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New York Times


Mulheres alemãs buscam espaço com a queda de um tabu

NEUOTTING, Alemanha - Manuela Maier foi chamada de péssima mãe. Uma Rabenmutter, ou mãe corvo, por causa da ave negra que empurra seu filhote para fora do ninho. Ela foi proscrita por outras mães, repreendida pelos vizinhos e por sua família e até mesmo ofendida em uma loja local.

Seu crime? Matricular seu filho de nove anos na escola primária que ofereceu classes após o almoço no outono...e voltar ao trabalho.

“Me disseram: ‘Por que você teve filhos se não pode cuidar deles?”’, disse Maier, 47. Em comparação, ter um filho sem ser casada não foi um problema há 21 anos nessa tradicional cidade da Bavária, ela conta.

Dez anos de século 21 e a maioria  das escolas primárias e secundárias da maior economia europeia, a Alemanha, ainda encerram as aulas antes do almoço, tipicamente por volta das 13h.

Agora, diante da economia de necessidade, esse conceito começa a cair por terra: com um dos menores índices de natalidade do mundo, a expectativa de falta de mão de obra e a queda do padrão de escolaridade obrigam uma reconsideração.

Desde 2003, quase um quinto das 40,000 escolas da Alemanha introduziram programas vespertinos e outras planejam seguir o exemplo.

"Este é um tabu que já não podemos nos dar ao luxo de ter," disse Ursula von der Leyen, médica que virou ministra do trabalho da Alemanha e mãe de sete. "O país precisa de mulheres capazes de trabalhar e ter filhos".

Para ela, o aumento do currículo escolar alemão é "irreversível", conforme as mulheres entram para a força de trabalho, seja em busca de satisfação pessoal, por que são mães solteiras ou têm parceiros cuja renda não tem como manter uma família. Na Alemanha, um quinto dos lares depende da renda das mulheres.

Essa tendência faz dos cuidados com as crianças uma questão de competitividade, disse Karen Hagemann, professora de história de divisões sexuais europeia da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

Em 1763, a Prússia foi o primeiro país a tornar a educação obrigatória para as classes baixas. O sistema de meio dia de ensino evoluiu em uma era que dependia do trabalho infantil.

A classe média alemã há muito acredita que os pais, e não o Estado, devem moldar a cultura das crianças. Nenhuma escola, eles acreditam, pode substituir uma mãe.

Mas esse sistema desencora que mulheres mais altamente educadas tenham filhos. Aos 40 anos, uma em cada três alemãs vive em um lar sem filhos, o que dá à Alemanha, juntamente com a Áustria, a maior proporção de lares deste tipo na Europa.

Esse pensamento antigo também não se adaptou a uma Alemanha na qual um número cada vez maior de estudantes são imigrantes, muitos dos quais precisam de ajuda em capacidades básicas.

Em 2001, um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, um grupo das democracias mais desenvolvidas com economias de mercado, sobre a alfabetização de jovens de 15 anos alarmou a Alemanha por sua posição em 21 de 27 países, e quase em último em termos de mobilidade social.

Dois anos depois, o governo disponibilizou US$5.7 bilhões para a criação de programas educacionais em esquema semi-internato para 10,000 das 40,000 escolas do país até 2009; 7,200 escolas adotaram o esquema.

25/01/2010 07:57 PM

Editorial: Insurgência ainda representa maior desafio de governo afegão

Matar combatentes do Taleban não será suficiente. Se há qualquer esperança de se derrotar a insurgência, o governo do Afeganistão terá que persuadir um número maior de militantes a abandonar as armas.

Em uma conferência internacional em Londres a respeito do Afeganistão, nessa semana, o presidente Hamid Karzai deve anunciar um plano para tentar diminuir o número de combatentes Taleban de médio e baixo escalão.

Qualquer plano precisará de apoio financeiro. O custo deve girar em torno de US$1 bilhão para oferecer empregos, segurança e outros benefícios aos desertores Talebans. Os aliados que se recusam a enviar mais tropas ao Afeganistão devem comprometer mais dinheiro.

Mas dinheiro apenas não irá resolver o problema. O governo precisa convencer os desertores de que eles serão protegidos e receberão espaço político. A iniciativa certamente irá fracassar se o primeiro Taleban que abandonar as armas for assassinado por antigos camaradas ou atuais vizinhos.

O plano também precisará determinar claramente alguns princípios. A reabilitação deve ser oferecida aos membros do Taleban - geralmente soldados rasos - que entraram para a insurgência porque precisavam de emprego ou foram pressionados.

Os fieis terão que provar que renunciaram não apenas à violência, mas também à brutalidade do Taleban e a seus valores medievais. O governo precisa deixar claro que não irá ceder nenhum centímetro, especialmente quando se trata da educação para meninas e mulheres.

Achamos preocupante que Karzai e seus assistentes tenham falado em reconciliação com o líder do Taleban, o mulá Omar, e da remoção de seu nome da lista negra de terroristas das Nações Unidas. (Ele não mostrou interesse em uma reconciliação.)


Líderes brutos como o mulá Omar, que deu proteção à Al Qaeda antes do 11/9, devem ser levados à justiça, e não receber um passe livre ou uma cadeira à mesa.

Karzai facilitou demais a vida do Taleban. A corrupção e a incompetência de seu governo levaram milhares de afegãos aos braços da insurgência. Para impedir que outros milhares façam o mesmo, o governo de Karzai terá que agir rapidamente para melhorar sua performance.

Muitos combatentes não irão mudar de lado até que vejam uma transformação no equilíbrio militar. Isso deve acontecer na primavera ou verão, quando a maioria das 30,000 tropas americanas adicionais chega ao país.

