NOVA YORK – A escritora de vanguarda brasileira Clarice Lispector (1920-77) é pouco conhecida nos Estados Unidos, onde apenas um punhado de seus muitos livros foi traduzido, mas em casa ela é realeza literária, queimando na memória coletiva como uma chama eterna levemente sinistra.
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Clarice Lispector na juventude: “Sou tão misteriosa que nem eu me entendo”
O rosto de Lispector está em selos e o seu nome adorna condomínios de luxo. Incontáveis livros foram escritos sobre ela, e dezenas de apresentações teatrais foram baseadas em sua obra. Podem-se comprar os livros em máquinas no metrô.
“O primeiro nome é suficiente para identificá-la a brasileiros estudados”, escreve Benjamin Moser em "Why This World: A Biography of Clarice Lispector” (em português, “Clarice,”, editado pela Cosacnaify).
O mito de Clarice se agiganta tanto quanto o que ela escreveu. Seu nome incomum fez com que soasse como uma espiã. Os olhos e ossos do rosto elevados levaram as pessoas a compará-la a uma loba ou uma pantera. Para o tradutor Gregory Rabassa, Lispector “parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf”.
Porque Lispector brilhou nos holofotes, e porque se casou com um diplomata aos 22 anos e passou quase duas décadas fora do Brasil, rumores sobre ela brotam para encher o vácuo.
Alguns pensavam que era um homem escrevendo sob um pseudônimo. O interesse pelo oculto (ela teve um hábito duradouro de consultar astrólogos e cartomantes) levaram as pessoas a se referir a ela como “a grande bruxa da literatura brasileira”. Também era chamada de monstro sagrado. Mais tarde queimou a mão direita em um incêndio no seu apartamento, e o membro ficou parecido com uma garra negra.
A escrita de Lispector era fora do comum como ela. Seus romances e contos carecem de tramas identificáveis, e são relatados em linguagem impressionista. Têm uma qualidade assombrada e interior que vai na contramão da literatura brasileira contemporânea. A poeta Elizabeth Bishop, que traduziu alguns contos de Clarice, escreveu para amigos: “Acho que ela é melhor que J.L. Borges – que é bom, mas não tão bom assim!”
Esse é um material biográfico rico que fica mais rico enquanto Moser, tradutor e crítico da Harper’s Magazine, começa a descascar as camadas de sua vida complicada. “Clarice,” nos suga – por longos períodos, pelo menos – até o turbilhão estranho do sujeito.
Clarice Lispector na verdade nasceu na Ucrânia e tinha pais judeus. O nome de batismo era Chaya Pinkhasovna Lispector. A família fugiu dos atos de violência em massa russos depois da Primeira Guerra Mundial, quando Clarice era um bebê. Tiveram sorte de escapar, mas não saíram ilesos. A mãe de Clarice foi estuprada por soldados russos e contraiu sífilis.
A família imigrou para o Recife, cidade do nordeste brasileiro. Quando Clarice tinha 9 anos, a mãe morreu de sífilis. Lispector e as duas irmãs foram criadas pelo pai, que um dia se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Ele era um homem gentil e inteligente com nenhum talento para ganhar a vida. Ganhava dinheiro vendendo produtos baratos na rua, e fazendo e vendendo sabão.
Aos 13 anos, depois de ler o romance “O lobo da estepe” de Hermann Hesse, Lispector decidiu que queria ser escritora. Depois de se formar em uma faculdade de direito de prestígio no Brasil, trabalhou como jornalista e começou a publicar contos em revistas pequenas.
O primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, foi lançado em 1943 e se tornou uma sensação da crítica. Um crítico o chamou de “maior romance que uma mulher escreveu na língua portuguesa”. O estilo de fluxo de consciência do romance levou os críticos a cotejar Clarice com Joyce e Woolf, escritores que ela ainda estava por ler.
AE
Clarice Lispector na capital paulista em 1974, três anos antes de sua morte
“Perto do coração selvagem” era, em parte, uma reclamação fraturada contra o casamento. Depois de se casar, uma das personagens femininas diz, “tudo o que você pode fazer é esperar pela morte”. Mas quando o romance saiu, a própria Lispector havia se casado com Maury Gurgel Valente, jovem diplomata brasileiro. Seus despachos nas duas décadas seguintes os levariam, e mais tarde aos dois filhos, pelo mundo, a Nápoles, Berna e Washington.
