Política pública de segurança adotada em Pernambuco mostra que há soluções para a redução da criminalidade violenta Assim como vários Estados brasileiros, Pernambuco sofria com um índice elevado de homicídios. Se no País aproximadamente 40.000 pessoas morrem assassinadas por ano, em 2006, o Estado de Pernambuco contabilizou 4.600 mortes nas mesmas condições. É claro que o cenário pernambucano tem elementos comuns ao quadro nacional, tais como a criminalidade organizada, o número elevado armas de fogo e a epidemia do crack. Mas, além disso, a honra e a cultura da vingança ajudam a compreender as dinâmicas locais envolvendo crimes violentos. Desde 2007, o governo do Estado vem implementando o ?Pacto Pela Vida?, uma política de segurança pública que, como sugere o nome, prioriza a redução de homicídios. Do ponto de vista do conteúdo, as ações enfatizam aquilo que é chamado de prevenção social do crime. Ao mesmo tempo, priorizaram a melhora da atividade policial, investindo em inteligência, articulação entre o trabalho das polícias civil e militar, a adoção de uma política de repressão focada sobretudo nos homicidas contumazes e que foge da criminalização da pobreza e da vitimização de grupos vulneráveis. Do ponto de vista técnico, o Pacto pela Vida tem uma estrutura de governança elaborada. Foi estabelecido um núcleo gestor, além de câmaras setoriais específicas para cada área de atuação. Por fim, há um monitoramento constante das ações e resultados. O efeito de todo esse esforço é a redução acumulada de 35,4% no número de crimes violentos letais e intencionais em Pernambuco entre 2007 e 2010. Não apenas o número de mortes vem caindo, mas o padrão de redução se mantém ao longo dos anos. Aparentemente não há novidade na receita do Pacto pela vida. O governo apenas adotou bons princípios de segurança pública. Mas a novidade reside extamente ai: em uma resposta do Estado pautada pela racionalidade, informação e planejamento. Ou seja, um conjunto de intervenções capaz de responder adequadamente à realidade. Outro elemento a ser destacado é a consistência e duração da política. Governos geralmente são refratários a investimentos cujo resultado apareça apenas a longo prazo. Nesse caso, vemos que o investimento de longa duração traz resultados, tem solidez e cultiva uma cultura institucional saudável, capaz de antecipar problemas e diversificar as ações. Não se trata apenas de descobrir o que fazer, mas como fazer. A ideia de ?boas práticas? ou de intervenções bem sucedidas devem servir sobretudo como inspiração, já que em se tratando de política pública, não há receita pronta ou modelo a ser integralmente copiado. No caso da segurança não é diferente. Mas a política de Pernambuco não deixa dúvidas de que há soluções para a criminalidade violenta, e nos ensina também que, no interior de uma política de segurança mais ampla, a preservação da vida deve esta no topo da lista.
23/12/2010 03:32 PM
Criador do exame como forma de seleção para universidades terá chance de melhorá-lo A presidente Dilma confirmou que Fernando Haddad continuará à frente do Ministério da Educação. Apesar de ter sido indicado por Lula, ainda havia dúvidas se o professor de sociologia da Universidade de São Paulo (USP) teria forças para se manter no cargo. As duas principais tinham motivos distintos, um político e um técnico. No primeiro campo, Haddad é acusado, por deputados do PT, de fazer pouca política e ser ausente na vida partidária. Isso é estranho, porque Haddad não escondeu de ninguém que queria ser candidato à presidência no lugar de Dilma ou, pelo menos, candidato ao governo do Estado de São Paulo. Ainda nessa área, são vários os relatos sobre as discordâncias entre Haddad e Dilma no campo da educação. Dilma, a mãe do PAC, foi a grande gerente do governo Lula, mas na educação não tinha muito poder. Não concordava com as metas de Haddad, mas Lula não permitia intervenção dela na área. Este ano foi tudo diferente. Como a prova aconteceu muito tarde, em novembro, uma semana depois do segundo turno das eleições, Haddad fez de tudo para não consertar os erros da aplicação. O gabarito invertido pode ter prejudicado, a priori, todos os mais de três milhões de candidatos que compareceram ao exame. No entanto, para não atrasar o calendário das universidades federais, o ministro preferiu desrespeitar os direitos individuais dos candidatos. Somente uma prova, optativa, para todos, poderia minimizar os erros da prova. Mas isso não foi feito, e até mesmo o critério estabelecido pelo MEC para aplicar a nova prova não foi respeitado, uma vez que nem todos os prejudicados com erros de impressão foram chamados. Apesar do problemas acima, e apesar de saber que hoje a opinião pública massivamente critica o ministro, não posso deixar de apontar os avanços, na educação, pelos quais Haddad foi responsável. Em sua gestão, foram implantados importantes projetos de um ministério que começou com Cristovam Buarque, passou por Tarso Genro e caiu em seu colo. Uma coisa é certa. Haddad já conseguiu, até mais do que queria, atingir um dos objetivos do novo Enem: colocar o ensino superior, o número de vagas nas Federais, o vestibular e a reforma do ensino médio na pauta da sociedade e da política brasileira. Para termos uma idéia, o "Enem" foi o quinto assunto mais procurado nos mecanismos de busca da internet em 2010. Agora, é torcer para que ele enfim dê certo.
Além disso, havia o motivo técnico: a inépcia de Haddad em aplicar o Enem em seu novo formato, como sistema de seleção de alunos para ingresso no ensino superior público. Fernando Haddad teve dois comportamentos muito diferentes em relação aos problemas do exame nos dois últimos anos. No passado, quando soube do vazamento da prova, foi impecável. Ele mesmo, na madrugada, foi até o cofre onde estava a prova para ver se era a mesma que tentaram vender a jornalistas em São Paulo. E não teve dúvidas para cancelá-la.
Em primeiro lugar, o orçamento do Ministério da Educação aumentou de forma substancial. Isso possibilitou que o MEC pudesse aumentar sua atuação. A troca do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Fundamental (Fundef) pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) garantiu que os recursos para os níveis da educação básica para além do ensino fundamental fossem aumentados. E, para garantir o sucesso do Fundo, a União também entrou com recursos.