O presidente Karzai, os Estados Unidos e outros parceiros precisam de um amplo plano de reconciliação antes disso. Eles também precisam ser mais claros a respeito do que está em oferta - e do que não está.

25/01/2010 07:41 PM

Estado da União incluirá ajuda para classe média

WASHINGTON - O presidente Barack Obama proporá em seu Discurso Sobre o Estado da União um pacote de iniciativas modestas para ajudar famílias da classe média, incluindo créditos fiscais para creches, limites aos pagamentos de empréstimos estudantis e a exigência de que companhias permitam que seus funcionários retenham na fonte economias para suas aposentadorias, afirmaram autoridades no domingo.

Ao se concentrar no que uma das autoridades da Casa Branca chamou de "geração sanduíche" - famílias em dificuldades esmagadas entre enviar seus filhos à universidade e cuidar de seus pais idosos - Obama espera usar seu discurso na quarta-feira do dia 27 de janeiro para demonstrar que entende a dor que a economia tem infligido ao americano comum. 

As propostas também incluem a expansão de créditos fiscais para as economias dos aposentados e dinheiro para programas que ajudam as famílias a cuidar de seus idosos.

O discurso ainda não terminou de ser escrito, mas uma autoridade sênior, descrevendo-o em condição de anonimato, disse que entre seus principais temas estão "a criação de bons empregos, planos para lidar com o déficit, ajuda à classe média e mudanças em Washington."

Com o declínio de seu índice de aprovação e os democratas temendo um desastre nas eleições de meio de mandato desse ano, Obama se encontra em um momento particularmente difícil de sua presidência.

Ele se aproxima de seu primeiro discurso Estado da União formal em um clima político radicalmente diferente até mesmo da semana anterior. Sua principal prioridade doméstica, a reforma do sistema de saúde, está em risco depois de uma vitória republicana na disputa da semana passada pelo Senado de Massachusetts.

As propostas do presidente devem apelar ao povo que está em dificuldades financeiras sem parecer outra ampla expansão do governo federal. Elas também acrescentariam pouco ao déficit federal em um momento no qual Obama promete reduzi-lo.

Enquanto Obama tem mudado seu foco para a criação de empregos nas últimas semanas, uma autoridade afirmou que o presidente também quer ressaltar o que chamou de "áreas críticas nas quais a classe média precisa de ajuda para avançar" - como pagar pelo ensino superior ou economizar para a aposentadoria.

Tais programas são, notavelmente, muito menos amplos do que a expansiva agenda de primeiro ano de governo de Obama.

Obama e o vice-presidente Joe Biden planejam delinear as propostas na segunda-feira quando se encontrarão com a força tarefa da Casa Branca que passou o último ano analisando formas de ajudar a classe média.

Os principais conselheiros do presidente insistem que Obama não está em retirada e resistem a qualquer comparação às insignificantes iniciativas que o último presidente democrata, Bill Clinton, usou para tentar colocar sua presidência de volta nos eixos.

Ao invés disso, a Casa Branca quer usar o discurso de quarta-feira para colocar assuntos como a reforma do sistema de saúde em temas mais amplos como a criação de empregos e a economia.

25/01/2010 07:39 PM

A luta pela vida em uma rua devastada

PORTO PRINCÍPE - A Avenida Poupelard no centro dessa devastada cidade pulsa com a vida e exala morte duas semanas após o terremoto.

 

Antes do que os haitianos chamam de "o evento", essa era uma rua movimentada e caótica com quiosques de loteria e lan houses, casas com portões e barracas de ambulantes, igrejas e escolas.

Agora, um fabricante de caixões passa o dia martelando madeira o mais rápido que consegue, enquanto o corpo de um menino de seis anos decompõe nas ruínas de uma escola.

Centenas de moradores agora sem teto ocupam carros do antigo estacionamento de uma mecânica enquanto uma advogada, escrevendo autos, acampa sob uma buganvília no quintal de sua inabitável mansão.

Um fervoroso pastor prega diante das ruínas de sua igreja; ambulantes vendem pequenos sacos com água potável; uma clínica de Aids reabre brevemente todos os dias para os pacientes que sobreviveram ao terremoto mas já não têm os remédios necessários.

E, envolto em tecido como uma múmia, um cadáver repousa sob uma placa que grita "SOS", colocado ali por seus vizinhos.

Com pouco mais de uma milha, a Avenida Poupelard, em uma região residencial e comercial conhecida como Nazon, oferece um panorama da vida em ruínas na capital do Haiti onde um coração ferido ainda bate.

Uma análise completa dos danos é impossível sem documentos de propriedade e impostos, que não estão disponíveis. Mas dos 53 prédios analisados na Avenida Poupelard, apenas seis permanecem intactos.

Vinte e três estão completa ou parcialmente danificados. Os outros 24 mostram danos que vão de rachaduras a paredes caídas, com tremores diários representando uma ameaça contínua.

Mas nessa avenida da cidade, como em outras áreas, a vida de sobrevivente continua.

Alguns pequenos negócios - uma barbearia aqui, uma pequena barraca de comida ali - retomam a vida. O debate político, um sinal de normalidade, está ressurgindo, com muitos amaldiçoando abertamente o presidente Rene Preval por fazer poucas incursões às áreas mais atingidas.

Comida, água, abrigo, doença e morte: esses continuam a ser problemas urgentes mesmo com a chegada de alguma ajuda, finalmente.

Para muitos na Avenida Poupelard, o trauma da perda criou uma vertigem quase existencial. Nora Jean Phillipe, trabalhadora de escritório que se sentava ao lado de uma barraca com uma caixa de Pop Tarts no colo, quase obsessivamente escavava as certidões de nascimento de sua família de sua casa em ruínas.

