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Leia as colunas de Lúcio Ribeiro, Sérgio Rodrigues, Ricardo Kotscho, Mona Dorf, Daniel Soler, Ricardo Calil e Bruno Carvalho no Último Segundo - iG.




Sequência de episódios deixou claro que a negligência contribuiu de maneira determinante para os atuais níveis de violência

Os ataques violentos no Rio são justificados como um revide das organizações criminosas à transferência de presos para presídios federais e à política de ocupação de favelas por UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Mas ainda que a explicação seja plausível para a ultima semana não é de hoje que o Rio é vitima da violência resultante de uma combinação complexa entre a ação dos traficantes, as milícias, uma parte corrupta da polícia e anos de inoperância das políticas de segurança pública.

As imagens são fortes: ônibus e carros queimados em diferentes pontos da cidade, marcas de tiro em profusão em bases policiais, tanques nas ruas, além de fotos que mostram o poder de fogo por parte dos criminosos.

As comunidades estão assustadas e o ?clima de guerra? é evocado com frequência para descrever a situação.

Diante de um cenário que conjuga confronto e rendição, conquista e medo, dois aspectos chamam a atenção.

Em primeiro lugar, o fato de que tudo isso acontece em um momento em que o Rio tem, efetivamente, uma política de segurança pública. Uma política propositiva e capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade entre ONGs, acadêmicos e gestores qualificados. E, o mais importante, que se anunciava como uma política que entende segurança pública como tema não apenas para a polícia, mas também para um conjunto de outras políticas sociais.

Seu princípio, cuja a ilustração são as UPPs, seria a recuperação de territórios e o reestabelecimento da vida comunitária. Empreender a transformação da favela em bairro implica, entre outras coisas, uma vida livre da opressão imposta pelo tráfico de drogas e pelas milícias.

Exatamente por isso é fundamental lembrar que o policiamento previsto para as UPPs enfatizava o modelo comunitário. Não se trata de ignorar a necessidade do confronto e da ação contundente da polícia no enfrentamento dos criminosos. Mas é preciso manter no horizonte que, passado esse momento crítico, a política de segurança terá de voltar a ser mais do que a estratégia do confronto.

Nesse sentido, para legitimar a política de segurança em curso e fazer dela um marco positivo na história do Rio de Janeiro, é preciso conduzir o momento atual nos limites da lei ? não dar espaço para revanches, excessos e abusos de poder e violência por parte do Estado é tão importante quando enfrentar o crime.

Por outro lado, o que a sequência de episódios deixou claro é que a negligência contribuiu de maneira determinante para os atuais níveis de violência. Nesse sentido, esse é o momento de também discutir o tema das milícias e como o governo pretende enfrentá-las. Os depoimentos de apoio da população às operações dos territórios agora ocupados pela polícia evidenciam a opressão vivida no cotidiano das áreas dominadas. Não é de hoje que as milícias vêm ampliando seu poder de controle e vitimização da vida comunitária. Se o plano é reestabelecer a liberdade nesses locais, elas não podem ser ignoradas.

O que disseram no Twitter os candidatos de uma das provas mais difíceis dos últimos anos

Durante todo o dia, a Fuvest esteve entre os assuntos mais clicados pelos usuários do Twitter. Veja o que disseram, para esta coluna do IG Educação, alguns dos alunos que passaram por uma das provas mais difíceis que a Fuvest aplicou nos últimos anos.

@rebecachuffi Pedante e cansativo. Eu esperava mais da Fuvest

@nessadrumond Nossa, todos os vestibulares do mundo podiam ser iguais ao da FUVEST de hoje!

@ra_ph Descobri fazendo a Fuvest que o Enem é mais desorganizado do que já falam

@faasartori terrível... capricharam na dificuldade dessa vez...

@thepoker_queen Eu diria que eu esperava algo diferente. :) Biologia e Física estavam tranquilas de mais...o corte provavelmente vai subir

@ByaSoares a #Fuvest não estava tão dificil pra quem leu as leituras #Obrigatórias

@AndreLuizSuzano Sinceramente eu não sei avaliar a prova e nem o meu desempenho, não caiu nada do que vi no cursinho. #Fuvest

@fe_ml foi tensa, prova de muito conhecimento, pouco cansativa.

@caalberts Nunca chutei tanto na minha vida! HAHAHA

@claudiaevalente Geografia foi complexo. Exigiu, como sempre, muita atualidade

@frannreis @ENEMmateusprado prova dificil !

Primeira fase teve questões de conteúdo médio e difícil e menos interpretação

A primeira fase da Fuvest sempre foi marcada por reunir, na mesma prova, concepções bem diferentes. Algumas áreas apresentavam questões mais interpretativas e outras alternavam conteúdos de dificuldade média e alta - matemática é o último caso. Como sempre, a prova apresenta questões que são praticamente impossíveis de serem resolvidas por alunos de escolas públicas.

Na última reforma do seu vestibular, a Fuvest já vinha dando sinais do que poderia acontecer com sua prova. A segunda fase, que antes permitia que o candidato faltasse em até metade dos dias, simplesmente passou a obrigar o aluno a não zerar em nenhuma das matérias.

Isso pode parecer normal para o leitor, mas não é. Quem conhece a prova de matemática da segunda fase da Fuvest sabe bem que várias pessoas vão até o local do vestibular para não resolver nada. E não são só os cursos com matemática avançada em seus currículos que cobram a disciplina na segunda fase. A prova de matemática significa, para a maioria dos candidatos oriundos de escolas públicas, simplesmente a sua eliminação em um curso que cobre essa matéria na segunda etapa.

Mesmo com estes sinais, é difícil acreditar no que foi a prova de hoje. Chegou ao ponto de trazer uma questão com aqueles antigos testes de ?complete a frase?. E por aí foi.

Física, química e matemática continuaram difíceis, um pouco mais que nos vestibulares anteriores. Havia questões em matemática que nem contextualizavam a pergunta e apenas apresentavam a equação para o examinado resolver.

Geografia e português, que antes eram provas com muita interpretação, mudaram radicalmente. Em geografia não bastou analisar gráficos e demais informações, era preciso ter conteúdo acumulado. Em português, a Fuvest até pediu para que o aluno indicasse frases que tivessem o "pretérito perfeito do indicativo", "sinestesia" e "aliteração". Há muito tempo a Fuvest não propunha questões assim.

Literatura, em geral, era cobrada na segunda fase. Neste ano o candidato precisava conhecer bem pelo menos quatro dos livros indicados para leitura. Outros foram citados, mas somente para contextualizar perguntas, sem que houvesse necessidade de conhecimento das obras.

História não deixou muito espaço para análise, foi quase tudo conteúdo. Biologia manteve o modelo de anos anteriores, cobrando conteúdo, mas só o que está no programa do ensino médio. Já inglês merece destaque, porque propôs análise de textos com as respostas em português, como sempre foi e como deve ser.