O Programa Universidade para Todos (Prouni) possibilitou que centenas de milhares de alunos pudessem ter acesso a uma universidade particular sem pagar nada ou pagando só metade da mensalidade. É verdade que o programa é muito polêmico. Alguns defendem que o dinheiro das isenções de impostos, aplicadas para que estas instituições aderissem ao Prouni, deveriam ser aplicados em universidades públicas. Outros dizem que essas bolsas são distribuídas para pessoas que não conseguiriam vagas nas universidades federais. O fato concreto é que muita gente se beneficiou das bolsas e melhorou sua formação e qualidade de vida.
O Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) ampliou o número de universidades federais (eram 45 em 2003 e agora são 59), expandiu os campus das federais para o interior do país, aumentou a relação do número de alunos por professor no e trouxe mais vagas públicas.
Criou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), um indicador de avaliação do ensino básico. Mesmo não sendo o melhor sistema de possível, ajuda a avaliar as políticas públicas e tem como aspecto mais interessante o fato de que cada escola tem uma meta diferente a ser seguida. Isso indica que o governo entende que, para avaliarmos a educação, o importante é saber onde estava uma escola e onde ela chegou, em contraposição às notas absolutas. Infelizmente, ainda encontro muitos dirigentes que colocam como meta, em sua cidade, que todas instituições alcancem o índice, no Ideb, da escola melhor pontuada. Eles não entendem o que é educação.
O Provão mudou. Agora, no lugar, temos o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), que convoca o aluno a fazer uma prova no início da faculdade e outra no final. Assim a avaliação melhora, por não considerar as notas absolutas e sim o desenvolvimento do aluno no tempo que ele passou na universidade. Hoje, algumas faculdades ainda dão um jeitinho para que os seus alunos não estudem para a primeira prova, melhorando, assim, o resultado no final ? utilizar o Enem no lugar da prova do primeiro ano do Enade pode ajudar nisso.
O fim da Desvinculação de Receitas da União (DRU), em 2007, colocou na educação cerca de R$ 10 bilhões por ano no orçamento do MEC. Temos, agora, o piso salarial nacional do magistério. O MEC hoje é o maior comprador de livros didáticos do mundo.
O Ensino Fundamental foi ampliado em um ano. Mesmo que sem a mesma qualidade, as classes de menor poder aquisitivo podem ter garantido o direito de colocar seu filho na escola um pouco mais cedo, assim como fazem a classe média e alta.
Haddad tentou enfrentar o sistema "S" (Sesi, Senai, Senac, Sest, entre outros), mas não obteve muito sucesso. Para a manutenção do sistema, as empresas repassam parte do seu faturamento. É como se o Estado renunciasse a uma parte da arrecadação e desse ela para particulares cuidar. O resultado é que estas escolas criam ilhas de excelência, onde não são todos que conseguem o acesso. E, pior ainda, além de usarem dinheiro público, algumas delas ainda cobram pelo seus serviços de educação.
Estas são algumas das importantes realizações do MEC para o País. Mas elas não podem dar um salvo-conduto para o ministro Fernando Haddad realize um atentado aos direitos individuais de milhões de pessoas. Espero que ele consigo melhorar isso no próximo ano. Por ser o mentor do Enem como forma de seleção para as universidades públicas e indutor das mudanças do ensino, além de ser, em última instância, o responsável pelos erros dos último Enem, talvez seja mesmo a pessoa mais indicada para arrumá-lo e dar-lhe maior credibilidade.
21/12/2010 09:18 PM
Divulgação sistemática de dados sobre violência e crimes denota um avanço no campo da segurança pública Pelo 4º ano consecutivo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização que tem entre seus associados policiais, acadêmicos e representantes da sociedade civil, lança seu anuário com estatísticas relativas à criminalidade e segurança no Brasil. A publicação traz dados sobre ocorrências criminais, presos provisórios, gastos com segurança pública, juventude e violência, a participação dos municípios na segurança pública e efetivos policiais. A divulgação sistemática de dados denota por si só um avanço no campo da segurança pública. Durante muito tempo informações sobre qualquer tema relacionado aos crimes cometidos e as respostas do Estado eram guardadas a sete chaves, revelando pouca transparência, interesse ou capacidade técnica de produzir esse tipo de mapeamento. Hoje, sabemos que o acompanhamento anual das estatísticas é uma ferramenta essencial para o desenho de uma agenda de prioridades para a segurança publica no País. Entre as informações apresentadas pelo anuário, chama atenção o número de mortes causadas por armas de fogo. Eles reiteram a centralidade das armas nas mortes provocadas entre jovens de 15 a 19 anos e adultos de 20 a 29 anos: 94,8 e 95,4 para cada 100 mil habitantes respectivamente. Muito mais altas do que à taxa média da população total, 25,6. A concentração da violência nessa faixa etária não é novidade e o efeito devastador da difusão de armas de fogo no País tampouco. Mas o dado novo apresentado pelo anuário é que, se desde 2000 havia uma tendência de queda nos homicídios cometidos por arma de fogo, as estatísticas mais recentes mostram um crescimento das mortes classificadas nessa mesma categoria. Num momento onde se discutem soluções para cenários críticos como é o caso do Rio de Janeiro, é fundamental recolocar as armas de fogo no centro do debate. Mais do que as drogas, são as armas e o imenso mercado ilegal associado a elas o combustível da violência urbana no País. O Estatuto do desarmamento, em vigor desde 2003, proibiu o porte de armas e estabeleceu uma série de critérios para a compra e posse armas e munição. A despeito dos resultados positivos, desde que foi aprovado o Estatuto sofre ataques constantes que tentam desconfigurá-lo e ampliar as possibilidades de compra e porte de arma para além daquelas originalmente previstas. Em outras palavras, são tentativas de aumentar o volume de armas em circulação. Os dados apresentados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que é do interesse do Brasil uma política de controle de armas mais eficaz, capaz acabar com o mercado ilegal e conter o número trágico de mortes que ainda assola o País.
16/12/2010 01:12 PM
Nota de corte caiu porque a prova foi mais difícil e parte do conteúdo da 1ª fase só é visto em escolas tradicionais particulares Como eu já havia previsto nesta coluna do IG Educação, as notas de corte da Fuvest 2011 caíram. A prova foi mais difícil, a concorrência diminuiu e as questões pareciam estar ali para selecionar somente para os cursos mais tradicionais e escolher um tipo bem específico de aluno. Era muito fácil prever que a nota de corte iria cair.