"Por favor, entenda," ela disse. "Eu perdi minha casa. Eu perdi o meu filho. De alguma forma, eu achei um jeito de salvar nossa identidade".

 
 
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25/01/2010 07:36 PM

Mulheres alemãs buscam espaço com a queda de um tabu

NEUOTTING, Alemanha - Manuela Maier foi chamada de péssima mãe. Uma Rabenmutter, ou mãe corvo, por causa da ave negra que empurra seu filhote para fora do ninho. Ela foi proscrita por outras mães, repreendida pelos vizinhos e por sua família e até mesmo ofendida em uma loja local.

Seu crime? Matricular seu filho de nove anos na escola primária que ofereceu classes após o almoço no outono...e voltar ao trabalho.

“Me disseram: ‘Por que você teve filhos se não pode cuidar deles?”’, disse Maier, 47. Em comparação, ter um filho sem ser casada não foi um problema há 21 anos nessa tradicional cidade da Bavária, ela conta.

Dez anos de século 21 e a maioria  das escolas primárias e secundárias da maior economia europeia, a Alemanha, ainda encerram as aulas antes do almoço, tipicamente por volta das 13h.

Agora, diante da economia de necessidade, esse conceito começa a cair por terra: com um dos menores índices de natalidade do mundo, a expectativa de falta de mão de obra e a queda do padrão de escolaridade obrigam uma reconsideração.

Desde 2003, quase um quinto das 40,000 escolas da Alemanha introduziram programas vespertinos e outras planejam seguir o exemplo.

"Este é um tabu que já não podemos nos dar ao luxo de ter," disse Ursula von der Leyen, médica que virou ministra do trabalho da Alemanha e mãe de sete. "O país precisa de mulheres capazes de trabalhar e ter filhos".

Para ela, o aumento do currículo escolar alemão é "irreversível", conforme as mulheres entram para a força de trabalho, seja em busca de satisfação pessoal, por que são mães solteiras ou têm parceiros cuja renda não tem como manter uma família. Na Alemanha, um quinto dos lares depende da renda das mulheres.

Essa tendência faz dos cuidados com as crianças uma questão de competitividade, disse Karen Hagemann, professora de história de divisões sexuais europeia da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

Em 1763, a Prússia foi o primeiro país a tornar a educação obrigatória para as classes baixas. O sistema de meio dia de ensino evoluiu em uma era que dependia do trabalho infantil.

A classe média alemã há muito acredita que os pais, e não o Estado, devem moldar a cultura das crianças. Nenhuma escola, eles acreditam, pode substituir uma mãe.

Mas esse sistema desencora que mulheres mais altamente educadas tenham filhos. Aos 40 anos, uma em cada três alemãs vive em um lar sem filhos, o que dá à Alemanha, juntamente com a Áustria, a maior proporção de lares deste tipo na Europa.

Esse pensamento antigo também não se adaptou a uma Alemanha na qual um número cada vez maior de estudantes são imigrantes, muitos dos quais precisam de ajuda em capacidades básicas.

Em 2001, um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, um grupo das democracias mais desenvolvidas com economias de mercado, sobre a alfabetização de jovens de 15 anos alarmou a Alemanha por sua posição em 21 de 27 países, e quase em último em termos de mobilidade social.

Dois anos depois, o governo disponibilizou US$5.7 bilhões para a criação de programas educacionais em esquema semi-internato para 10,000 das 40,000 escolas do país até 2009; 7,200 escolas adotaram o esquema.

25/01/2010 07:32 PM

Tribos indígenas ainda aguardam compensação

Depois de mais de um século de obstruções e atrasos, outro prazo se aproxima para a conclusão de um acordo que compensaria milhares de índios nativos americanos por perdas de bilhões de dólares causadas pela incompetência do governo em lidar com suas reservas de terra.

Uma lei aprovada em 1887 confiou o cuidado das terras ao governo federal através de um fundo. As contas do fundo do governo foram perdidas ou gerenciadas de maneira imprópria, cobrando taxas dos proprietários indígenas que mantinham rebanhos ou impedindo seu direito sobre compensações financeiras pela exploração de petróleo.

No mês passado, depois de 13 anos de disputas judiciais, ambos os lados chegaram a um acordo histórico que pagaria US$ 3,4 bilhões aos índios.

O acordo oferece compensação parcial de US$ 1,4 bilhão para os participantes individuais do fundo, mais US$ 2 bilhões para os demais requerentes.

O acordo precisa de aprovação, mas o Congresso – com sua agenda tomada pelo sistema de saúde e outras questões urgentes - perdeu um prazo em dezembro e irá perder outro agora. O fracasso em aprovar o acordo até o final de fevereiro pode reiniciar as negociações da disputa.

A honra desta nação exige que o acordo seja finalmente aprovado. Certamente este Congresso não quer entrar para a longa lista de gestões, legisladores e burocratas paternalistas que transformaram a justiça para os índios americanos em um jogo.

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22/01/2010 12:39 PM

Mais um desafio para o Haiti: reconstruir a economia

O preço de velas no mercado La Saline aumentou 60% desde o terremoto da última semana. Uma caixa de fósforos está 50% mais cara. Um pacote de peito de frango aumentou 30%.

 

Conforme os haitianos começam a pensar em reconstruir sua economia, o rápido aumento dos preços de produtos cruciais é apenas um dos muitos desafios que enfrentam.

