, religiosos e morais. ?Há uma série de brincadeiras no texto. Uso de diminutivo, ironias. Essas são as nuances que os estudantes devem observar durante a leitura.?
 

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Marina Morena Costa, iG São Paulo

Romance trata das raízes da opressão no campo brasileiro e se mantém atual nos dias de hoje

Foto: AE

A saga de uma família nordestina em ?Vidas Secas?, de Graciliano Ramos, começa com uma cena árida: a mãe lambe o focinho sujo de sangue da cadela de estimação. Baleia havia matado um preá, único alimento disponível, e Sinhá Vitória não podia desperdiçar nenhuma gota do animal.

?A obra trata das raízes da opressão no campo brasileiro. Graciliano cria personagens com características do opressor e do oprimido?, afirma Belmira Rita da Costa Magalhães, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFA) e autora de uma tese de doutorado sobre ?Vidas Secas? e a construção autoral do escritor alagoano.

Para compreender ?Vidas Secas? é fundamental conhecer o Brasil, avisa a especialista. Na obra, o autor mostra como se dão as relações de poder, como se forma ?aquele que não pode responder, que não pode fazer contas? e, do outro lado, ?aquele que dita as regras, que manda embora?. ?Graciliano foca no Nordeste, onde as relações do campo são mais brutais, grosseiras. Mas os conflitos presentes no livro estão também em outros tipos de relação e até mesmo nas cidades?, avalia Belmira.

A análise de ?Vidas Secas? da pesquisadora destaca o papel feminino na trama. Sinhá Vitória quer uma vida melhor, e é por causa de seus sonhos que a família avança e conquista condições melhores. ?Ela quer uma vida melhor e expressa isso no desejo de ter uma cama, onde ela possa deitar e não sentir dor. Sinhá Vitória impulsiona o romance pra frente.?

A família se instala numa fazenda ? onde Graciliano explora as relações sociais e de trabalho ? e os desejos aumentam. Sinhá Vitória passa querer outras coisas, como um lampião, um vestido florido, um guarda-chuva, um sapato de salto alto para ir à cidade. Itens menos essenciais e ao mesmo tempo extremamente simples, que evidenciam as condições precárias da família.

Feminino

?Graciliano mostra que os seres humanos são capazes de se transformar?, enfatiza Belmira. No primeiro capítulo, não há falas. Os personagens apenas emitem sons, como animais. No entanto, com o desenrolar da trama, passam a conversar, até que no último capítulo há um diálogo entre eles. E os sonhos ficam cada vez maiores: como colocar os filhos na escola. ?Esse caminho da transformação do ser humano é mostrado belamente em ?Vidas Secas? e sempre impulsionado pela mulher?

Para Belmira, o fio condutor da transformação não poderia ser o masculino, o personagem Fabiano, pois seria inverossímil. ?É ela quem calcula quanto Fabiano deve receber do patrão, mas é ele quem vai cobrar. A história se passa no campo, profundamente atrasado, onde a mulher não pode agir. Mas no romance ela conduz.?

Atual

?Quando vemos as relações no campo hoje ? a discussão sobre a reforma agrária, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a preocupação e a necessidade de alimentar a população e as cidades ?, o romance é atualíssimo?, destaca Belmira.

A professora diz que ?os meninos? não gostam muito de ler ?Vidas Secas? hoje em dia: ?Mas é porque os professores não trabalham todas essas coisas em sala de aula?.
 

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Marina Morena Costa, iG São Paulo

Romance tido por décadas como uma história de traição desperta dúvidas no leitor até os dias de hoje

Foto: ABL/Divulgação

Um homem que acredita ter sido traído pela esposa com o melhor amigo relembra o caso e faz um ajuste de contas com o passado. ?Dom Casmurro?, romance de Machado de Assis publicado em 1899, contém enigmas que ainda ecoam. ?Como não é um livro transparente, contribui para o interesse do leitor e permanece sendo lido até os dias de hoje?, afirma Luís Augusto Fischer, crítico literário, escritor e estudioso da obra de Machado.

Por décadas, o livro foi visto como uma história de traição. Somente 60 anos depois surgiu a dúvida se de fato Capitu teria traído Bentinho, narrador que conta a história em primeira pessoa. ?Betinho faz a denúncia e o julgamento. Ele é advogado ? imagem que devemos olhar com certa prudência ? e o que sabemos de Capitu é o que ele diz. Como ele é um sujeito simpático, o leitor tende a acreditar em sua versão?, analisa Fischer, doutor em Letras e também professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Considerado um dos melhores livros da literatura brasileira, ?Dom Casmurro? é uma espécie de marco na obra do escritor brasileiro. ?Representa a maturidade do Machado de Assis, o ponto de chegada do melhor escritor brasileiro?, diz Fischer.