Posso dizer que, hoje, estão extremamente satisfeitas cerca de duas dezenas de escolas particulares tradicionais do Estado de São Paulo, por que a prova deste ano, mais do que nunca, foi feita quase que por encomenda para elas. Muitas das questões propostas pela prova tinham conteúdos que só são vistos nestes colégios. As outras milhares de escolas não chegam a esses conteúdos, e na verdade nem precisam chegar. Também devem estar satisfeitos os sistemas de ensino, que, em sua maioria, enchem os currículos de conteúdos e decorebas e impedem que o professor possa de fato ser um educador.
Notem que mais de 10 cursos tiveram 22 acertos como nota de corte. Para entender melhor o que isso significa, um aluno que soubesse resolver corretamente só sete das 89 questões e marcasse todas as demais em uma única alternativa teria uma nota maior que 22.
O que acontece é que boa parte de quem vai estudar na USP no próximo ano teve nota menor que 40% da prova na Fuvest (menos de 36 pontos). Isso mostra que alguns dos alunos que fazem a USP não são capazes de permanecer na vida universitária? A resposta é não. Do jeito que é o vestibular da USP, e neste ano mais que nos outros, ele não seleciona aqueles que são mais capazes de ter sucesso no ensino superior. Vários futuros alunos com nota baixa no vestibular de primeira fase que serão ótimos profissionais e um monte de alunos com nota alta que serão péssimos profissionais.
Isso acontece por que não há, hoje, nenhuma relação direta entre acertar questões conteudistas e ter a capacidade de compreender fenômenos, resolver problemas, fazer e implementar um projeto de vida e conviver de forma ética valorizando as diferenças e a diversidade.
O vestibular, por si só, é excludente. Ele parte da lógica de que existem mais candidatos do que vagas e por isto é necessário selecionar. A USP deste ano reforçou a função de ser, além de excludente, elitista.
Quando se escolhem as questões que estarão em uma prova, se escolhe o perfil de aluno que quer que entre na instituição. Que fique claro, isso não é somente a minha opinião. É o que tem dito o reitor da USP em suas entrevistas. Ou seja, a prova mais difícil, com suas questões conteudistas, não foi mera coincidência. Isso foi feito de forma planejada e articulada, para que o reitor encontrasse exatamente o aluno que ele quer.
Se o reitor quisesse alunos que conseguem conviver no ambiente universitário, não precisava fazer uma prova absurda como foi essa última da Fuvest. É muito mais importante saber as capacidades cognitivas, a resiliência - capacidade do indivíduo de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - e a formação ética do candidato do que descobrir se ele sabe o que é "aliteração", "sinestesia" ou o "pretérito perfeito do indicativo".
Alguma coisa precisa ser feita para a USP se democratizar. O caminho, daquela que se orgulha de ser a melhor universidade da America Latina, tem sido o contrário. O vestibular, como vimos, foi totalmente contrário às reformas que os demais vestibulares do Brasil têm feito e extremamente distante do que há de mais moderno na educação. Foi feito para alguns colégios particulares e para as grandes redes de cursinhos.
Os poucos alunos da rede pública que furam este bloqueio já estão ameaçados, pois o reitor anunciou seu desejo de acabar com os cursos de menor concorrência. E para piorar, apesar de o orçamento da USP aumentar todos os anos (devido à vinculação orçamentária, que dá 9,57% do ICMS para as universidades públicas estaduais), o número de vagas na USP não aumenta na mesma proporção.
13/12/2010 07:34 PM
Ministério não consegue garantir que quem recebeu a prova sem algumas questões poderá fazer outra A segunda prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) insiste em aplicar para poucas pessoas ? desrespeitando os direitos individuais dos milhares de alunos que tiveram o gabarito invertido ? tinha tudo para dar errado. E deu, mesmo antes de ser realizada. Estava mentindo quando disse que a nova prova do ENEM não seria no mesmo dia de qualquer grande vestibular. Entre outros vestibulares, no dia 15 a UFPI, que é subordinada ao MEC, terá vestibular. Muitos candidatos que foram chamados para o novo ENEM terão que optar entre fazer uma prova ou a outra.
O MEC resolveu que os únicos prejudicados foram os alunos que receberam o caderno de prova do sábado faltando questões. Desconsiderou os milhares de alunos que se sentiram prejudicados por terem sido obrigados a inverter o gabarito e passou a listar os alunos que teriam recebido as provas com erros de impressão.
O ruim ficou pior. Para descobrir quem recebeu a prova faltando questões, o MEC simplesmente resolveu ler as mais de 100 mil atas das salas de aula onde o Enem foi aplicado. É demais achar que os aplicadores, em sua maior parte contratados na última hora, anotaram nas atas tudo o que aconteceu nas salas onde houve o Enem.
Para o MEC, não era difícil prever que haveria centenas de atas mal preenchidas. Se alguns fiscais de prova e coordenadores de escolas não entenderam que bastava preencher a questão 1 no espaço 1 do gabarito, a questão 2 no espaço 2, a questão 3 no espaço 3, e assim sucessivamente, por que seriam capazes de entender que era necessário registrar em ata o erro na prova para preservar o direito de um candidato? E tem mais. Foi feita a leitura das mais de cem mil atas, uma a uma. Quem acredita que, mesmo que tudo tenha sido registrado, a leitura seria impecável e nenhum erro aconteceria no processo?
O MEC descobriu isso nesta quarta-feira e, em menos de uma semana, todas as atas terão de ser relidas. São mais de 20 mil atas por dia, na esperança de encontrar mais 7 mil candidatos e somá-los aos quase 3 mil já localizados. Uma tarefa impossível de ser realizada. Desde os erros no Enem, o MEC só mentiu. Disse que tinha uma prova reserva. Não tinha. A prova que vai ser usada é a que já estava pronta para ser aplicada nas instituições prisionais, como adiantei em coluna no IG Educação. O MEC disse que só havia um lote de provas com questões faltando e que, portanto, os locais a serem aplicadas a provas seriam mínimos. Mentiu. Já são pelo menos 17 Estados e 218 cidades. Além disso, como se explica que somente três provas tenham se perdido deste lote e aparecido nas cidades de Itaquaquecetuba e Ourinhos, no Estado de São Paulo?