O porto também foi tirado de operação, prejudicando as exportações. O sistema bancário, em grande parte fechado por medo de assaltos, tem problemas para reiniciar suas operações. O terremoto destruiu o Ministério das Finanças e parte do Banco Central e matou funcionários sêniors, como Jean Frantz Richard, diretor da Agência de Coleta de Impostos.

"O choque na economia é enorme, afetando talvez 50% do nosso PIB", disse Daniel Dorsainvil, ex-ministro das finanças. "Os bancos têm medo de reabrir por causa das questões de segurança e para retomar as importações e exportações nós teremos que passar pela República Dominicana. Catástrofe é uma palavra quase suave demais para a nossa situação".

O desastre tomou conta da economia de tamanho equivalente a um décimo do estado do Novo México, que já era fraca antes do tremor.

Ainda assim, alguns dos problemas econômicos mais imediatos podem estar começando a melhorar. A gasolina já está mais disponível do que nos primeiros dias após o terremoto, ajudando a aliviar um próspero mercado negro local no qual alguns negociantes de rua vendiam o combustível por até US$ 8 o galão. Remessas de dinheiro de haitianos que vivem no exterior começaram a fluir novamente depois que o Western Union reabriu suas lojas na capital.

Autoridades estrangeiras e locais estão buscando lidar com inúmeros outros problemas, começando com a urgente falta de dinheiro na economia. Eric Overvest, diretor do Programa de Desenvolvimento da ONU para o Haiti, disse que um novo programa irá pagar aos haitianos cerca de US$ 3 por dia para que trabalhem em períodos de duas semanas para injetar dinheiro na economia.

A economia do Haiti já estava em dificuldades antes do tremor, com mais de 70% da população sobrevivendo com US$ 2 ou menos por dia. Mas também mostrava sinais de melhora, crescendo 2,9% em 2009, um das taxas mais altas do hemisfério.

Os economistas locais afirmam que a alta nos preços de alguns artigos, principalmente refrigerados, é relacionada à contínua falta de energia elétrica e esforços em se obter lucro rápido por causa da incerteza sobre o futuro.

 
 
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22/01/2010 09:58 AM

Editorial: Os sunitas e a eleição iraquiana

Esperávamos que as eleições parlamentares do dia sete de março mostrariam a crescente maturidade da frágil democracia do Iraque e colocariam o país em um caminho estável, conforme as tropas americanas se preparam para a retirada planejada. Ao invés disso, o processo infelizmente tem se mostrado injusto e reanimado tensões sectárias.

A Comissão de Prestação de Contas e Justiça do Iraque soltou uma bomba eleitoral este mês ao desqualificar cerca de 500 (de 6.500) dos candidatos - muitos deles proeminentes sunitas muçulmanos - por causa de supostos elos com o Partido Baath, de Saddam Hussein. Entre os que tiveram que abandonar a disputa estão: o ministro da Defesa Abdul-Kader Jassem Al-Obeidi e Saleh al-Mutlaq, um dos mais influentes políticos sunitas iraquianos. A decisão foi ratificada na semana passada pela comissão eleitoral do país.

Os sunitas estão compreensivelmente furiosos. Depois de boicotar ou batalhar contra os governos xiitas dos últimos sete anos, líderes sunitas têm lutado para encontrar um novo papel construtivo.

Os piores cúmplices de Saddam devem ser responsabilizados pela antiga repressão. Mas há pouca dúvida de que muitos, se não a maioria, dos desqualificados têm motivos políticos para privar os sunitas de seus direitos. Embora Al-Mutlaq abertamente peça apoio aos admiradores de Saddam, ele pode concorrer ao Parlamento em 2005. E Al-Obeidi trabalhou com competência - e lealdade - como ministro da Defesa.

A Comissão de Prestação de Contas é a sucessora da destrutiva comissão de des-Baathificação que tentou manter qualquer um que tivesse elos com Saddam fora do governo. Seu chefe, Ali Faisal Al-Lami, não é um juiz imparcial. Ele é candidato da chapa eleitorial liderada pelo líder xiita Ahmed Chalabi, uma força implacavelmente ambiciosa na política iraquiana que levou a gestão Bush à invasão de 2003 e quer ser primeiro-ministro do país.

Tanto a comissão de prestação de contas quanto a comissão eleitoral fazem parte do governo do primeiro-ministro Nouri Kamal Al-Maliki e ele emitiu uma declaração que apoia suas decisões. Mas autoridades americanas dizem que Chalabi é o principal manipulador. A absurda acusação de Chalabi de que os Estados Unidos querem recolocar o Partido Baath no poder é típica de sua política divisória e destrutiva.

Há outros motivos para o fracasso do processo. Muitos iraquianos questionam a legalidade das comissões e de seus procedimentos, inclusive uma inquietante falta de transparência sobre quem foi desqualificado e porque. A habilidade de proibir os candidatos é uma autoridade séria que deve ser exercitada abertamente, judiciosamente e raramente.

A gestão Obama precisa continuar a pressionar os iraquianos para que cheguem urgentemente a um acordo que permitiria uma lista mais ampla de candidatos, incluindo Al-Mutlaq e Al-Obeidi.

O governo americano ainda tem influência sobre Bagdá - inclusive por causa dos bilhões em ajuda e a capacidade de cumprir ou negar os desejos do governo iraquiano em comprar armas sofisticadas como aviões F-16. E deve usar essa influência.

Os iraquianos aprenderam o severo jogo da política. Isso é de longe muito melhor do que lutar nas ruas. Mas deveria significar disputas contra os adversários nas urnas e não negar sua chance de concorrer.

Se os sunitas forem arbitrariamente excluídos, toda a eleição será comprometida. Pior ainda, os sunitas podem concluir, mais uma vez, que não há espaço para eles na política iraquiana. Isso seria um desastre.