O novo e polêmico reitor da USP insiste em dizer que a universidade precisa continuar a fazer um vestibular próprio. Rejeita a unificação da seleção das públicas paulistas e, ainda mais, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para ele, com o vestibular, a USP consegue definir e localizar claramente o perfil de aluno que deseja e garante que ele tenha vaga na instituição.

Pois então, senhor reitor, por esta prova dá para ter uma idéia do aluno que o senhor quer. Só resolvem bem esta prova alunos oriundos das escolas particulares tradicionais e alunos das poucas escolas públicas que fazem vestibulinho para selecionar alunos. Claro que, sempre passando pela anomalia que são os cursinhos pré-vestibulares em nosso sistema de ensino.

Quem teve de frequentar uma escola pública, mesmo que tenha se dedicado aos estudos e tenha conseguido alguma das poucas vagas em cursinhos gratuitos oferecidos pelas universidades públicas, com certeza ainda terá poucas chances de entrar na USP. Alguns, até agora, podem recorrer aos cursos menos concorridos, em que com menos de 40% de acertos nesta prova conseguem ir para a segunda fase. Mas até esses têm vida curta, pois a universidade já anunciou que a prioridade em sua reforma curricular é eliminar os cursos de menor concorrência.

Para o aluno paulista que fez o possível e o impossível para tentar a tão sonhada vaga em uma universidade pública, os últimos dias foram de muita tensão. E ela não termina hoje. Começou o mês com a bagunça que foi o Enem. Em seguida, fez a boa e racional prova da Unesp. Uma semana depois, fez a Unicamp, que cobrou conteúdos médios em suas questões alternativas e revolucionou, positivamente, com sua proposta de produção de textos. Terminou a maratona da primeira fase hoje, em um domingo de muito sol e calor, com uma prova conteudista e dedicada a duas dezenas de colégios particulares tradicionais e aos sistemas de ensino que impedem que o ensino médio tenha projetos pedagógicos. Pela frente, este aluno ainda tem a espera pelos resultados e as provas de segunda fase.

Cabem as perguntas: merece o estudante paulista sofrer quatro semanas seguidas e mais segundas fases para entrar na universidade? Não teria passado da hora de as estaduais paulistas unificarem seus vestibulares?

Questões optativas foram conteudistas, mas redação radicalizou ao pedir para candidato escrever sobre situações reais

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) reformou seu vestibular: questões da primeira fase passaram de dissertativas para optativas e propostas de redação foram apresentadas de forma inovadora. De cara, a mudança das questões pode até ser uma coisa boa, mas o resultado foi conservador.

A prova antiga da Unicamp tinha uma proposta interessante, com todas as questões em torno de um assunto central. Por exemplo, em um vestibular que tratou sobre saúde pública, biologia cobrava as principais doenças, história, as reformas sanitárias no Brasil, matemática, o cálculo da velocidade do mosquito da dengue etc. As questões eram conteudistas mas, no mar de falta de bom senso dos vestibulares no País, ao menos a prova tinha a proposta de fazer o candidato pensar sobre algum tema importante da sociedade brasileira.

A ampliação do número de questões, com a passagem da prova da primeira fase de dissertativa para objetiva, dificultou a criação de uma prova com um tema central, mas ajudou o estudante que se preparou durante todo o ensino médio. Com mais questões, é mais difícil cair justamente aquele assunto que o aluno deixou de se aprofundar. Quem estudou certamente encontrou nos cadernos de questões alguns dos assuntos aos quais se dedicou.

Assim, as questões em forma de teste ampliaram o conteúdo programático cobrado e beneficiaram o aluno que se dedicou aos estudos, mas a Unicamp não apresentou um vestibular avançado. Pelo contrário, as questões foram conteudistas, em todas as áreas. É muito difícil compreender por que boa parte dos vestibulares ainda não entendeu que quem decora conteúdos e fórmulas não será, necessariamente, o melhor aluno, o melhor pensador e o melhor profissional.

Um dos destaques da prova com testes da Unicamp foi a falsa contextualização. Sabe quando você encontra uma questão no vestibular que finge cobrar um conteúdo simples, daqueles necessários para resolver um problema do cotidiano, tentando justificar o monte de coisas desnecessárias que aprendemos no ensino médio, mas este problema nunca vai acontecer ma vida real? Pois é, estas questões estavam lá. Um exemplo é o do cálculo da altura de um cone de areia, depois que ela escorre de um molde cilíndrico.

E como todo vestibular ou prova de avaliação dificilmente foge da tentação de fazer defesa do programa partidário do governo de plantão, estava lá uma questão que ensina que a classe média, a que tem trabalho formal, gasta 36% do seu salário em impostos.

Redação é inovadora

Na redação, a Unicamp radicalizou. Propôs três situações reais para o aluno escolher uma. Na primeira, o aluno deveria comentar um trabalho de pesquisa em um site, no segundo fazer um convite, contextualizando a atividade, para uma profissional ministrar uma palestra e no último articular idéias de um texto literário com acontecimentos públicos, criando um texto que expusesse opiniões e tentasse influenciar o leitor.

Se a parte objetiva da prova foi conservadora, reafirmou o ensino médio da educação bancária e beneficiou a ditadura dos livros didáticos e dos sistemas de ensino, a redação foi muito mais parecida com propostas de educação do século 21, sobretudo de uma educação centrada nos pilares "Aprender a Conhecer, a Resolver, a Ser e a Conviver". São duas concepções diferentes de educação, contrárias entre si, no mesmo vestibular.

Em uma análise mais ampla, o vestibular da Unicamp não ficou igual a nenhum dos das outras grandes universidades do Estado de São Paulo. Isso é muito ruim, porque quem quer concorrer ao vestibular da três precisa se preparar para provas muito diferentes.

A USP tem uma primeira fase com provas muito distintas. Português e geografia, por exemplo, têm questões contextualizadas, que valorizam a interpretação. Matemática exagera no conteúdo e propõe questões quase impossíveis de serem resolvidas pela maioria dos alunos de ensino médio. Biologia fica no meio do caminho. Um pouco de conteúdo e muita interpretação.

A Unesp tem uma prova que tem como proposta avaliar as três áreas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, e não matérias. É um avanço inclusive em relação ao Enem, que dividiu um parâmetros e propôs quatro provas objetivas no exame.

Passou da hora das estaduais de São Paulo unificarem a prova. Tudo seria melhor. O aluno se prepararia para uma única prova, concorreria à vagas nas três universidades, o momento da prova pautaria a discussão do tímido aumento de vagas nas estaduais paulistas e ninguém seria obrigado a se submeter, se quisesse concorrer à vagas em todas elas, a ficar três finais de semana seguidos fazendo provas.