O ministério mentiu quando disse que nenhum aluno seria prejudicado. São milhões os que continuam prejudicados e agora o MEC não consegue nem garantir que quem recebeu a prova sem algumas questões poderá fazer outra. E mentiu quando disse que seriam pouco mais de 2800 alunos que tiveram o problema. Até hoje o MEC não sabe o número exato.
Tem alguns problemas, principalmente na administração pública, em que a melhor solução é admitir o erro, pedir desculpas e começar de novo. No ENEM do ano passado o MEC teve a humildade de entender isto e recomeçar do zero. Neste ano a insistência em manter a prova marcará o Enem como um dos maiores atentados contra os direitos individuais depois da constituição de 1988.
Todo dia recebo em meu twitter (@ENEMmateusprado) manifestações de insegurança e apreensão de alunos de todo o País. Aqui, no IG Educação, em entrevistas para TVs e jornais, em palestras pelo País e nas redes sociais, tenho apelado para o bom senso daquele que foi um bom ministro no governo Lula e que agora insiste em não enxergar os problemas das pessoas que concorrerão às mais de 200 mil vagas que Enem selecionará, ou ajudará na seleção, pelo Prouni, pelo Sisu, diretamente em universidades e institutos federais ou na composição da nota de vestibulares.
Repito meu apelo, caro Haddad. Ainda lembro de quando era meu professor na Universidade de São Paulo (USP). Para a nossa turma, era marcante como o jovem professor tinha senso de justiça e capacidade de avaliar com inteligência invejável as políticas públicas no Brasil. Estou certo que o senhor, hoje, sabe que o consórcio que aplicou o Enem não conseguirá localizar todos que receberam a prova com erros. Já sabemos que a sua atuação na Educação foi brilhante e ajudou a apontar caminhos para a área. Eu peço, entenda que para este problema não há remendo. A única solução possível, e que causará menos traumas, é fazer uma nova prova, optativa, para todos.
10/12/2010 12:16 PM
A racionalidade sugere que deveríamos aspirar a uma polícia cuja tarefa primordial fosse prevenir o crime e promover a segurança Na semana passada, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou uma pesquisa nacional cujos resultados mostram que a maior parte dos entrevistados confia pouco ou não confia nas polícias, tanto militar quanto civil. Além disso, consideram seu trabalho lento e ineficiente. No início desta semana, o governador Sergio Cabral anunciou uma gratificação de R$ 500,00 para cerca de 43 mil policiais e funcionários da administração penitenciária como forma de premiá-los pelos esforços no combate ao crime. A polícia fluminense está entre as mais mal pagas do País. Estados como São Paulo e Rio tiveram um crescimento grave nas suas taxas de letalidade policial no último ano. No início de 2010, a Base Policial Comunitária do Jardim Ranieri, localizada na zona sul de São Paulo, uma das regiões mais violentas da cidade, foi reconhecida internacionalmente como um modelo de policiamento. A sequência de informações aparentemente sem conexão é um bom resumo das contradições que caracterizam hoje a atividade policial no Brasil. Ainda uma herança da ditadura militar, a concepção de segurança e o papel reservado à polícia é quase que exclusivamente associado à repressão. Nesse sentido, a polícia ainda está longe de ser percebida ou atuar como um agente promotor de direitos, no caso a segurança - direito que deveria ser fundamental. Mas mais do que isso, o Brasil não foi capaz de concluir o processo de modernização das suas instituições e o resultado é que temos uma polícia que não é bem treinada, que nem sempre conta com equipamentos adequados e para quem a carreira não é reconhecida ou bem remunerada. Por um lado, casos de abusos e violência policial ainda são recorrentes e os instrumentos para contê-los, tais como mecanismos de controle externo, ainda são frágeis. Por outro, é preciso reconhecer que hoje, há muitas polícias no interior da polícia. E os bons policiais também são vítimas de um sistema que não funciona, que resiste a inovações e que tem como espelho a imagem da violência e da corrupção. Com o intuito de reconhecer e estimular boas práticas, o Instituto Sou da Paz promove desde 2003 o Prêmio Polícia Cidadã. A diversidade e a qualidade das ações premiadas nos dão uma ideia clara do que uma boa polícia é capaz de fazer, combinando prevenção e repressão ao crime, criatividade, respeito aos direitos e promoção da cidadania. Os altos índices de violência urbana, o medo e a sensação de insegurança nos fazem querer uma polícia capaz de combater duramente o crime. Mas a racionalidade sugere que deveríamos aspirar a uma polícia cuja tarefa primordial fosse prevenir o crime e promover a segurança. Se um dia o Brasil vai conseguir deixar de ser uma país vitimizado pela violência, certamente fará isso tendo uma boa polícia: qualificada, bem paga, comprometida com o respeito aos direitos humanos e que tem seus direitos respeitados.