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22/01/2010 09:54 AM

Taleban suaviza postura para ganhar mais simpatizantes

CABUL - O Taleban embarcou em uma sofisticada guerra de informação, usando modernas ferramentas de mídia, bem como algumas mais antiquadas, para suavizar sua imagem e conseguir o apoio dos afegãos conforme tenta se opor à nova campanha americana para ganhar os corações e mentes do povo do Afeganistão.

O líder espiritual do Taleban, o mulá Muhammad Omar, divulgou uma ampla diretiva no final da primavera passada delineando um novo código de conduta para o grupo. As ordens incluem a proibição de ataques com homens-bomba a civis, queimar escolas ou cortar orelhas, lábios e línguas.

O código, que tem sido inconsistentemente implementado, não significa necessariamente uma insurreição mais suave. Embora o Taleban tenha advertido alguns civis antes de seu ataque no centro de Cabul na segunda-feira, o grupo ainda foi responsável por três quartos das vítimas civis do ano passado, de acordo com as Nações Unidas.

Agora, conforme o Taleban aprofunda sua presença em mais áreas do Afeganistão, o grupo precisa de mais apoio popular e se mostra cada vez mais como um movimento de libertação local, independente da Al-Qaeda, capitalizando da frustração dos afegãos com seu próprio governo e a presença de tropas estrangeiras.

Com isso a insurreição tem se tornado mais forte, segundo autoridades da Otan.

Camponeses afegãos e algumas autoridades da Otan acrescentam que o código começou a mudar a forma como comandantes Taleban e seus seguidores se comportam em campo. Alguns dos comandantes mais brutais foram até mesmo afastados por Omar.

A operação de relações públicas do Taleban também é cada vez mais eficiente em transmitir sua mensagem e frequentemente trabalha mais rápido do que a OTAN.

"A adaptação afegã à insurgência os torna ainda mais perigosos", disse um agente de inteligência da Otan. "Suas metas ambiciosas provavelmente não mudaram muito desde 2001, mas quando nós chegamos com uma nova estratégia, eles responderam com a deles".

A estratégia americana inclui limitar ataques aéreos que mataram civis e concentrar as tropas mais perto dos centros populacionais para que os afegãos se sintam protegidos do Taleban.

Analistas americanos e afegãos veem o esforço do Taleban como parte de uma iniciativa mais ampla que emprega toda ferramenta possível, incluindo a tecnologia da internet, que no passado já denunciaram como "não-islâmica". Agora eles usam o boca-a-boca, mensagens por celulares e vídeos online para transmitir sua mensagem.

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21/01/2010 11:02 AM

No Haiti, valas coletivas para vítimas anônimas

TITANYEN, Haiti - Alguns quilômetros ao norte dos edifícios destruídos de Porto Príncipe, em uma colina na qual vacas pastam, uma vala comum espera os mortos. Retangular, com cerca de seis metros de profundidade e largura e 100 de comprimento, esta vala comum é uma sepultura coletiva, mas não a única.

Caminhões de entulho do governo têm colocado corpos aqui desde sexta-feira. Ninguém contabiliza, registra imagens ou procura por nomes. Em alguns lugares, pernas e braços de estranhos se trançam em uma dança paralisada, mas aqui o chão foi coberto por uma terra que apaga todo e qualquer sinal de vida.

Olhe e veja: uma fotografia rasgada de um homem de bigode e gravata prateada; um passaporte americano cancelado de uma criança nascida em Stamford, Connecticut; um pedaço de uma meia-calça roxa que nunca voltará a atrair um amante.


Passaporte antigo é visto jogado ao lado das valas comuns / NYT

"Eles enterraram tantas pessoas aqui", disse Voissine Careas, 60, um fazendeiro que cortava lenha perto dali com um machete. "E agora eles estão cavando buracos para mais."

Junto com tudo o que foi roubado pelo terremoto da semana passada, os haitianos têm que somar outra perda: a habilidade de identificar e enterrar seus mortos. Os rituais funerários estão entre as cerimônias mais sagradas para os haitianos, que são conhecidos por gastar mais dinheiro nos seus túmulos do que em suas próprias casas.

Isso é em parte causado por sua familiaridade com a morte -- a expectativa de vida média de um haitiano é de 44 anos -- mas também da convicção vodu difundida de que os mortos continuam vivendo e que as famílias têm que se manter conectadas para sempre aos seus antepassados.

"Manter uma relação com os mortos é o que permite que os haitianos se unam diretamente, através de laços sanguíneos, com um passado pré-escravo", disse Ira Lowenthal, antropólogo que morou no Haiti durante 38 anos. Ele acrescentou que com tantos corpos enterrados fora dos túmulos familiares, onde muitos rituais acontecem, incontáveis conexões espirituais serão cortadas. "Isso é uma violação de tudo o que estas pessoas valorizam", Lowenthal disse. "Por outro lado, as pessoas sabem que não têm escolha."

Dentro e fora de Porto Príncipe, o geralmente alto padrão cerimonial foi abandonado. As ruas têm menos corpos agora, mas o necrotério está superlotado e casas funerárias -- as que não desmoronaram -- têm mais corpos do que podem embalsamar.

Os caixões de madeira vistos nos primeiros dias depois do terremoto, carregados sobre caminhões, também são mais difíceis de se encontrar. Nas ruas estreitas atrás do cemitério nacional, onde a maioria deles é construída, os carpinteiros afirmam não ter madeira e eletricidade para dar continuidade à produção.