Para o leitor que está começando a se aventurar na obra machadiana há duas coisas que precisam ser observadas: o enredo ? as coisas que acontecem na história, as peripécias ? e o narrador. Segundo Fischer, nas obras de Machado é absolutamente imprescindível prestar atenção em quem está falando, porque o narrador nunca é completamente inocente. ?Machado não pratica um realismo simples.?

Ciúmes

Apesar de o ciúme ser o assunto que Bentinho coloca em primeiro plano, é preciso prestar atenção também no que ele não diz. ?Se o leitor tiver cautela, perceberá que o sujeito tem outras questões?, alerta o professor da UFRGS. Bentinho é um homem que recebeu uma herança bastante razoável de sua família, enquanto Capitu é uma menina de classe média baixa. ?O tema da ascensão social aparece e desaparece no romance. Bentinho olha para Capitu com um pouco de preconceito de classe.?

Também é importante estar atendo aos personagens coadjuvantes. ?São figuras impressionantes, como José Dias, o agregado. Vive na casa sem função clássica, uma espécie de faz tudo que ao mesmo tempo não é nada?, destaca Fischer. A posição social e o mundo do Segundo Reinado do Império são elementos muito importantes na obra.
 

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Marina Morena Costa, iG São Paulo

Romance ambientado no Rio de Janeiro desenha painel da sociedade brasileira e de suas relações sociais, econômicas e de poder

Denunciar as mazelas sociais e se afastar da visão fantasiosa da vida, presente no romantismo. Estes eram os principais objetivos do movimento literário Realismo-Naturalismo, no qual ?O Cortiço? se insere. O romance de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, desenha um amplo painel da sociedade do Rio de Janeiro do fim de século 19 e de suas relações sociais.

?Esse livro é um cânone. É um dos primeiros que trata, sobretudo, das personagens que trabalham. Ele dá visibilidade à figura do trabalhador?, destaca Angela Maria Rubel Fanini, doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autora da tese ?Os romances-folhetins de Aluísio Azevedo: aventuras periféricas?.

Em ?O Cortiço? temos uma gama de personagens trabalhadores, de diferentes profissões ? lavadora, ferreiro, operário ? reflexo das transformações que o País enfrentava: determinação do fim do tráfico negreiro (1850) e da escravatura (1888), decadência da economia açucareira, industrialização e crescimento das cidades. Azevedo tenta fotografar o real e traz todos esses elementos e conflitos para o romance.

A história se dá em dois ambientes principais bem diferentes, o cortiço do João Romão e o sobrado do Barão Miranda, figura que representa a elite brasileira. ?Temos a presença de várias camadas sócio-econômicas, desde a classe dos mais humildes, passando pela pequena classe média, burguesia e elite. O autor faz uma síntese da sociedade naquela época?, ressalta Angela, que também é professora de Letras da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Angela aconselha os estudantes a prestarem atenção nos diversos conflitos que a obra apresenta. ?Há relações de conflito interracial, oposição entre escravidão e trabalho livre, brasileiros e portugueses ? havia uma animosidade, por conta da colonização?, afirma a professora.

O romance pretende denunciar a exploração do homem pelo próprio homem, expondo situações e relações de poder dentro de uma habitação coletiva. A leitura atenta leva a compreensão da proposta do Realismo-Naturalismo, que era pautado pela razão e pretendia fazer uma investigação, quase científica, dos mecanismos sociais.
 

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Marina Morena Costa, iG São Paulo

Romance mais vendido de Jorge Amado transforma menores abandonados em heróis

Foto: AE

Não há violência maior do que o abandono. E é justamente essa violência que Jorge Amado explora e coloca sob a ótica da vítima em ?Capitães da Areia?. Na obra, de 1937, os heróis são os meninos de rua. ?Pela primeira vez na literatura brasileira, o menor abandonado é o centro da história. Hoje ele é motivo de preocupação, mas há 73 anos era confundido com deliquente e a discriminação era grande?, afirma Eduardo de Assis Duarte, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador da obra de Jorge Amado.

Duarte destaca que ?Capitães da Areia? não tem grande importância estética, formal, e sim política. ?Jorge Amado usa a forma de romance tradicional, ele se apega à herança romântica do século 19. Não é um livro de vanguarda modernista. A importância da obra é de natureza política. Trata-se de um livro politicamente revolucionário para a época?, afirma o professor e autor da tese de doutorado ?Jorge Amado: Romance em tempo de utopia?.