09/12/2010 10:56 AM
Mateus Prado A análise dos dados de abstenções - falta do candidato inscrito - nos vestibulares e no Enem, mostra claramente que onde é facilitado o acesso o número de faltosos aumenta. Os vestibulares gratuitos apresentam altíssima taxas de abstenção. O Enem é uma das provas que apresenta grandes taxas de abstenção. Sempre, desde a sua criação, esteve em torno de 30% dos inscritos. Se compararmos com a Fuvest, o maior vestibular do país, em alguns anos a taxa é seis vezes maior. É fácil entender os motivos. Parte das inscrições é feita pelas escolas de Ensino Médio. Elas listam os alunos interessados e encaminham a inscrição. Quem quer se inscrever por conta própria entra na internet e faz tudo o que é preciso. Quem não deseja pagar pela prova declara que não possui recursos para tal e a inscrição é efetivada. Outra coisa, específica do Enem, é que a maioria de seus inscritos não está em idade escolar. A grande explosão do número de inscritos no Enem aconteceu no segundo ano do Prouni, e não quando o exame começou a selecionar para as Universidades Federais. Em 2006, por causa do Prounu, o Enem passou de 1,5 milhões de inscritos para 3 milhões. Hoje, tem em torno de 4 milhões de inscrições. Mesmo que a grande imprensa só tenha aumentado a cobertura do ENEM depois que ele começou a selecionar para nossas Federais, a maioria de seus participantes estão de olho em uma vaga no Prouni- o Prouni distribui mais vagas que o SISU. Este público, em boa parte mais velho, não vive o dia a dia das escolas e dos cursinhos pré-vestibulares. É natural que ele se desinteresse, em maior proporcionalidade, pelo exame, mesmo depois de inscrito. A situação que está colocada é a seguinte: O que diminui a abstenção, e consequentemente economiza dinheiro público, é retroceder e deixar de democratizar o acesso aos vestibulares e ao Enem. Vejamos o caso da UFRJ. A Universidade, que ainda faz vestibular para parte de suas vagas, tem a inscrição totalmente gratuita. Neste ano, no primeiro dia de prova, a abstenção da UFRJ foi de mais de 36%. No segundo dia de prova, que acontece só uma semana depois, dando muito tempo para os candidatos pensarem sobre o seu desempenho, mesmo sem saber concretamente como foram seus concorrentes, os faltantes aumentam para mais de 43%. Mais de 10% de quem fez a primeira prova desistiu da segunda. Em vestibulares como Unicamp, Unesp e Fuvest, as taxas de abstenção são bem maiores entre os candidatos que recebem isenção da taxa de inscrição. Talvez isto ajude a explicar o motivo pelo qual, este ano, a Fuvest tenha aumentado sua abstenção, apesar de ter menos candidatos e menor relação candidato/vaga que nos anos anteriores. A USP encontrou dificuldades para distribuir suas isenções para alunos de escolas públicas, ampliou os prazos para sua distribuição e apelou para a imprensa, na última hora, para ter mais candidatos com isenção. Melhor seria que a USP tivesse um programa que atuasse em todo os anos do Ensino Médio. Do jeito que faz, boa parte dos candidatos faz a inscrição à isenção por apelo emocional. O caso é que as abstenções causam prejuízos milionários aos cofres públicos, mas acabar com estes prejuízos passa por uma solução perversa, que é dificultar as formas de inscrição. Olhemos para o Enem. Mais de 1,3 milhões de faltosos. Um candidato ao Enem custa quase R$ 40,00. Sem estas faltas, a prova custaria ao menos 50 milhões a menos. Algumas ações poderiam ser tomadas para diminuir as faltas, como, por exemplo, o candidato ter que confirmar o interesse pelo exame algumas semanas antes da prova. Não me atrevo a fazer a proposta de que candidato confirme interesse pela prova por que, do jeito que o ENEM tem mostrado a capacidade de criar problemas, é melhor não mexer com isto. A tentativa de economizar poderia sair muito mais caro. Se olharmos de outro ponto de vista a democratização do acesso à prova, podemos ver os benefícios que isto traz. No Enem, mais de 70% dos candidatos fez a prova. Na UFRJ, totalmente gratuita, quase 60% dos candidatos foram nos dois dias de prova. Com certeza, se começarmos a cobrar de todos os candidatos, perderemos muito mais, excluindo os de menor renda, do que ganharemos. Melhorando a forma de se inscrever para o Enem Aproveito o tema para discutir as mudanças que o Enem fez, nos últimos anos, em seu sistema de inscrição. Antes o candidato ia em uma agência do Correio e entregava sua ficha de inscrição. Agora ela é feita exclusivamente na Internet. A inscrição pela Internet, ao mesmo tempo, facilitou e dificultou as inscrições. Para quem tem acesso à Internet e consegue navegar na rede com desenvoltura, o acesso ficou mais fácil. Na verdade, até ajuda aqueles que nem sabem direito se vão fazer a prova. Para alguns, por mais contraditório que seja, a Internet dificultou a inscrição. Há muito tenho defendido que o simples acesso à Internet não deixa a pessoa fora da condição de Analfabeto Digital. São vários os casos de pessoas que foram se inscrever para o Enem e não encontraram, no sistema, o lugar onde eles deveriam declarar que não tinham condições de pagar a taxa. Estes candidatos, ou deixaram de se inscrever para a prova, ou gastaram um dinheiro que fez falta no orçamento familiar. Outra coisa é que estamos longe de o acesso à Internet ser universal. No Brasil, temos cerca de 20 milhões de pontos fixos de Internet. Apesar de ser uma das maiores redes do mundo, ainda não chega a todos os 190 milhões de habitantes do país. Seria melhor, e mais democrático, que pudéssemos associar as duas formas de inscrição: pela Internet e pelos Correios. Quem quiser, faz sua inscrição pela Internet. Aos demais, é só entregar sua ficha de inscrição em uma das agências do Correio. São muitas e bem distribuídas as agências, o que não obriga os mais pobres a correr para um lugar com acesso à Internet e fica muito mais fácil de alguém colocar um X no lugar onde diz que o candidato não poderá pagar pelo exame.