"Eles enterram você como um cachorro", disse Pegles Fleurigine, 51, em uma viela na qual construiu caixões durante mais de uma década. "Eles não o enterram em caixões."


Trator prepara morro para receber mais corpos de vítimas do terremoto / NYT

Fiapos de madeira presos sobre seu bigode. Magro e alto, com uma máscara branca sobre a testa, ele estava de pé ao lado de um caixão azul e prateado, envernizado como um Cadillac.

"As pessoas que solicitaram esse caixão estão tentando conseguir dinheiro para pegá-lo", ele disse.

Um contraste ainda maior entre a morte antes e depois do terremoto pode ser visto por uma parede caída que conduz ao cemitério nacional. À distância, mausoléus pintados de azul, com cruzes elaboradas e nomes poéticos como Famille Leonon Maxi. De perto, um buraco com as marcas de uma escavadeira e meia dúzia corpos decadentes deixados para trás.

Alguns inchados demais para serem reconhecidos, mas a certa altura no domingo uma jovem menina em um vestido branco florido encarava um jovem morto. Ele tinha o corpo de um atleta e vestia calças jeans de marca com um cinto largo elegante.

Questionada se o conhecia, a menina deu as costas.

Nas colinas de Titanyen, nos arredores da capital, não há nenhuma menina vagando. O pântano cheira a enxofre em um dia bom e este já foi o local de despejo preferido para oponentes políticos dos Duvaliers, líderes brutais do Haiti entre os anos 1950 e 1980. É considerado um terreno maldito pela maioria dos haitianos, poucas pessoas vivem na região, e na segunda-feira a maioria parecia tomar ônibus e caminhões para sair dali.

Na verdade, o nome deste lugar é tão notório que se tornou a ameaça distribuída por pais ao longo de muitas gerações: "Se você for ruim, irá para Titanyen."

Agora, o local se tornou o derradeiro lar das últimas vítimas do Haiti. No princípio, os enterros coletivos aconteceram arbitrariamente. Nas margens das estradas, pequenos destroços parecem inocentes sobre a grama, até que se vê um membro humano entre o concreto.

Mais adiante, estrada asfaltada acima, a operação parece mais organizada. Aqui há uma escavadeira com um motorista pouco disposto a falar. Um poste com duas grandes luzes, brilhantes olhos gigantescos, permitem o trabalho durante à noite.
 
Os fazendeiros dizem que pelo menos seis caminhões chegam a cada hora. Trabalhadores que recebem US$ 100 por dia para pegar os corpos das ruas de Porto-Príncipe disseram em entrevistas que não têm orientação sobre para onde levá-los.

Depois do tsunami de 2004 na Ásia, grupos de ajuda e governos estabeleceram um sistema no qual as pessoas eram fotografadas antes do enterro para que seus entes queridos pudessem localizá-los. Aqui, todos os mortos são anônimos. Lowenthal, o antropólogo, disse que isto não reflete insensibilidade por parte dos haitianos, mas sim uma catástrofe sem precedente que subjugou o país e os grupos de ajuda.

"Isto é pior que o tsunami", ele disse. "Veja a concentração da destruição."

As colinas de Titanyen são um lugar para o qual nenhum haitiano quer ir, ele acrescentou. Agora, mais uma vez, eles são tomados por seus piores medos.

Uma caminhada ao longo das colinas conduziu primeiro a destroços cobertos por fotografias de crianças, provavelmente de uma escola desmoronada.


Fotos de crianças são vistas perto de vala comum / NYT

No topo, uma clareira e montes de terra abriam espaço para os mortos. Um fazendeiro de camisa vermelha, que agia como guia, se manteve a um distância segura do odor.

Pelo menos 35 corpos estavam claramente visíveis. Mulheres com blusas rasgadas, homens com os rostos congelados em estranhas caretas e, no fundo, uma criança com os braços sobre a cabeça.

Alguns provavelmente eram parentes, outros eram estranhos, talvez até mesmo inimigos. Mas na morte eles compartilharam o que para muitos haitianos é o maior de todos os insultos: a falta de um adeus digno.

- DAMIEN CAVE

19/01/2010 09:04 AM

Em meio aos destroços, haitianos buscam refúgio na fé

PORTO PRÍNCIPE, Haiti - Cinco dias depois do devastador terremoto que atingiu o Haiti, um pastor evangélico vestindo uma camiseta pólo desgastada, com sua igreja destruída mas o espírito vibrante, tocou uma sirene para reunir os novos sem-teto que vivem em barracas na cidade para a missa de domingo.

NYT
Fiéis improvisam missa em Porto Príncipe

Fiéis improvisam missa em Porto Príncipe

Com a voz rouca, os olhos inchados e braços erguidos aos céus, o reverendo Joseph Lejeune pediu aos famintos, feridos e pesarosos haitianos reunidos ao seu redor que fechassem os olhos e elevassem os pensamentos para além da fétida praça Champ de Mars, onde agora lutam para sobreviver.

"Pensem na nossa nova cidade aqui como o lar de Jesus Cristo, não como a cena de um desastre", ele falou. "A vida não é um desastre. Vida é alegria! Você não tem comida? Se alimente do Senhor. Não tem água? Beba do espírito santo."

E eles beberam, cantando, balançando as mãos e tapando os narizes para evitar o cheiro dos corpos presos em uma escola perto dali. Helicópteros militares zumbiam sobre sua cabeça e os crentes almejavam a eles e além, se libertando durante algumas horas do trecho de concreto sobre o qual buscaram abrigo sob lençóis amarrados a postes.