Até entendo as questões políticas que impedem essas universidades de usarem o Enem para selecionar alunos, mas concordar com três vestibulares diferentes é legitimar que cada universidade mantenha uma estrutura de poder, a do vestibular, totalmente ilógica, desnecessária e perversa para os estudantes.

Decisões judiciais pela realização de nova prova optativa são relevantes na vida de milhares de estudantes

Quase duas semanas depois das provas do Enem já assistimos a muitos colunistas falando e comentado a prova e seus problemas. Entre tantas e tantas opiniões, dois pólos me chamaram, especialmente, a atenção: o do ?ataque raivoso? e a da ?defesa cega?.

O primeiro grupo procurou todos os argumentos para desqualificar a iniciativa de fazer um exame unificado para selecionar para vagas em Federais. Diz que o Ministério da Educação (MEC) criou um monstrengo, que o melhor é preservar o velho vestibular, que avaliar competências e habilidades é uma perigosa mistura entre ideologia e pedagogia, que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é incapaz de aplicar o exame, entre outras coisas.

O grupo da ?defesa cega? considerou os erros irrelevantes. Assumiram o discurso oficial e disseram que os prejudicados, considerando o universo dos candidatos, são um número muito pequeno. Propagaram que criticas ao Enem deste ano tem como origem o ódio das elites em pobres poderem chegar a uma universidade.

Erraram os dois grupos. Aos primeiros vale lembrar que o Enem sempre teve problemas, mas que eles só ganharam as primeiras paginas da imprensa nacional quando o exame começou a selecionar para vagas em universidades federais. Mesmo quando começou a selecionar para o Programa Universidade para Todos (Prouni), que distribui muito mais vagas do que o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), também bancadas com dinheiro público, não tinha tamanha exposição.

Ao outro grupo digo que o erro mais impactante não foram as poucas provas nas quais faltavam questões. A inversão de gabarito atingiu todos os candidatos e confundiu milhares e milhares de pessoas que foram obrigadas a preencher seus itens em alternativas com numerações que não apresentavam paralelo lógico com o caderno de questões.

Muitos poderiam ter assumido, seriamente, a defesa da causa dos alunos que se sentiram prejudicados e que o MEC insiste em não permitir nova prova. Os deputados e senadores tiveram essa possibilidade quando o ministro Haddad prestou esclarecimento nessas casas. Não vi nada efetivo. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) poderia ter feito uma força-tarefa para garantir que candidatos sem condições econômicas pudessem ter acesso à Justiça para garantir o direito à isonomia. Não foi feito. Os Ministérios Públicos estaduais e as varias defensorias poderiam representar a sociedade e garantir a preservação dos direitos individuais. Não vejo esta movimentação.

Exceção tem que ser feita ao Ministério Público do Ceará e a Defensoria Pública do Distrito Federal. Essas instituições entenderam o drama dos alunos que passaram 10 horas fazendo o exame. Diferente dos colunistas, que em sua maioria não possuem a menor idéia do que é o Enem, deixaram de lado a politização dos erros e fazem todos os esforços necessários para garantir reparo aos danos causados aos alunos.

Os esforços dessas instituições para garantir isonomia para todos os candidatos e a rápida ? e justa ? resposta que vem sendo dada pela Justiça do Ceará anda na contra-mão das posições do governo. O MEC ainda não conseguiu enxergar ? ou não quer enxergar ? que quem foi obrigado a preencher o gabarito de forma invertida, calculo que entre 3 e 5% dos candidatos, sofreu um dano que só será reparado fazendo nova prova.

A teimosia do MEC tem explicação. Muitas universidades vão usar a nota do Enem de forma parcial ou somente para selecionar candidatos na primeira fase de seus vestibulares. Um exemplo claro é a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que começa as provas de segunda fase dia 23 de janeiro. Para convocar os alunos para essa etapa, a federal mineira precisa saber as notas de seus candidatos no Enem, já que o exame substituiu a primeira fase daquele vestibular.

Assim como para a UFMG, o MEC prometeu para várias instituições ter as notas disponibilizadas no começo de janeiro. Como só consegue corrigir cerca de 100 mil provas por dia, uma nova prova do Enem, mesmo que opcional, faria com que o calendário de seleção de varias universidades fosse alterado. Só entre as federais, cerca de 30 teriam que mudar as datas programadas.

Acho razoável que o MEC se esforce para manter a palavra dada as universidades, sobretudo depois dos contratempos do ano passado. O que não pode acontecer é, em nome da manutenção dos calendários de vestibulares país afora, tratar como supérfluo a manutenção da isonomia de todos os candidatos.
Seria um grande prejuízo e uma grande confusão mexer na data dos vários vestibulares, mas isso é melhor do que rasgar a Constituição e negar direitos básicos aos cidadãos. O erro da inversão de gabaritos foi do MEC e deve ser assumido por ele, com todo o seu ônus. Os candidatos não podem arcar com os erros do MEC.

Neste contexto, a Justiça do Ceará entendeu bem que é melhor que todo o cronograma seja atrasado para que ninguém seja prejudicado. Já o MEC, de forma dissimulada, vem, sistematicamente, tentando desmoralizar as decisões da Justiça daquele Estado. Se garantiu com o próprio ministro fazendo lobby com a OAB, para que a instituição ficasse longe do caso e com a quinta turma do TRF, para que ela casasse as liminares que viessem do Ceará.

A lógica do MEC é transformar a Justiça do Ceará em um verdadeiro Dom Quixote, um herói que luta por causas desnecessárias, que combate moinhos de vento pensando serem dragões.

A imagem que o MEC tenta passar da Justiça do Ceará não corresponde à verdade. A tese aceita por ela é verdadeira, relevante e influencia na vida de milhares de pessoas. A razoabilidade de suas decisões é incrível. No meio de tanta insensibilidade, tentou garantir que uma nova prova fosse feita e que ela fosse optativa, e não obrigatória.

Enquanto o Ceará desafia dragões de verdade, a OAB não deu as caras, os demais Ministérios Públicos se omitiram e as defensorias públicas fingem não ver o que está acontecendo.

Pensando bem, quando o MEC faz papel de Sancho Pança (o covarde, não o fiel), nem é tão ruim ser Dom Quixote.

Quem foi prejudicado tem direito a nova prova, mas não podemos ser insensíveis aos pedidos de quem não quer repetir a maratona

Mesmo que o MEC diga que a aplicação de uma nova prova só para os alunos que receberam cadernos sem algumas questões resolverá os problemas do Enem deste ano, hoje ninguém pode dizer, com segurança, o que vai acontecer nos próximos dias.

Mais de três 3 milhões de pessoas se submeteram ao Enem no final de semana. Não foi nada fácil. Antes do início das provas já tivemos polêmicas, como a absurda proibição do uso de lápis e relógio. A tensão que viria para os alunos, nos dias de prova, foi antecipada.