04/12/2010 08:07 PM
Sequência de episódios deixou claro que a negligência contribuiu de maneira determinante para os atuais níveis de violência Os ataques violentos no Rio são justificados como um revide das organizações criminosas à transferência de presos para presídios federais e à política de ocupação de favelas por UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Mas ainda que a explicação seja plausível para a ultima semana não é de hoje que o Rio é vitima da violência resultante de uma combinação complexa entre a ação dos traficantes, as milícias, uma parte corrupta da polícia e anos de inoperância das políticas de segurança pública. As imagens são fortes: ônibus e carros queimados em diferentes pontos da cidade, marcas de tiro em profusão em bases policiais, tanques nas ruas, além de fotos que mostram o poder de fogo por parte dos criminosos. As comunidades estão assustadas e o ?clima de guerra? é evocado com frequência para descrever a situação. Diante de um cenário que conjuga confronto e rendição, conquista e medo, dois aspectos chamam a atenção. Em primeiro lugar, o fato de que tudo isso acontece em um momento em que o Rio tem, efetivamente, uma política de segurança pública. Uma política propositiva e capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade entre ONGs, acadêmicos e gestores qualificados. E, o mais importante, que se anunciava como uma política que entende segurança pública como tema não apenas para a polícia, mas também para um conjunto de outras políticas sociais. Seu princípio, cuja a ilustração são as UPPs, seria a recuperação de territórios e o reestabelecimento da vida comunitária. Empreender a transformação da favela em bairro implica, entre outras coisas, uma vida livre da opressão imposta pelo tráfico de drogas e pelas milícias. Exatamente por isso é fundamental lembrar que o policiamento previsto para as UPPs enfatizava o modelo comunitário. Não se trata de ignorar a necessidade do confronto e da ação contundente da polícia no enfrentamento dos criminosos. Mas é preciso manter no horizonte que, passado esse momento crítico, a política de segurança terá de voltar a ser mais do que a estratégia do confronto. Nesse sentido, para legitimar a política de segurança em curso e fazer dela um marco positivo na história do Rio de Janeiro, é preciso conduzir o momento atual nos limites da lei ? não dar espaço para revanches, excessos e abusos de poder e violência por parte do Estado é tão importante quando enfrentar o crime. Por outro lado, o que a sequência de episódios deixou claro é que a negligência contribuiu de maneira determinante para os atuais níveis de violência. Nesse sentido, esse é o momento de também discutir o tema das milícias e como o governo pretende enfrentá-las. Os depoimentos de apoio da população às operações dos territórios agora ocupados pela polícia evidenciam a opressão vivida no cotidiano das áreas dominadas. Não é de hoje que as milícias vêm ampliando seu poder de controle e vitimização da vida comunitária. Se o plano é reestabelecer a liberdade nesses locais, elas não podem ser ignoradas.
30/11/2010 09:35 AM
O que disseram no Twitter os candidatos de uma das provas mais difíceis dos últimos anos Durante todo o dia, a Fuvest esteve entre os assuntos mais clicados pelos usuários do Twitter. Veja o que disseram, para esta coluna do IG Educação, alguns dos alunos que passaram por uma das provas mais difíceis que a Fuvest aplicou nos últimos anos.
@rebecachuffi Pedante e cansativo. Eu esperava mais da Fuvest
@nessadrumond Nossa, todos os vestibulares do mundo podiam ser iguais ao da FUVEST de hoje!
@ra_ph Descobri fazendo a Fuvest que o Enem é mais desorganizado do que já falam
@faasartori terrível... capricharam na dificuldade dessa vez...
@thepoker_queen Eu diria que eu esperava algo diferente. :) Biologia e Física estavam tranquilas de mais...o corte provavelmente vai subir
@ByaSoares a #Fuvest não estava tão dificil pra quem leu as leituras #Obrigatórias
@AndreLuizSuzano Sinceramente eu não sei avaliar a prova e nem o meu desempenho, não caiu nada do que vi no cursinho. #Fuvest
@fe_ml foi tensa, prova de muito conhecimento, pouco cansativa.
@caalberts Nunca chutei tanto na minha vida! HAHAHA
@claudiaevalente Geografia foi complexo. Exigiu, como sempre, muita atualidade
@frannreis @ENEMmateusprado prova dificil !
28/11/2010 11:30 PM
Primeira fase teve questões de conteúdo médio e difícil e menos interpretação A primeira fase da Fuvest sempre foi marcada por reunir, na mesma prova, concepções bem diferentes. Algumas áreas apresentavam questões mais interpretativas e outras alternavam conteúdos de dificuldade média e alta - matemática é o último caso. Como sempre, a prova apresenta questões que são praticamente impossíveis de serem resolvidas por alunos de escolas públicas.
Na última reforma do seu vestibular, a Fuvest já vinha dando sinais do que poderia acontecer com sua prova. A segunda fase, que antes permitia que o candidato faltasse em até metade dos dias, simplesmente passou a obrigar o aluno a não zerar em nenhuma das matérias.
Isso pode parecer normal para o leitor, mas não é. Quem conhece a prova de matemática da segunda fase da Fuvest sabe bem que várias pessoas vão até o local do vestibular para não resolver nada. E não são só os cursos com matemática avançada em seus currículos que cobram a disciplina na segunda fase. A prova de matemática significa, para a maioria dos candidatos oriundos de escolas públicas, simplesmente a sua eliminação em um curso que cobre essa matéria na segunda etapa.
Mesmo com estes sinais, é difícil acreditar no que foi a prova de hoje. Chegou ao ponto de trazer uma questão com aqueles antigos testes de ?complete a frase?. E por aí foi.
Física, química e matemática continuaram difíceis, um pouco mais que nos vestibulares anteriores. Havia questões em matemática que nem contextualizavam a pergunta e apenas apresentavam a equação para o examinado resolver.
Geografia e português, que antes eram provas com muita interpretação, mudaram radicalmente. Em geografia não bastou analisar gráficos e demais informações, era preciso ter conteúdo acumulado. Em português, a Fuvest até pediu para que o aluno indicasse frases que tivessem o "pretérito perfeito do indicativo", "sinestesia" e "aliteração". Há muito tempo a Fuvest não propunha questões assim.
Literatura, em geral, era cobrada na segunda fase. Neste ano o candidato precisava conhecer bem pelo menos quatro dos livros indicados para leitura. Outros foram citados, mas somente para contextualizar perguntas, sem que houvesse necessidade de conhecimento das obras.
História não deixou muito espaço para análise, foi quase tudo conteúdo. Biologia manteve o modelo de anos anteriores, cobrando conteúdo, mas só o que está no programa do ensino médio. Já inglês merece destaque, porque propôs análise de textos com as respostas em português, como sempre foi e como deve ser.
O novo e polêmico reitor da USP insiste em dizer que a universidade precisa continuar a fazer um vestibular próprio. Rejeita a unificação da seleção das públicas paulistas e, ainda mais, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para ele, com o vestibular, a USP consegue definir e localizar claramente o perfil de aluno que deseja e garante que ele tenha vaga na instituição.
Pois então, senhor reitor, por esta prova dá para ter uma idéia do aluno que o senhor quer. Só resolvem bem esta prova alunos oriundos das escolas particulares tradicionais e alunos das poucas escolas públicas que fazem vestibulinho para selecionar alunos. Claro que, sempre passando pela anomalia que são os cursinhos pré-vestibulares em nosso sistema de ensino.