Em versões variadas, esta cena se repetiu por toda a capital haitiana no domingo. Com muitas de suas igrejas destruídas e seus padres e pastores mortos, os haitianos desesperados por ajuda e conforto se voltaram a Deus em busca de alívio para sua aflição. Carregando bíblias, eles atravessaram ruas empoeiradas e cheias de entulhos, em busca de locais para a oração. As igrejas, normalmente cheias com paroquianos fiéis nas manhãs de domingo, acordaram aos pedaços.

NYT
Mulher participa da missa no Haiti

Mulher participa da missa no Haiti

Em um sinal da importância das igrejas aqui, o presidente Rene Preval reuniu líderes religiosos juntamente com líderes políticos e empresariais na delegacia de polícia que se tornou sua sede. Ele pediu às igrejas, em particular, que se concentrem em alimentar as pessoas, mas deu pouca orientação sobre o que o governo fará para ajudar.

Não longe da igreja evangélica provisória na praça Champs de Mars, fiéis se reuniram diante das ruínas da principal catedral da cidade para ouvir um apelo por paciência feito por um bispo.

"Nós temos que manter a esperança", disse o Bispo Marie Eric Toussaint, embora ele tenha reconhecido não ter nenhum recurso para ajudar os muitos que estão sofrendo e achar difícil declarar com qualquer confiança se a catedral será reconstruída.

Construída em 1750, a catedral, antes uma peça arquitetônica importante da cidade, agora não passa de uma gigantesca pilha de metal trançado, vitrais quebrados e concreto rachado. Toussaint disse que o terremoto destruiu as residências dos padres, matando muitos deles.

A catedral de Sacre Coeur, outra grande estrutura, também foi destruída, e um grande Cristo na cruz perfeitamente preservado restou como testemunha da destruição - com o corpo de uma mulher deitado sobre um colchão na rua, coberto com lençóis, representando o sofrimento causado pelo terremoto.

"Pode parecer um momento estranho para se ter fé", disse Georges Verrier, 28, especialista em computação desempregado, seus olhos se movendo entre o corpo e a igreja. "Mas você não pode culpar Deus. Eu culpo o homem. Deus nos deu a natureza e nós os haitianos e nossos governos, abusamos da terra. Você não pode escapar sem consequências."

Em um tom parecido, um autodesignado pastor na praça Champs de Mars se colocou sobre uma cratera durante o serviço de oração e proclamou que o terremoto foi o castigo por uma longa lista de pecados que enumerou em cantarola. "Nós temos que nos ajoelhar e pedir a Deus", ele disse.

NYT
Fiéis rezam nas ruas, pois igrejas foram destruídas

Fiéis rezam nas ruas, pois igrejas foram destruídas

Vladimir Arisson ignorou o autodesignado pastor com um rolar de olhos. Arisson cuidava de sua namorada gravemente ferida, Darphcat Charles cuja cabeça estava envolta em uma gaze ensanguentada, seus olhos machucados e sua face inchada, infectada. "Minha posição é: Deus abençoe e nos envie, por favor, ó Deus, um médico para fechar o buraco na cabeça da minha amada."

Outro homem que acompanhou o serviço evangélico apresentou sua esposa que está grávida de oito meses e se sentou no chão, pálido. "Um bloco de concreto caiu sobre a barriga dela e nós não sabemos se o bebê ainda está vivo", disse o homem, Ricot Calixte 28. "Rezar pode ajudar, eu acho. Como ainda respiro, ainda tenho fé".

Ao redor deles, na missa, os aplausos e améns intensificaram na cidade de barracas que não tem nenhuma barraca de verdade, apenas tendas improvisadas. O acampamento central na praça Champ de Mars é a igreja provisória de Lejeune, que no seu prédio original destruído contava com 200 membros ativos, três dos quais foram mortos e muitos estão desaparecidos.

"Aqui nós começamos diariamente com o que eu chamo de missa do café da manhã," ele disse antes da missa de domingo. "Nós não temos café, claro. Mas essa é uma reza para nos acordar e nos fortalecer quando olhamos para frente e pensamos, 'Ai, e agora?'"

Ele pausou, esfregando o nariz por causa do odor de restos humanos e acrescentou: "Uma igreja em um banheiro, é isso que nós somos. Por enquanto."

Por DEBORAH SONTAG

 
 
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18/01/2010 04:00 PM

Sob vigilância mundial, Rio se concentra em segurança

RIO DE JANEIRO — A polícia irá invadir 40 das favelas mais violentas da cidade antes da Copa do Mundo de 2014 ser sediada no Brasil, com o objetivo de estabelecer uma presença policial permanente em comunidades agora controladas por facções narcotraficantes muito bem armadas, afirmaram autoridades do Estado do Rio.


Os planos incluem a ocupação da Rocinha, uma das maiores e mais fortificadas favelas da cidade, no que especialistas em crime locais dizem poder se tornar uma enorme e sangrenta batalha que definirá os esforços da cidade em expulsar grupos traficantes que tomam conta da cidade há três décadas.

A campanha é uma expansão do "programa de pacificação" da polícia, que teve início no final de 2008. Ela entra em vigor conforme as autoridades brasileiras sentem o peso do escrutínio internacional depois que o país foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

As forças policiais, principalmente, têm lidado com alguns retrocessos embaraçosos.

Em outubro, duas semanas depois que o Rio conquistou os Jogos Olímpicos, um fim de semana de confrontos sangrentos entre facções rivais deixou 12 mortos, incluindo dois policiais assassinados quando narcotraficantes derrubaram seu helicóptero com armas de calibre pesado. Além disso, o corpo de um jovem foi encontrado dentro de um carrinho de supermercado em uma rua movimentada.