No sábado, quando cada aluno recebeu seu caderno de questões, começou a grande confusão. A inversão das questões no caderno, em relação ao gabarito, colocou na mão de milhares de coordenadores de escolas a obrigação de resolver o problema.

A solução era óbvia. Como o gabarito é passado por um leitor de cartão, era só marcar a questão 1 do caderno na questão 1 do gabarito, a 2 na 2, a 3 na 3, e assim sucessivamente. Mas é demais acharmos que todos os coordenadores de escola iriam tomar a decisão correta. O tal efeito "cascata", apesar de o MEC dizer que passou a orientação, era totalmente incapaz de fazê-la chegar, e sem nenhum "ruído", a todas as 128 mil salas onde aconteciam o exame. A educação no Brasil, em todos os níveis, valoriza demais a acumulação de conteúdos e despreza o desenvolvimento de capacidades cognitivas para a resolução de problemas reais. Saber conteúdos não garante a ninguém saber resolver e saber fazer. Resolver o problema, por mais fácil que ele seja, foi uma enorme dificuldade em vários locais de prova
Em várias salas, chegaram orientações para que os candidatos anotassem o gabarito de forma invertida. Nesses lugares, o candidato que queria fazer diferente não pode discordar do fiscal, por que agir com "descortesia" com que trabalha na aplicação do Enem causa desclassificação.

Entre tantas confusões, tivemos, nos dois dias, 180 questões, uma redação e dez horas de prova. Uma verdadeira maratona. O segundo dia, apesar de ter contato com uma prova melhor elaborada, foi muito mais desgastante. As pessoas estavam preocupadas com a confusão do dia anterior, que já era o assunto mais debatido no país. Quem resolveu com cuidado a prova do domingo teve que fazer o possível e o impossível para responder as 90 questões de Linguagens e Matemática e, ainda, elaborar uma boa redação. Não foi pouco. As pessoas saíram do Enem esgotadas.

Boa parte dos que fizeram o exame também é candidato em vestibulares de faculdades que não selecionam pela nota do Enem. Precisavam estar se preparando para estas provas, mas agora dividem o tempo entre a preparação e o acompanhamento do destino de seu aproveitamento no Enem.

É natural que a maioria das pessoas que passaram por tudo isso não queiram fazer um novo Enem. Eles torcem para que a prova não seja cancelada e que possam voltar a fazer o que tinham planejado para suas vidas. Justo, afinal sabiam, desde o começo do ano, quando seria o Enem e também se planejaram para isso.

Acontece que algumas pessoas receberam cadernos de questões com páginas em branco no primeiro dia. Elas não tiveram as mesmas condições de mensurar seu aproveitamento que as outras. Pouco importa se são cem, mil, dois mil ou cem mil pessoas. Elas precisam ter seus direitos preservados. Já estão, há dias, passando por uma enorme insegurança. Não há espaço nem pra discussão, para eles o mínimo que se pode fazer é garantir outra oportunidade de fazer a prova.

Além disso, outras pessoas podem ter sido prejudicadas, em diferentes proporções. A maior parte delas não pode entrar com lápis, algumas poucas levaram e usaram. O relógio também foi um beneficio que poucos usufruíram. O preenchimento do cartão de forma invertida deixou alguns candidatos em desvantagem. Além da tensão de não saber se estava anotando corretamente, preencher o gabarito de forma invertida exige trabalho e faz que se gaste muito mais tempo.

Esta é, hoje, a situação. A maior parte das pessoas não querem fazer de novo a prova. Alguns querem, com toda razão e investidos de seus direitos. Tudo é mais simples de resolver se a prova tiver usado a TRI (Teoria da Resposta ao Item). Quem foi prejudicado poderia fazer uma prova com nível de dificuldade exatamente igual ao que foi utilizado neste final de semana. O arquivo para um novo exame inclusive já está pronto. Dia 6 e 7 de dezembro está planejado a aplicação do Enem em mais de 600 presídios e unidades socioeducativas. Esta é a prova que o MEC tem pronta.

Para a prova ser igual pra todos e garantir isonomia, precisa ter utilizado TRI, o que é o grande problema. Por falta de publicidade e transparência nas ações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), ninguém pode afirmar que o TRI esteja sendo utilizado (para entender melhor as dúvidas sobre a utilização do TRI, leia o artigo "Que Nota é Esta?", desta coluna).

Quem teve o caderno sem algumas questões tem o direito de fazer de novo a prova. Quem se atrapalhou na hora de inverter o gabarito tem direito de fazer de novo a prova. Quem acha que a falta de lápis e relógio atrapalhou seu rendimento tem direito de fazer de novo a prova. Direitos individuais precisam ser preservados.

Agora, não podemos ser insensíveis aos pedidos de quem não quer passar de novo por esta maratona. A melhor solução para resolver o impasse é oferecer novos dias de exame, que não coincidam com nenhum vestibular no país, para todos aqueles que desejam fazer.

Quem não quiser, não faz de novo. Assume o risco da prova ter dificuldade diferente da que ele fez. Quem fizer pela segunda vez tem garantido que será considerada a melhor entre as duas notas. Lápis e relógio mecânico, que não atentam contra a segurança, passam a ser permitidos. E ai o Inep e o MEC precisam aprender com os erros desses dois anos. Tornar o exame transparente aumenta bastante o trabalho, por que inclui a sociedade na discussão dos rumos do Enem, mas certamente ajuda a aprimorar a prova.

Veja o que disseram para essa coluna alguns tuiteiros sobre os dois dias de prova e seus problemas

Em 2010, o Twitter ganhou milhões de adeptos no Brasil. Pelo microblog, em poucas palavras as pessoas podem mandar seus recados e suas opiniões. O Twitter foi até tema de uma das questões do Enem deste ano. E por meio do dele podemos entender melhor o que estudantes do Brasil inteiro estão pensando dos dois dias de prova, praticamente uma maratona, e de todos os problemas ocorridos. Confira o que disseram, para esta coluna, alguns dos tuiteiros:

@JheyLouzada achei a prova de mat. facil, mas pra quem fez as contas nao dava tempo msm, eu chutei varias de port. por causa do tempo ;/

@brunaalline me revoltei com o enem, tinha muito interpretação e pouca gramática , e em matemática , não tinha espaço para os cálculos

@Renato_dnb Nao tinha espaço pra fazer as contas...genial o inep...

@BethLyzBrasil O #TWITTER TEVE DESTAQUE NO ENEM...

@yaas_ não foi nada ético, direito de imprensa tem limite... mas imagina os que ficaram quietos e conseguiram google pra prova!