Quem teve de frequentar uma escola pública, mesmo que tenha se dedicado aos estudos e tenha conseguido alguma das poucas vagas em cursinhos gratuitos oferecidos pelas universidades públicas, com certeza ainda terá poucas chances de entrar na USP. Alguns, até agora, podem recorrer aos cursos menos concorridos, em que com menos de 40% de acertos nesta prova conseguem ir para a segunda fase. Mas até esses têm vida curta, pois a universidade já anunciou que a prioridade em sua reforma curricular é eliminar os cursos de menor concorrência.
Para o aluno paulista que fez o possível e o impossível para tentar a tão sonhada vaga em uma universidade pública, os últimos dias foram de muita tensão. E ela não termina hoje. Começou o mês com a bagunça que foi o Enem. Em seguida, fez a boa e racional prova da Unesp. Uma semana depois, fez a Unicamp, que cobrou conteúdos médios em suas questões alternativas e revolucionou, positivamente, com sua proposta de produção de textos. Terminou a maratona da primeira fase hoje, em um domingo de muito sol e calor, com uma prova conteudista e dedicada a duas dezenas de colégios particulares tradicionais e aos sistemas de ensino que impedem que o ensino médio tenha projetos pedagógicos. Pela frente, este aluno ainda tem a espera pelos resultados e as provas de segunda fase.
Cabem as perguntas: merece o estudante paulista sofrer quatro semanas seguidas e mais segundas fases para entrar na universidade? Não teria passado da hora de as estaduais paulistas unificarem seus vestibulares?
28/11/2010 11:27 PM
Questões optativas foram conteudistas, mas redação radicalizou ao pedir para candidato escrever sobre situações reais A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) reformou seu vestibular: questões da primeira fase passaram de dissertativas para optativas e propostas de redação foram apresentadas de forma inovadora. De cara, a mudança das questões pode até ser uma coisa boa, mas o resultado foi conservador. A prova antiga da Unicamp tinha uma proposta interessante, com todas as questões em torno de um assunto central. Por exemplo, em um vestibular que tratou sobre saúde pública, biologia cobrava as principais doenças, história, as reformas sanitárias no Brasil, matemática, o cálculo da velocidade do mosquito da dengue etc. As questões eram conteudistas mas, no mar de falta de bom senso dos vestibulares no País, ao menos a prova tinha a proposta de fazer o candidato pensar sobre algum tema importante da sociedade brasileira. Assim, as questões em forma de teste ampliaram o conteúdo programático cobrado e beneficiaram o aluno que se dedicou aos estudos, mas a Unicamp não apresentou um vestibular avançado. Pelo contrário, as questões foram conteudistas, em todas as áreas. É muito difícil compreender por que boa parte dos vestibulares ainda não entendeu que quem decora conteúdos e fórmulas não será, necessariamente, o melhor aluno, o melhor pensador e o melhor profissional. Redação é inovadora
A ampliação do número de questões, com a passagem da prova da primeira fase de dissertativa para objetiva, dificultou a criação de uma prova com um tema central, mas ajudou o estudante que se preparou durante todo o ensino médio. Com mais questões, é mais difícil cair justamente aquele assunto que o aluno deixou de se aprofundar. Quem estudou certamente encontrou nos cadernos de questões alguns dos assuntos aos quais se dedicou.
Um dos destaques da prova com testes da Unicamp foi a falsa contextualização. Sabe quando você encontra uma questão no vestibular que finge cobrar um conteúdo simples, daqueles necessários para resolver um problema do cotidiano, tentando justificar o monte de coisas desnecessárias que aprendemos no ensino médio, mas este problema nunca vai acontecer ma vida real? Pois é, estas questões estavam lá. Um exemplo é o do cálculo da altura de um cone de areia, depois que ela escorre de um molde cilíndrico.
E como todo vestibular ou prova de avaliação dificilmente foge da tentação de fazer defesa do programa partidário do governo de plantão, estava lá uma questão que ensina que a classe média, a que tem trabalho formal, gasta 36% do seu salário em impostos.
Na redação, a Unicamp radicalizou. Propôs três situações reais para o aluno escolher uma. Na primeira, o aluno deveria comentar um trabalho de pesquisa em um site, no segundo fazer um convite, contextualizando a atividade, para uma profissional ministrar uma palestra e no último articular idéias de um texto literário com acontecimentos públicos, criando um texto que expusesse opiniões e tentasse influenciar o leitor.
Se a parte objetiva da prova foi conservadora, reafirmou o ensino médio da educação bancária e beneficiou a ditadura dos livros didáticos e dos sistemas de ensino, a redação foi muito mais parecida com propostas de educação do século 21, sobretudo de uma educação centrada nos pilares "Aprender a Conhecer, a Resolver, a Ser e a Conviver". São duas concepções diferentes de educação, contrárias entre si, no mesmo vestibular.
Em uma análise mais ampla, o vestibular da Unicamp não ficou igual a nenhum dos das outras grandes universidades do Estado de São Paulo. Isso é muito ruim, porque quem quer concorrer ao vestibular da três precisa se preparar para provas muito diferentes.
A USP tem uma primeira fase com provas muito distintas. Português e geografia, por exemplo, têm questões contextualizadas, que valorizam a interpretação. Matemática exagera no conteúdo e propõe questões quase impossíveis de serem resolvidas pela maioria dos alunos de ensino médio. Biologia fica no meio do caminho. Um pouco de conteúdo e muita interpretação.
A Unesp tem uma prova que tem como proposta avaliar as três áreas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, e não matérias. É um avanço inclusive em relação ao Enem, que dividiu um parâmetros e propôs quatro provas objetivas no exame.
Passou da hora das estaduais de São Paulo unificarem a prova. Tudo seria melhor. O aluno se prepararia para uma única prova, concorreria à vagas nas três universidades, o momento da prova pautaria a discussão do tímido aumento de vagas nas estaduais paulistas e ninguém seria obrigado a se submeter, se quisesse concorrer à vagas em todas elas, a ficar três finais de semana seguidos fazendo provas.