Para Lispector, estar longe do Brasil era um tipo de morte. O papel de esposa de diplomata nunca foi fácil para ela; considerava isso um tipo de domesticação forçada. Suas cartas são cheias de queixas ácidas. “Essa Suíça é um cemitério de sensações”, escreveu. “As pessoas também são silenciosas e riem pouco. Sou a única que ri”. Em Washington se rebelou ao decorar a árvore de natal com ornamentos estranhos em preto, marrom e cinza.
Em 1959 se separou do marido e mudou com os dois filhos de volta para o Rio, onde viveria para o resto da vida. Ela continuou a escrever ficção – na época da morte tinha escrito cerca de 20 livros, incluindo romances, volumes de contos e alguns livros para criança – e começou uma série de colunas populares no Jornal do Brasil, periódico diário importante.
Precisava de dinheiro, e também teve empregos estranhos para sobreviver. Sob um pseudônimo escreveu uma coluna de conselhos que foi subscrita secretamente por uma companhia de cosméticos, e às vezes usava textualmente os materiais de notícias da empresa. Traduziu muitos livros, às vezes relaxadamente.
Com a aparência esvaindo-se, Lispector se tornou cada vez mais reclusa e exigente. Viciada em cigarro e pílulas para dormir, ela exibia comportamento errático e às vezes soberbo. Ligava para amigos no meio da noite e abandonava jantares por razões menores. Tinha uma reputação de ser mentirosa. Sobre ter amizade com ela, disse uma mulher, “Ninguém pode aguentar muito tempo”.
Em entrevistas e em sua escrita, ela ventilava as brasas da própria lenda de modo que fazia com que parecesse ridícula. “Sou de todos vocês”, disse ela. Também: “Não ter nascido um animal é uma de minhas saudades secretas. Talvez seja porque sou uma sagitariana, meio animal”. Sobre uma visita para ver a esfinge egípcia, afirmou ela, “Verei quem devora quem”.
Moser, por vezes, também vai um pouco além. Ele escreve que a obra de Lispector é “talvez a maior autobiografia espiritual do século 20”. Ele aponta que ela teve “uma das carreiras mais extraordinárias da literatura do século 20”. Chama o romance “A paixão segundo G.H.” de “um dos maiores romances do século 20” e, algumas páginas depois, “entre os maiores romances do século”.
Mas um biógrafo precisa de entusiasmo tal qual um motor precisa de óleo. Moser, em grande parte, é um guia de turismo lúcido e muito estudado, e esse livro é uma introdução fascinante e bem-vinda para uma escritora cuja grande obra deve ser mais conhecida nos Estados Unidos.
Se Clarice Lispector, que morreu de câncer de ovário em 1977, permanecer fora de alcance no final de “Clarice,”, não é por culpa do laborioso Moser. Como escreveu um dia Lispector, “Sou tão misteriosa que nem eu me entendo”.
LOS ANGELES – “Bem-vindo a Avatar.” O diretor James Cameron materializou-se, como que por um toque de mágica digital, diante da plateia que aguardava uma prévia da projeção de seu provável próximo estouro de bilheteria. Não estava bem claro, porém, para que o diretor tinha convidado a ver naquele dia no início de dezembro. Seria a pequena produção de US$ 230 milhões que ele acabava de finalizar? Ou seria o “mundo” criado pelas avançadas técnicas digitais produzidas por ele? Ou seria ainda o “desavergonhado motor da comercialidade” que ele alegou, sem tom de brincadeira, ter construído? Independentemente de qual nuance de “Avatar” o diretor tinha em mente, a alegria – e o lucro – das férias de muita gente depende dele. Sua estreia, porém, teve alguns contratempos.
Influência de "Avatar" vai depender da bilheteria e
de como a estética será recebida
As luzes da sala diminuíram. Apareceu o logo da 20th Century Fox. Trombetas
ecoaram. Mas, antes que a primeira cena da fábula espacial eco-pacifista de
ficção futurística pudesse causar qualquer impressão, as luzes aumentaram.