@leozingoo não tive problemas com tempo, tive com a falta de rascunho. minha carteira ficou TODA rabiscada! E hoje tava facil mesmo

@Jeessicca_ é na metade da prova tive q fazer a redação e nao consegui responder todas as de matematica =

@JeehIngrid Não tinha lugar pra rascunhoo ¬¬ ! Eu precisava de rascunho !

@kesia_mylove É muito pouco o tempo pra resolver tudo!!!!!Não dá!!!!!

@JeehIngrid Era pura interpretação de texto ! P.S : O celular da fiscal , tocou na sala ¬¬

@pricasouth reclamações só aumentou. Prefiro o enem como era. Digno 1 dia d prova e mto mais acessivel.

@miilena_almeida Achei que ciências da natureza estava bem difícil em relação aos anos anteriores .. Faltou questões interpretativas

@nayrabaruch No caderno amarelo faltava questões e muitas vezes repetiam as mesmas! O Enem todo ano tem uma palhaçada. #Vergonha

@Real_franklin Aprendi que estou mais fora de ritmo que o Ronaldo, ele aguenta os 90 minutos, e eu só as primeiras 45 questões ;x

@oliviatavaress A ideia realmente é muito boa, mas falta planejamento e comprometimento de quem se diz responsável pelo exame.

@CarolRodriguesC Preocuparam tanto com segurança da prova e esqueceram da organização né ? Brasil é isso ai mesmo. Vergonha!

@Erika_Barreto otiiima, digo o mesmo, presidente do INEP pede pra sair! kkkkkkkkkk

@TheBriBridget Não basta estudar o ano todo, usar a lógica, o raciocínio...tem que advinhar a resposta que o Enem quer. Decepção total!

@liviamedella o ENEM deveria ser cancelado!Com certeza muitas pessoas se prejudicaram... UMA VERGONHA!

@iesagrasielly EU ESCOLHI INGLES E MINHA PROVA VEIO ESPANHOL

@kesia_mylove Nossa eles deviam aumentar o tempo para fazer a prova com mais calma!!É muita questão pra pouco tempo

@vanalyaviana Aprendi no enem que errar é humano, mas errar mtas vezes é inep!

@Nanitta enem e a unica prova do mundo que as questoes de matematica num espaço pra rascunho mas as espamhol tem!

@Patricknx exites 3 tipos de questões: as fáceis, as difíceis e as de química.

@nyllany Pq q humanas tinha rascunho e matematica ñ?!

@RenataNCoelho onde que eu acho o gabarito?

@zehh_ 2 folhas de rascunho pra ciências da natureza. nenhuma pra matemática.

@jessicabial Enem, prova de interpretaçao,raciocinio logico, paciencia e resistencia !

@Abtoledou No enem você escolhe prioridades: ou vai bem em uma matéria ou em outra. É impossível responder com qualidade a ambas.

@KAAH_OLIVEIIRA os estudantes se erram perdem nota,o inep erra e o que acontece? Erra mais uma vez

Prova é comprometida com o que há de moderno na educação e valorizou capacidade de entender o mundo e atuar nele de forma ética

Segundo dia de prova, e as coisas melhoraram muito. As provas de Linguagens e Códigos e de Matemática foram muito mais simples do que as do dia anterior. A impressão que fica é que os formuladores das questões de ontem nem conhecem os formuladores das questões de hoje. Hoje a prova era comprometida com o que há de moderno na educação e valorizava a capacidade de entender o mundo e atuar nele de forma ética.

Em Linguagens, quase toda a prova era de interpretação e resolução de problemas. Os textos eram maiores do que os apresentados na prova de Humanas de ontem. Isso ajudou, muito, os alunos a encontrarem respostas no próprio enunciado, apesar de ter feito que o tempo médio gasto em cada questão fosse muito maior. As questões de Língua Estrangeira moderna pediram inglês e espanhol instrumental, básico para a leitura de pequenos textos.

A prova de Matemática cobrou alguns conteúdos e o aluno precisou fazer cálculos. Todos os conteúdos eram simples e estavam bem claros na matriz de competências e habilidades do Enem. As questões tratavam de acontecimentos da vida cotidiana e não fingiam contextualização, como fez a prova de Natureza.

A Redação pediu para que o aluno relacionasse Trabalho com Dignidade. Dois textos serviam como base para a formulação de argumentos pelo aluno. Em um texto tínhamos uma discussão sobre formas do trabalho semi-escravo que ainda persiste em alguns lugares no Brasil, e o outro tratava das novas formas de trabalho surgidas com o avanço das tecnologias. É significativo notar que este texto diz, em sua introdução "(...) esqueça os salários escritórios, os salários fixos e a aposentadoria (...)". Há alguns anos, muitos se indignariam com um texto, em uma prova pública, que considera a possibilidade de termos o fim da previdência social apresentado de forma positiva.

O candidato poderia relacionar os dois textos, destacar e desenvolver o tema proposto em um deles ou até trazer para discussão outras questões, desde que relacionasse Trabalho com Dignidade. O tema tem sido amplamente debatido na mídia, sobretudo pela diminuição dos índices de desemprego nos últimos anos. Talvez até por isto apareceu na prova. Lembremos que o ENEM é, sempre, porta-voz do governo de plantão.

Sobre o vazamento do tema da redação, tenho dúvidas sobre a ética deste tipo de prática. Tenho falado sempre que a prova tem problemas e que é aplicada de forma diferente em todo o Brasil, mas não chegaria a tanto. Hoje, por exemplo, para testar, fui fazer a prova com relógio, IPad, computador e livros na mochila, sem o cartão de confirmação, e nada aconteceu. Alguns amigos meus da imprensa fizeram a prova com a ajuda do lápis. Fizemos isto para demonstrar que as medidas de segurança adotadas pelo MEC eram absurdas, prejudicavam os alunos e não seriam cumpridas integralmente em todas as salas de prova. Passar o tema da prova, enquanto ela ainda acontecia, para todo o Brasil, me parece um pouco fora dos limites.

Sinto que este Enem terá consequências. Acordei com a sensação de que o Haddad está por um fio na Educação. Isto me deixa muito triste. O exame tem, sim, muitos problemas, mas é a única política, até agora, capaz de acabar com o Ensino Médio conteudista, cheio de decorebas, que atrapalha o desenvolvimento do país e impede que parte dos nossos melhores talentos chegue à universidade.

O ministro, bem ou mal, aumentou o orçamento da educação, ampliou o número de universidades públicas, criou pólos das universidades tradicionais em cidades pequenas, ampliou o financiamento da educação básica, introduziu o ensino fundamental de nove anos, contratou mais professores, facilitou o acesso ao Fies, entre outras políticas. Também criou o Prouni que, apesar de tratar-se de uma política polêmica, possibilitou que milhares de pessoas tivessem uma bolsa em uma universidade particular. Em época de negociação para a formação do novo ministério, mais uma crise no Enem pode colocar a educação como uma das moedas de troca entre a presidente eleita e os partidos da base aliada. Não seria bom. Espero que não passemos por isto.