Até entendo as questões políticas que impedem essas universidades de usarem o Enem para selecionar alunos, mas concordar com três vestibulares diferentes é legitimar que cada universidade mantenha uma estrutura de poder, a do vestibular, totalmente ilógica, desnecessária e perversa para os estudantes.
22/11/2010 10:18 AM
Decisões judiciais pela realização de nova prova optativa são relevantes na vida de milhares de estudantes Quase duas semanas depois das provas do Enem já assistimos a muitos colunistas falando e comentado a prova e seus problemas. Entre tantas e tantas opiniões, dois pólos me chamaram, especialmente, a atenção: o do ?ataque raivoso? e a da ?defesa cega?.
O primeiro grupo procurou todos os argumentos para desqualificar a iniciativa de fazer um exame unificado para selecionar para vagas em Federais. Diz que o Ministério da Educação (MEC) criou um monstrengo, que o melhor é preservar o velho vestibular, que avaliar competências e habilidades é uma perigosa mistura entre ideologia e pedagogia, que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é incapaz de aplicar o exame, entre outras coisas.
O grupo da ?defesa cega? considerou os erros irrelevantes. Assumiram o discurso oficial e disseram que os prejudicados, considerando o universo dos candidatos, são um número muito pequeno. Propagaram que criticas ao Enem deste ano tem como origem o ódio das elites em pobres poderem chegar a uma universidade.
Erraram os dois grupos. Aos primeiros vale lembrar que o Enem sempre teve problemas, mas que eles só ganharam as primeiras paginas da imprensa nacional quando o exame começou a selecionar para vagas em universidades federais. Mesmo quando começou a selecionar para o Programa Universidade para Todos (Prouni), que distribui muito mais vagas do que o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), também bancadas com dinheiro público, não tinha tamanha exposição.
Ao outro grupo digo que o erro mais impactante não foram as poucas provas nas quais faltavam questões. A inversão de gabarito atingiu todos os candidatos e confundiu milhares e milhares de pessoas que foram obrigadas a preencher seus itens em alternativas com numerações que não apresentavam paralelo lógico com o caderno de questões.
Muitos poderiam ter assumido, seriamente, a defesa da causa dos alunos que se sentiram prejudicados e que o MEC insiste em não permitir nova prova. Os deputados e senadores tiveram essa possibilidade quando o ministro Haddad prestou esclarecimento nessas casas. Não vi nada efetivo. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) poderia ter feito uma força-tarefa para garantir que candidatos sem condições econômicas pudessem ter acesso à Justiça para garantir o direito à isonomia. Não foi feito. Os Ministérios Públicos estaduais e as varias defensorias poderiam representar a sociedade e garantir a preservação dos direitos individuais. Não vejo esta movimentação.
Exceção tem que ser feita ao Ministério Público do Ceará e a Defensoria Pública do Distrito Federal. Essas instituições entenderam o drama dos alunos que passaram 10 horas fazendo o exame. Diferente dos colunistas, que em sua maioria não possuem a menor idéia do que é o Enem, deixaram de lado a politização dos erros e fazem todos os esforços necessários para garantir reparo aos danos causados aos alunos.
Os esforços dessas instituições para garantir isonomia para todos os candidatos e a rápida ? e justa ? resposta que vem sendo dada pela Justiça do Ceará anda na contra-mão das posições do governo. O MEC ainda não conseguiu enxergar ? ou não quer enxergar ? que quem foi obrigado a preencher o gabarito de forma invertida, calculo que entre 3 e 5% dos candidatos, sofreu um dano que só será reparado fazendo nova prova.
A teimosia do MEC tem explicação. Muitas universidades vão usar a nota do Enem de forma parcial ou somente para selecionar candidatos na primeira fase de seus vestibulares. Um exemplo claro é a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que começa as provas de segunda fase dia 23 de janeiro. Para convocar os alunos para essa etapa, a federal mineira precisa saber as notas de seus candidatos no Enem, já que o exame substituiu a primeira fase daquele vestibular.
Assim como para a UFMG, o MEC prometeu para várias instituições ter as notas disponibilizadas no começo de janeiro. Como só consegue corrigir cerca de 100 mil provas por dia, uma nova prova do Enem, mesmo que opcional, faria com que o calendário de seleção de varias universidades fosse alterado. Só entre as federais, cerca de 30 teriam que mudar as datas programadas.
Acho razoável que o MEC se esforce para manter a palavra dada as universidades, sobretudo depois dos contratempos do ano passado. O que não pode acontecer é, em nome da manutenção dos calendários de vestibulares país afora, tratar como supérfluo a manutenção da isonomia de todos os candidatos.
Seria um grande prejuízo e uma grande confusão mexer na data dos vários vestibulares, mas isso é melhor do que rasgar a Constituição e negar direitos básicos aos cidadãos. O erro da inversão de gabaritos foi do MEC e deve ser assumido por ele, com todo o seu ônus. Os candidatos não podem arcar com os erros do MEC.
Neste contexto, a Justiça do Ceará entendeu bem que é melhor que todo o cronograma seja atrasado para que ninguém seja prejudicado. Já o MEC, de forma dissimulada, vem, sistematicamente, tentando desmoralizar as decisões da Justiça daquele Estado. Se garantiu com o próprio ministro fazendo lobby com a OAB, para que a instituição ficasse longe do caso e com a quinta turma do TRF, para que ela casasse as liminares que viessem do Ceará.
A lógica do MEC é transformar a Justiça do Ceará em um verdadeiro Dom Quixote, um herói que luta por causas desnecessárias, que combate moinhos de vento pensando serem dragões.
A imagem que o MEC tenta passar da Justiça do Ceará não corresponde à verdade. A tese aceita por ela é verdadeira, relevante e influencia na vida de milhares de pessoas. A razoabilidade de suas decisões é incrível. No meio de tanta insensibilidade, tentou garantir que uma nova prova fosse feita e que ela fosse optativa, e não obrigatória.
Enquanto o Ceará desafia dragões de verdade, a OAB não deu as caras, os demais Ministérios Públicos se omitiram e as defensorias públicas fingem não ver o que está acontecendo.
Pensando bem, quando o MEC faz papel de Sancho Pança (o covarde, não o fiel), nem é tão ruim ser Dom Quixote.
19/11/2010 11:44 AM