“Foi um pouco mais curto do que vocês estavam esperando”, desafiou Cameron,
esboçando um riso educado. “Tem um problema na sala de projeção”, ele completou.
Temendo pela vida do projecionista, a plateia observou Cameron –de pele clara e
atualmente um pouco barrigudo, em sua habitual camisa azul de botões –
desaparecer. Caiu a escuridão e “Avatar” ressurgiu. Desta vez, a plateia
conseguiu ver o resultado de quatro anos de trabalho e o mais alto nível de
efeitos visuais.
No dia seguinte, Cameron mantinha um irônico ar de mistério durante
entrevista no hotel Four Seasons de Beverly Hills. “Ninguém sabe”, disse ele
quando indagado sobre o que houve de errado com a projeção. “O filme desligou o
computador e o ligou novamente. Ele se autoconserta, não sabemos por que. Eu
sempre detestei essa resposta, sempre quis saber o porquê das coisas.”
Soando como o garotinho que despedaçou o relógio do papai para ver porque ele
fazia tic tac, há muito tempo Cameron é um diretor associado tanto à tecnologia
quanto à dramaturgia. Suas criações são inesquecíveis: o vilão rápido e
imprevisível de “O Exterminador do Futuro 2”; a fantasmagoria no fundo do mar de
“O Segredo do Abismo”; a louca e encharcada viagem de Titanic – filmes que por
vezes pareceram girar em torno das habilidades e das funções do diretor.
“Avatar” também é assim. Muita gente da indústria cinematográfica – incluindo
o próprio Cameron – presumem que os processos que ele usa neste filme,
especialmente a técnica conhecida como “performance capture” (tradução livre:
captura de movimentos), irá revolucionar o cinema, e que o Fusion Camera System
inventado por Cameron (uma única câmera que filma ações ao vivo em 3D
estereoscópico), irá redefinir o cinema tridimensional. O tamanho do rastro
deixado por “Avatar” basicamente irá depender, de modo geral, do resultado
obtido pelo filme – tanto no campo estético quanto financeiro.
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Cameron pacifista: "Uma parte de mim
quer colocar uma margarida no barril de
pólvora"
Cameron realmente ama seus
brinquedos. No último mês de abril, o maquinário físico de “Avatar” permanecia
inativo nas instalações do Lightstorm Entertainment em Playa del Rey (local da
antiga empresa de aviação Hughes Aircraft). O veículo AMP (“armored mobility
plataform”), que o ator Stephen Lang dirige na cena de batalha climática do
filme, parecia um vulto cinzento e sombrio do brinquedo Rock 'Em Sock 'Em Robot,
com articulações do tamanho de carburadores. Carcaças de helicópteros, armas de
2,5 metros de altura e o galpão de 200 metrosonde Howard Hughes construiu seu
desafortunado Spruce Goose, tudo era de um silêncio nefasto.
Do outro lado do estacionamento, porém, em um espaço menos interessante
batizado por Cameron como “performance capture volume” (ou como disse Land,
“Nerd Central”), a equipe de técnicos em animação do estúdio Lightstorm digitava
em seus laptops – dando vida virtual ao mundo de “Avatar”. Parte deste mundo
ainda lembrava um vídeo game dos anos 1990, mas o imaginário ainda seria
aprimorado à medida que o mesmo viajasse através de um universo de muitos
criadores: o estúdio Digital Domain, co-fundado por Cameron; o Legacy FX; o
Industrial Light & Magic, de George Lucas; e o WETA, do diretor neozelandês
Peter Jackson – que o Sr. Cameron diz deter os direitos autorais de algumas das
ferramentas desenvolvidas em “Avatar”. A divindade reinante, porém, é o próprio
Cameron. Ele espera que, diferentemente dos notórios veículos pilotados por
Hughes, sua galinha bote ovos de ouro.