Prova dessa importância não pode inverter gabaritos. Prova de humanas tem enunciados mais curtos, e de natureza abusa das fórmulas

Começo este artigo de um jeito que não gostaria. O Enem errou de novo, e errou por que é uma ilha no Ministério da Educação. Algum iluminado, talvez o próprio ministro, teve a grande idéia de selecionar os alunos das federais com a nota do exame. Sendo o Enem uma prova de competências e habilidades, e não de conteúdos, as escolas reformariam seus currículos e aí teríamos um ensino médio melhor, que interessasse a alunos com todos os tipos de talento e que se livraria da decoreba e da ditadura dos livros didáticos e dos sistemas de ensino.

A fórmula é ótima, mas ainda falta combinar com o resto do ministério. Não pode uma prova com tamanha importância cometer o erro de inverter os gabaritos. Se o ministério acha que isto não é grave, que todos os fiscais e alunos foram devidamente orientados, está errado. Se uma prova com mais de 4,6 milhões de candidatos, que irá distribuir mais de 200 mil vagas (entre escolas públicas e privadas), que colecionou um monte de problemas desde sua reformulação e que tem a cobertura da imprensa do Brasil todo consegue errar a ordem no gabarito, por que um fiscal confuso, nas cerca de 100 mil salas que fizeram a prova, ou um candidato desatento não pode ter cometido um erro que a prova induzia?

O ministério precisa melhorar muito, e ampliar, sua equipe de elaboração de provas. Uma análise mais cuidadosa mostra que não existe o tal banco de questões e que as questões são produzidas por um grupo pequeno de profissionais. Seria bem melhor deixar de mentir para a imprensa e para a sociedade, possibilitando assim que o debate público ajudasse a aprimorar prova.

A prova de humanas realmente teve enunciados mais curtos, mas isso atrapalhou os alunos. Com enunciados menores, as questões tinham menos informações que ajudassem na resolução. Como quase todos os textos dos enunciados vieram adaptados, e não com o fragmento original, algumas questões só poderiam ser corretamente respondidas se o aluno já tivesse tido contado com o tema.

O tempo economizado em Humanas teve que ser gasto em Natureza. A prova abusou de fórmulas, cálculos e conceitos de matérias do ensino médio, principalmente de química. Quem sabia fazer as questões da área teve que dedicar mais tempo à prova.

É claro que os conteúdos cobrados, ou pelo menos a sua grande maioria, estavam evidentes na matriz de competências e habilidades do Enem, mas exagerou-se na cobrança dos eixos cognitivos de "Domínio de Linguagens" e "Compreensão de Fenômenos", usando menos os eixos de "Resolução de Problemas", "Construir Argumentação" e "Elaboração de Propostas Éticas".

Sobre as questões, volto a questionar o tal "banco de questões" e o uso da "TRI". Se existe banco de questões, se as questões foram pré-testadas e se são escolhidas para a prova pelos critérios de dificuldades da psicometria moderna (parte da ciência da psicologia), como temos na prova questões que, provavelmente, foram feitas pelo mesmo examinador? Isso mesmo. Em Humanas, três das questões tem como base fragmentos do livro "Decifrando a Terra". Outras três questões têm como base uma coleção de livros de uma corrente de pesquisadores que retratam a história do ponto de vista da vida cotidiana. Em natureza, três questões utilizam fragmentos de um mesmo livro de química (o Enem só muda a referência ao editor em uma das questões). Não é demais supormos que usam os fragmentos do mesmo livro por serem feitas pelo mesmo autor.

O MEC deveria ampliar o número de elaboradores de questões, exigir que todas as questões estivessem dentro dos parâmetros determinados e testá-las previamente. Um dos textos da prova foi retirado da internet em julho de 2010. Se todas as questões forem feitas às pressas, e somente na quantidade necessária para cada prova, não teremos como comparar a evolução da educação de ensino médio no Brasil.

Temas ainda geram dúvidas entre alunos e professores e podem aumentar desigualdades de competição entre candidatos

Nos últimos dias tenho conversado, em palestras e no twitter, com candidatos que farão a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no próximo fim de semana e também com professores do ensino médio. Apesar de muita gente ainda não conhecer bem a prova e explicá-la ser o maior parte do meu trabalho, temas como a proibição do uso de lápis e porte de relógio na hora da prova, a obrigação de apresentar o cartão de inscrição e o anúncio de que o gabarito oficial só será divulgado dois dias depois da prova se destacam entre as principais dúvidas ou críticas de alunos e demais envolvidos.

A proibição do uso de lápis, borracha e apontador é um dos maiores absurdos entre as novas medidas. O Ministério da Educação diz que faz isso para garantir a segurança da prova. Já pensei muito e não consigo encontrar situações, a não ser possíveis "teorias de conspiração", em que esses materiais escolares possam atentar contra o exame.

O aluno será prejudicado. Mesmo sendo simples, é muito melhor fazer os cálculos exigidos no Enem a lápis e poder apagá-los e refazê-los, se preciso. Muitos professores indicam que, nas questões que não exigem fórmulas, o aluno comece eliminando as alternativas improváveis antes de escolher sua opção. Quem faz redação de forma organizada, costuma primeiro planejá-la, organizando argumentos em algum espaço em branco para desenvolver a estratégia da dissertação. Há espaço no caderno de prova para rascunhar a redação. Sem o lápis, há prejuízo para o direito do aluno. O mais grave é que os alunos que usam essas estratégias costumam ser os mais dedicados, acostumados a fazer isso durante toda a trajetória escolar.

A caneta (e não precisava ser preta) só poderia dar segurança para o aluno no caso de ele querer uma revisão de prova. Com o gabarito preenchido a tinta, e também a redação, ficaria difícil que alguém apagasse os apontamentos do aluno e colocasse outro conteúdo. Mas como até hoje o Enem não divulgou o relatório pedagógico da última prova, ninguém sabe quanto valeu cada questão e ou a média nacional de rendimento em cada prova. Se os alunos, os educadores, os profissionais de educação e a sociedade não sabem o que significam as notas, como alguém pedirá revisão de provas?

Já a proibição do uso de relógio digital, assim como celular, mp3, calculadora e outros equipamentos eletrônicos, tem lógica. Além de possuírem funções que poderiam facilitar a resolução da prova, ainda permitem a troca de informações que tiram a igualdade de condições de disputa entre os concorrentes. Agora, proibir o uso de relógio analógico (mecânico) não faz sentido. Cada pessoa deveria ter o direito de planejar o uso do tempo durante a prova. Sem o relógio, fica impossível.