No mês passado, o grupo de direitos humanos Human Rights Watch divulgou um extenso relatório que detalha a história das execuções extrajudiciais da polícia do Rio. O relatório afirma que uma porção significativa das 2,467 mortes por "resistência" no Estado do Rio em 2007 e 2008 foram ilegais e que raramente os assassinos foram levados à justiça.

Especialistas em direitos humanos afirmam temer que as invasões policiais planejadas resultem em ainda mais mortes executadas pela polícia.

"O Rio precisa encontrar uma maneira de controlar não apenas suas gangues violentas, mas também sua polícia", disse Daniel Wilkinson, vice-diretor do Human Rights Watch para as Américas. Se tentar fazer um sem o outro, então este programa de pacificação certamente irá resultar no derramamento de sangue."

A polícia diz que o programa de pacificação busca levar ordem para as favelas que circundam as áreas mais ricas no sul e oeste da cidade, onde a maioria das competições Olímpicas será sediada.

Narcotraficantes fortemente armados controlam centenas de bairros do Rio e são amplamente responsáveis pela região metropolitana ter um dos índices de assassinato mais altos do hemisfério, em quase 35 para cada 100 mil moradores.

Autoridades do Estado do Rio dizem estar concentrando seus esforços nas favelas nas quais as gangues têm armas mais perigosas, o que permite que aterrorizem os moradores e evitem incursões policiais.

"Estas 40 favelas que nós escolhemos são os braços, pernas, tronco e cérebro do tráfico de drogas no Rio de Janeiro", disse Dirceu Silviana, porta-voz da Secretaria de Segurança Pública, que supervisiona a polícia do Rio. "Mas o objetivo central não é o tráfico de drogas, é acabar com as armas de guerra"

As autoridades do Rio dizem que eventualmente ampliarão o programa para 100 favelas, mas não sabem dizer ao certo quando isso acontecerá. Durante os próximos quatro anos, pelo menos, o plano é ocupar em média 10 comunidades por ano.

As autoridades do Rio dizem que parte da campanha será para tentar reduzir a mortalidade policial e que oficiais que escolherem trabalhar nas favelas receberão treinamento especial em direitos humanos e gratificações que quase dobram o salário policial de cerca de US$ 620 por mês.

Desde o início do programa em novembro de 2008, a polícia do Rio tomou mais de nove comunidades que somam aproximadamente 120 mil moradores, disseram as autoridades. Esta é apenas uma pequena porção das cerca de 600 favelas que têm problemas sérios com o tráfico de drogas e facções traficantes; as favelas têm cerca de um milhão de pessoas, afirmam as autoridades cariocas.

O programa envolve a colocação de um grande contingente policial em uma área de favela de forma permanente para interagir com os moradores e impedir que os narcotraficantes voltem a ocupar a região e ajam como um "poder paralelo", disse Sérgio Cabral, governador do Estado do Rio.

Fabrizia Granatieri

Morador passa próximo a carro da PM no acesso ao Morro Santa Marta

Depois que ocupa uma favela, a polícia controla sua segurança por tempo integral, evitando a necessidade da invasão destas áreas por esquadrões de elite do Rio, que geralmente fazem incursões violentas para apreender narcotraficantes ou conter invasões de facções rivais.

Até agora a "pacificação" foi instalada em favelas pequenas, como a Dona Marta, que tem aproximadamente 6 mil moradores.

"Os relatos que eu recebi de pessoas que foram libertadas deste 'poder paralelo' são incríveis", disse Cabral. "'Agora nós estamos livres do terrorismo', elas me dizem. 'Finalmente, governador, eu posso dormir à noite'".

Silviana, o porta-voz da segurança pública, afirmou: "O momento e a decisão sobre quais favelas iremos ocupar depende da nossa capacidade de treinar novos policiais. Cada ocupação é uma experiência de aprendizagem".

As autoridades cariocas estão acrescentando 3.300 policiais este ano e pelo menos 4 mil outros até 2011 à força policial de 45 mil do Rio de Janeiro. Quase todos os agentes novos serão empregados como pacificadores nas favelas, disse Silviana.

Agentes policiais do Rio de Janeiro estão entre os mais mau remunerados do Brasil, com alguns vendedores de drogas das favelas ganhando mais do que os novos agentes, de acordo com o grupo Human Rights Watch. O governo federal prometeu dobrar os salários dos policiais do Rio até os Jogos Olímpicos de 2016.

Sob o aumento da vigilância internacional, Cabral também pediu recentemente ajuda ao ex-prefeito de Nova York, Rudolph W. Giuliani. "Nós estamos discutindo a possibilidade de Giuliani se tornar consultor do Rio para assuntos de segurança", disse Cabral.

Expulsar os narcotraficantes exigirá batalhas que podem atingir áreas mais ricas da Zona Sul do Rio, que atraem a maioria dos turistas internacionais para a cidade.

No mês passado, durante o segundo dia da ocupação das favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, narcotraficantes responderam com uma série de ataques terroristas em Copacabana e Lagoa, forçando a polícia a enviar reforços. Um ônibus foi queimado e granadas detonadas em áreas ocupadas dos bairros, inclusive na Avenida Atlântica, de acordo com reportagens do jornal carioca O Dia.

A ocupação da Rocinha e de Vidigal perto dali, que junto têm cerca de 100 mil moradores, será um desafio muito maior. A Rocinha fica no alto de um morro que circunda áreas críticas como a Zona de Sul, São Conrado e Barra da Tijuca. É uma fortaleza natural sob o controle de uma facção narcotraficantes poderosa.

"As logísticas são muito ruins", disse Silviana.

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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18/01/2010 03:23 PM
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