Entretanto, ao mesmo tempo ele espera que “a história da tecnologia tenha um
certo declínio” uma vez que “Avatar” seja lançado na sexta-feira. “Foi divertido
observar as pessoas comentando sobre esse filme por cinco meses, pois percebo
que eles só estão mordiscando as bordas do biscoito. Elas ainda não chegaram ao
que interessa. No momento que verem o filme, elas vão dizer: ‘Nossa, tem mais
uma infinidade de coisas sobre as quais precisamos conversar”.
Barreira entre animação e emoção
Coisas como o imperialismo, como a divindade feminina, como a violação da
natureza. O ano é 2154 e Jake Sully (Sam Worthington) – soldado que ficou
paraplégico em combate numa guerra que não compreendeu – é requisitado para
substituir seu finado irmão gêmeo em um programa em operação a muitos anos luz
dali, em uma lua chamada Pandora.
Numa atmosfera tóxica aos humanos, Pandora é habitada por uma tribo conhecida
como os Na’vi: ágeis aborígenes azuis de 3 metros de altura para os quais
Pandora é um lugar sagrado. O que os terráqueos querem é o mineral unobtainium
de Pandora, que foi provado ser a solução para os problemas energéticos que
assolam a Terra. O que os Na’vi querem é os terráqueos mortos. Em um esforço
para ganhar aceitação – e talvez para evitar que coronel Miles Quaritch (Lang) e
seus camaradas mercenários dizimem os Na’vis enquanto se apropriam de seu
território –, cientistas ligados à campanha de mineração criaram os avatares
Na’vi, que são geneticamente semelhantes aos seus “operadores”. Como o DNA de
Jake é semelhante ao de seu irmão, ele é o substituto perfeito. E já que
incorporar um avatar significa que ele irá andar novamente, Jake concorda em
fazê-lo.
“Jake é um cara de honra. Eles dizem a ele que o dinheiro é bom, mas ele não
o faz por dinheiro. Ele vai porque está em busca de algo”, diz Cameron. O
diretor conta que ao escrever o roteiro, que apesar de bastante atual foi
iniciado antes das filmagens de “Titanic”, ficou obcecado pelo modelo
errado.
“Fiquei preso naquele modelo do veterano pós-Vietnã, raivoso e amargo, e isso
simplesmente não estava funcionando”, disse ele. “Não é assim que um soldado
agiria. Meu irmão é um deles, e seus amigos são amigos meus, e eles pensam dessa
forma. A ideia deles é de que quanto mais difíceis as coisas forem ficando, de
melhor forma você é definido. Entendo disso, é por isso que faço filmes assim.
Não carrego nas costas uma mochila de 50 quilos durante dez horas debaixo de um
sol de 40 graus, mas é o mesmo tipo de coisa. Sei que estou fazendo algo que
outras pessoas não conseguem fazer.”
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Diretor e equipe aprimoraram mecanismos de captura
de movimentos do corpo e rosto
O que Cameron e seus muitos colaboradores tentaram fazer foi dissolver a
barreira entre a animação e a emoção humana. “Basicamente, os filmes giram em
torno de um close-up e não de uma tomada aberta”, afirma Jon Landau, um dos
produtores de “Avatar” e amigo de Cameron de longa data. A equipe analisou o que
cineastas tinham feito no passado, incluindo a captura de movimentos – que
envolve artistas usando sensores que traduzem seus movimentos corporais em
personagens digitais (sendo “O Expresso Polar” provavelmente o melhor exemplo
disso). O que ele não faz é capturar expressões faciais, ou sentimentos. Landau
fez um trocadilho com as palavras: “Para nós, sempre faltou um letra essencial
na captura de movimentos: A letra E. E-motion Capture” (captura de emoções). Ao
invés disso, eles buscaram um processo baseado em imagens, apropriando-se de uma
técnica usada no segmento de concertos musicais.
“Se a Madonna pode ficar sacolejando pelo palco com um microfone no rosto e
ainda fazer uma apresentação incrível, pensamos então: ‘Vamos substituir o tal
microfone por uma câmera de vídeo’. A câmera fica com o ator enquanto capturamos
seus movimentos, e apesar de não usarmos a imagem em si, podemos entregá-la para
a empresa de efeitos especiais e eles a reproduzem em um nível frame-by-frame,
quase que poro a poro”, explicou Landau.