Mesmo que os fiscais informem, durante a prova, o tempo que o candidato ainda possui, acredito que isso será feito de forma diferente em todo o País. A concentração dos alunos ainda pode ser atrapalhada. Essa determinação aumenta as desigualdades naturais ao processo com essas dimensões ? já que infraestrutura e clima não serão os mesmos em todo o País ? sobretudo se imaginarmos que, certamente, haverá lugares em que o lápis e o relógio serão tolerados.

Para mim, a necessidade de apresentação do cartão de inscrição é uma contradição em relação às políticas públicas brasileiras. Em recente decisão, o Superior Tribunal Federal decidiu não ser necessária a apresentação do título de eleitor para votar, porque a carteira de identidade e alguns outros documentos com foto servem oficialmente para identificação no País.

Quem sabe onde será sua prova e se apresenta no local, em horário que consta no edital, não deveria ser impedido de fazer o Enem se não estiver com o carão. Alem de ser uma medida inconstitucional, o MEC não conseguiu enviar os cartões às casas de todos os candidatos. Querer que todos os estudantes tenham condições, em um País que só possui 20 milhões de pontos de acesso à internet, de acessar o site de inscrições e imprimir o documento é pedir demais.

Por fim, é simbólica a decisão de o gabarito do Enem ser divulgado somente dois dias após a prova. No último ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, apresentou o gabarito antes desse prazo e houve muitos erros. O Inep levou mais de 12 horas para corrigi-lo e apresentá-lo de novo. Agora, o MEC deve guardar o gabarito e ficar atento à correção que sites, jornais e cursinhos farão. Os técnicos deverão avaliar as contradições entre os gabaritos não-oficiais e os oficiais para evitar polêmicas.

Códigos usados para a comunicação são construções humanas. Entenda as competências cobradas nesta prova do Enem

A prova de Linguagens e Códigos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) reúne o que é discutido em algumas das aulas de Português, Literatura, Artes, Educação Física e Línguas no Ensino Médio.

Podemos considerá-la a prova mais fácil de ser resolvida no Enem, apesar de os enunciados das questões serem grandes. Quase todas as questões são interpretativas e de resolução de situações-problema. Serão cobradas nove competências dos alunos, sendo, em média, cinco questões de cada uma delas.

Quem Não Se Comunica, Se ?Trumbica?

Será importante compreender que os códigos usados para a comunicação são construções humanas aceitas socialmente. É preciso entender que há vários tipos de códigos, além do texto escrito, utilizados para a comunicação, como a linguagem verbal, visual e sonora.

Cada tipo de linguagem tem um uso social e contexto específico, e para se dar bem nessa competência será importante que o aluno consiga inter-relacionar diversas linguagens. Será comum encontrar questões relacionando principalmente a linguagem escrita com a visual, sobretudo em propagandas impressas em que é necessário relacionar imagem e texto para entender a mensagem.

Língua Estrangeira Moderna

O candidato pôde escolher, no momento da inscrição, se faria a prova com questões ligadas à Língua Inglesa ou à Língua Espanhola. Nessa competência, aparecerão pequenos textos na Língua Estrangeira Moderna escolhida, para que o aluno possa interpretá-los, ou vocábulos estrangeiros utilizados na vida cotidiana no Brasil.

É importante saber que a Língua Estrangeira Moderna representa a diversidade cultural, em seu contexto linguístico, mas que em alguns momentos é utilizada como instrumento para simular qualidade a produtos ou prestígio a grupos sociais.

Linguagem Corporal

Aqui o Enem deseja que o aluno compreenda a prática física como meio de melhorar a sua qualidade de vida e a saúde pública da sociedade. Estigmas, como o da beleza física, são negados pelo Enem. É importante compreender que os modelos de beleza são construções culturais, principalmente da mídia, e que mudam em diferentes épocas.

Os exercícios devem ser valorizados para a saúde e não para obedecer a padrões estéticos. Estes indicam à necessidade da busca do ser humano, através da prática esportiva, pelo bem-estar.

Também aparecem as formas de manifestação corporal da sociedade, como danças típicas e alguns esportes. Um exemplo claro é a capoeira, patrimônio cultural imaterial do Brasil.

A Arte Expressando Idéias e Emoções

Na Competência 4, o aluno precisará associar a produção artística com o momento que passa cada população. O momento histórico, social, político e econômico influencia essa produção artística e vice-versa, sendo a arte um elemento de geração de significados aos grupos sociais.

Será preciso que o aluno se porte de forma a respeitar e valorizar a diversidade cultural entre os povos e suas expressões artísticas. A manifestação artística é uma necessidade de expressão das sociedades, e é influenciada pelo momento que elas vivem. Como expressão corporal está na competência 3, e literatura na 5, aqui ficam, principalmente, as artes plásticas e o teatro.

Literatura

Aqui serão cobrados os tipos de texto que a sociedade entende como literatura. O aluno deverá relacionar o texto com os contextos históricos, políticos, sociais, culturais e econômicos, pensando sempre que o autor está inserido em um meio e as relações com esse meio são fundamentais na constituição do texto literário.

Também poderão cair questões que trabalhem a intertextualidade, cobrando do aluno semelhanças, diferenças ou influências entre os textos destacados. Outro tema que poderá aparecer nessa competência está ligado à compreensão da importância do patrimônio linguístico para a constituição e preservação da memória e da identidade nacional.

O Texto, seu Contexto e sua Função

Serão cobrados dois eixos centrais. Primeiro, compreender que todo texto tem seu contexto, e, segundo, entender que todo texto tem sua função. As funções de um texto são a narrativa, a expositiva e a persuasiva. O aluno deverá identificar essas funções e entender por que, em cada contexto, aquela função é utilizada.

Sobre contexto, é fundamental entender que todos os textos só adquirem algum sentido quando colocados em um contexto. Neste sentido, esta competência costuma abusar de quadrinhos e charges.

Opiniões e Pontos de Vista

Aqui será necessária a capacidade de compreender os objetivos dos textos das pessoas com quem nos relacionamos, afinal na sociedade existem vários interesses, e várias estratégias e métodos podem ser utilizados para criar ou mudar, comportamentos ou hábitos. Será preciso identificar esses interesses e estratégias (como intimidação, sedução, comoção, chantagem, etc.), e julgar se os argumentos apresentados têm lógica e se são compatíveis, ou não, com outros textos apresentados. Figuras de linguagem são um conteúdo que vale a pena revisar antes da prova.

Diversidade Linguística

O Enem exigirá que o aluno respeite as diversidades regionais, sociais e de idade do uso da língua, se posicionando contra o preconceito linguístico, mas sem negar a necessidade de que se conheça, e em alguns momentos utilize, a forma culta da língua.

Será preciso compreender as diferenças entre a linguagem formal e informal, e que se associe cada uma dessas formas aos seus contextos, ou ambientes, adequados.