?Capitães da Areia? foi censurado, e Jorge Amado preso pela polícia do Estado Novo (1937-45), regime de exceção instituído por Getúlio Vargas que limitava a liberdade política. Mais de mil exemplares de livros foram queimados em uma grande fogueira em praça pública em Salvador.

?Na época, o livro foi um escândalo. Além da questão do erotismo, o ponto de vista das crianças ladras não era aceito. Jorge tem um olhar humano e as transforma em figuras humanas e não em monstros. O autor não defende o roubo, mas ele mostra porque as crianças agem assim. Elas roubam porque têm fome, porque não têm pai e mãe?, elenca Duarte.

Romantismo

O pesquisador avalia que há dois pontos extremamente românticos na obra: o personagem Professor, que rouba só livros e lê as histórias à noite para os outros meninos, e o crescimento do pequeno marginal que se torna líder de seu povo ? Pedro Bala não vira chefe de quadrilha, ele se torna uma liderança política. ?Esses elementos compõem o encanto do livro. Há uma chama romântica de alavancar o oprimido, um otimismo e uma esperança em relação a ele. Os meninos são heróis idealizados e, no fundo, são puros.?

Apesar de ser uma obra com estrutura romântica, há elementos realistas na obra, como a crítica social. E os estudantes devem estar atentos a questão dos estilos de época. ?Por ter sido publicado em pleno modernismo, ?Capitães? tem uma linguagem moderna, próxima dos avanços do modernismo ? menos formal, com traços de oralidade. Mas a estrutura é romântica: o bem vence o mal, o herói supera tudo e há o exagero romântico.?

Uma cena que exemplifica o ?exagero romântico? citado por Duarte é o suicídio de um personagem durante uma crise de consciência. O menino estava prestes a ser adotado por uma mulher de classe média, mas cede à pressão do bando e permite que eles assaltem a casa de sua futura mãe. Culpado e perseguido pela polícia, ele se joga do alto do Elevador Lacerda, em uma cena tipicamente romântica do sacrifício do herói.

Jorge Amado tinha apenas 25 anos quando escreveu ?Capitães da Areia?. ?É um livro de um jovem, que acredita que os pobres vão salvar o País?, resume Duarte. Para o pesquisador, a obra representa um grande painel da miséria, a partir de um olhar terno e sensível, que toma partido dos menores e mostra que eles são vítimas de um problema muito mais amplo, o abandono dos pobres no Brasil. ?É uma violência muito maior do que a praticada pelo bando de garotos. É uma violência sistêmica. Não há violência maior do que o abandono. Só a morte?.
 

Veja outras análises:

- ?Auto da Barca do Inferno?, uma peça com quase 500 anos
- ?Memórias de um Sargento de Milícias?, uma crônica do Rio
- ?Iracema?, o romance indianista de José de Alencar
- ?Dom Casmurro?, o enigma nunca desvendado de Machado de Assis
- ?O Cortiço?, um retrato da vida urbana no fim do século 19
- ?A Cidade e as Serras?, o romance póstumo de Eça de Queirós
- ?Vidas Secas?, o sertão brasileiro na ótica de Graciliano Ramos
- ?Antologia Poética?, as três fases de Vinicius de Moraes
 

iG Brasília

Cerca de 46 mil exemplares elaborados pelo Conselho Nacional de Justiça seguirão para tribunais e secretarias de educação

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) elaborou uma cartilha para ajudar professores e pais a prevenir o problema do bullying nas escolas. Cerca de 46 mil cartilhas serão encaminhadas a tribunais, Ministério da Educação e secretarias estaduais de ensino. O material também está disponível no site do conselho.

Apresentado durante seminário sobre o tema esta semana em Brasília, o material de autoria da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva é didático e pretende auxiliar os educadores a lidar com a violência psicológica e até física sofrida por crianças e adolescentes. Além de ajudá-los a identificar vítimas e agressores desse tipo de violência, a cartilha fala sobre como a escola pode evitar o bullying.

Para a médica, a exposição dos envolvidos nesse tipo de conflito pode causar mais prejuízos do que os causados pelo bullying. Ela defende a criação de estruturas de conciliação nas escolas com profissionais especializados. A cartilha é uma das iniciativas do Projeto Justiça nas Escolas, que visa aproximar o Judiciário das instituições de ensino no combate e na prevenção de problemas que afetam os alunos.

Palestras

Nesta sexta-feira, especialistas, educadores e integrantes do Judiciário se reúnem em seminário no Rio de Janeiro para discutir o tema. Organizado pela Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj), o encontro integra o Projeto Justiça nas Escolas.


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