Aparecerá a linguagem culta como instrumento para a garantia de direitos. Por exemplo, é preciso dominar a norma culta da língua para compreender contratos e assim não ser enganado. No mais, a língua é um código imposto por um grupo social e costuma, inclusive, ser utilizada como forma de poder.

Tecnologias da Comunicação

A última competência de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias está relacionada às múltiplas tecnologias de comunicação que possibilitam a distribuição do conhecimento e a democratização do acesso à informação. A internet e suas ferramentas (como o Google e demais ferramentas de busca, as redes sociais, blogs, chats, sms, entre outros) serão os temas principais, apesar de poderem aparecer velhas tecnologias de informação.

Será preciso entender o impacto dessas tecnologias na vida das pessoas no passado, hoje e também os possíveis impactos no futuro. Um interessante, e possível, tema para a prova é o futuro da imprensa impressa (jornais e revistas) no Brasil e no mundo.


 

Veja o que o exame cobrará na prova de Matemática e suas Tecnologias e saiba o que você precisa estudar

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) dá para Matemática uma importância extremamente exagerada. Depois do conhecimento da língua portuguesa, que é necessário para ler toda a prova, Matemática é o que o Enem mais cobra em seu novo modelo de exame.

Para começar, Matemática e suas Tecnologias é uma prova inteira, com 45 questões, o que representa um quarto da prova objetiva do Enem. Nos vestibulares convencionais, que são conservadores, a matéria costuma ser cobrada em aproximadamente um oitavo da prova.

Além disto, a linguagem Matemática vai aparecer moderadamente na prova de Humanas e deliberadamente na prova de Natureza, na forma de gráficos e tabelas, cálculo de grandezas, regra de três, porcentagem, estatística, probabilidade, entre outras.

Podemos dizer que, desde o ano passado, temas como Meio ambiente, Cidadania e Valorização da Diversidade, que formavam a base da prova, perderam espaço, proporcionalmente, para a Matemática. Estes temas continuam importantes e centrais no Enem, mas nenhum deles vai superar o número de questões de Matemática.

Apesar de o Enem ter como um dos principais objetivos reformar o Ensino Médio, fazendo com que as escolas abandonem a educação conteudista e passem a fazer com que seus alunos compreendam fenômenos, resolvam problemas e elaborem propostas éticas de intervenção na sociedade, o nome desta prova não ajuda na reforma.

Para facilitar que educadores e alunos entendam uma nova forma de educação, mudam-se os nomes que damos às matrizes de conteúdos. No lugar de Biologia, Física e Química, chamamos a área de Natureza. No lugar de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, chamamos de Humanas. No lugar de Português, Literatura, Educação Física, Artes e Línguas, chamamos de Linguagens e Códigos.

A ideia de mudar os nomes atende à necessidade de mudarmos os conceitos que temos da educação. Para ficar mais fácil que todos entendam que não é o antigo ensino do conteúdo dos livros didáticos e dos sistemas de ensino que representam Educação, evita-se dar o nome, para as provas do Enem das conhecidas matérias. Tudo perfeito, até resolverem chamar esta prova de matemática.

Quando o professor de matemática vê a prova com este nome, ele acredita que precisa continuar ensinando a mesma coisa em sala de aula. Os demais professores seguem o raciocínio. Se é preciso ensinar matemática, eles também precisam continuar ensinando seus conteúdos.

Se é verdade que Matemática tem questões demais no Enem, se é verdade que o nome da prova não é dos melhores, também é verdade que o que é cobrado está muito mais ligado ao raciocínio lógico e a alguns conteúdos mínimos e fáceis da área. O aluno não será surpreendido com fórmulas e exercícios aterrorizadores, que é a imagem que, em geral, temos da matéria. Os conteúdos mínimos cobrados nesta prova são os mais claros nas matrizes de competências e habilidades do Enem, fazendo dela a mais honesta das quatro provas.

Vamos, então, ver o que o Enem irá cobrar na prova de matemática. As 45 questões estarão divididas em sete competências, que o MEC considera que devem ser desenvolvidas no Ensino Médio.

A Matemática na Vida dos Povos - A primeira coisa que Enem deseja é que o aluno compreenda que os códigos da Matemática, como os números e as operações, são construções humanas, arbitrárias. Em determinado momento, a vida em sociedade exigiu que se contasse, se dividisse, multiplicasse, entre outras coisas. Nas questões desta competência, a única coisa que precisa é contextualizar a linguagem matemática com as questões da vida cotidiana.

As Formas da Vida, Geometria da Realidade - Aqui o Enem irá cobrar conteúdos básicos de geometria. Calculo de área e volume das principais figuras geométricas, conceito de ângulo e teorema de Pitágoras precisam ser estudados. As questões devem estar contextualizadas e o Enem irá verificar se o aluno consegue utilizar seus conhecimentos de geometria para intervir em sua realidade. Metro cúbico costuma ser o conteúdo cobrado em que os alunos mais erram as respostas.

Medidas da Realidade - Nesta competência aparece o Sistema Internacional de Medidas. Será cobrado que o educando consiga identificar, interpretar e utilizar as unidades de medida mais conhecidas, como o metro, quilograma, hora, graus Celsius e Kelvin e o conceito de ampère. Será preciso interpretar e comparar escalas que envolvam estas e outras medidas.
Variação de Grandeza, Porcentagem e Juros - Será avaliada aqui a capacidade do aluno de identificar diferentes formas de variação de grandeza, seja a proporcional ou a inversamente proporcional. Aparecerá também a regra de três e cálculos que envolvam conhecimento de porcentagem e juros ? simples e compostos.

Álgebra - Quando representamos problemas da vida cotidiana em uma equação matemática e não sabemos o valor de algum número, representamos este número por um símbolo, geralmente uma letra. Isto é Álgebra. Nesta competência o aluno deverá conseguir representar, gráfica e algebricamente, fenômenos da matemática. Equações algébricas, gráficos cartesianos, conhecimentos de álgebra e conceitos de geometria são fundamentais para o bom desempenho nas questões dessa competência. As equações não devem aparecer diretamente. O Enem irá apresentar alguma situação problema em que o candidato precisará utilizar os conceitos citados para apresentar a resposta.

Gráficos e Tabelas - Essa competência cobra que o examinado interprete informações científicas e sociais a partir da leitura de gráficos e tabelas. É necessário aqui que se consiga ?ler? gráficos e tabelas, afinal o Enem os considera como uma das principais formas de linguagem matemática. O que pode aparecer, e vai além da simples interpretação, é a necessidade de previsão de tendência, extrapolação e interpolação dos dados contidos em gráficos e tabelas.

Estatística - Nesta competência serão cobradas noções de estatística básica e probabilidade, apresentadas em questões contextualizadas, no formato de pesquisas, estudos e jogos comuns à vida cotidiana.

 


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