Se eles tivessem usado a imagem em si, diz ele, os personagens
correspondentes teriam feições faciais de proporções humanas. Os profissionais
de animação têm mais liberdade, e os Na’vi têm uma aparência mais original
(olhos mais largos, por exemplo), sem perder a expressividade.
Chegar ao ponto em que tudo isso pudesse ser realizado demandou bastante fé
por parte da Fox, que quatro anos e meio atrás foi solicitada a bancar o projeto
de Cameron e Landau enquanto eles testavam a tecnologia e criavam um mundo.
“Quando você está lidando com um cineasta como Jim, conhece suas ambições e como
ele as realiza com consistência, você acaba topando a parada”, disse Jim
Gianopulos, co-chairman da Fox.
Gianopulos disse estar gratificado pelo conteúdo emocional dos personagens
gerados por computador, assim como pela resposta que o estúdio vem recebendo das
mulheres – principalmente em relação ao personagem de Zoë Saldana, Neytiri.
Cameron se mostrou menos entusiasmado em relação a tal reação.
“Pode ser que não tenhamos garotas de 14 anos voltando quatro vezes ao cinema,
mas este é, definitivamente, um filme para mulheres.”
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Sam Worthington e Sigourney Weaver à frente do
elenco "humano" do filme
É também um filme sobre paz, de um cara que reconhece ter impulsos
paramilitares. “Tenho total admiração por homens que têm um senso de dever, que
têm coragem”, garante o diretor. “Mas sou também filho dos anos 1960. Uma parte
de mim quer colocar uma margarida na ponta do barril de pólvora. Acredito na paz
através do poder de fogo superior, mas por outro lado abomino o abuso de poder e
o imperialismo rastejante disfarçado de patriotismo. É impossível levantar
algumas dessas questões sem ser chamado de antipatriota, mas eu acho muito
patriótico questionar um sistema que precisa ser confinado para não se tornar
uma Roma.”
Não que “Avatar” seja uma lição de moral, o filme é barulhento demais para
tal. “Ele adora uma barulheira. Esse é o lado garoto que existe em nós, a parte
divertida da produção cinematográfica”, explica Lang. Ele faz alusão ao final
das filmagens em Playa del Rey. “Não teve um único dia que Jim não chegasse com
um brilho nos olhos. Mas teve um dia em que seus olhos brilhavam mesmo. E a
primeira frase que saiu de sua boca foi: ‘Então, Slang, tudo bem se hoje a gente
te incinerar? ’ ‘Claro’, respondi de forma retórica, ‘como você quiser’. E foi o
que fizemos. Ele deu andamento para tacar fogo em mim.”
O que Cameron quer agora é que o mundo se emocione tanto com as bolas de fogo
quanto com as outras maravilhas visuais que ele preparou, e com a história pela
qual elas estão a serviço. E, depois da projeção do início de dezembro, ele
parece ter deixado para trás suas dúvidas de abril, quando se perguntava “se
iria querer fazer tudo isso de novo”. Parece confiante de que o filme tenha dado
certo – tanto emocionalmente, quanto tecnicamente e artisticamente. “É
interessante, isto é um bom prenúncio para uma sequência”, disse
ele.
E se não houver uma sequência? “Quer dizer que não ganhamos
dinheiro”, sentenciou.
COPENHAGEN — Os negociadores da Conferência de Copenhague têm quase completo um acordo que prevê compensação financeira para países em desenvolvimento que preservem suas florestas.
“É provavelmente a questão mais concreta que sairá de Copenhague —e é algo bem significativo”, afirmou Fred Krupp, chefe do Fundo de Defesa Ambiental.
O esboço final do acordo será entregue nesta quarta-feira aos ministros dos 192 países reunidos na Dinamarca. Negociadores e outros participantes disseram que, apesar de ainda faltarem alguns detalhes sobre o programa, todos os principais pontos de divergência — por exemplo, como respeitar os direitos dos indígenas vivendo em florestas e o que é definido como floresta — já foram solucionados por consenso.
Um acordo final sobre o programa só deve ser anunciado no fim desta semana, quando o presidente americano, Barack Obama, e outros líderes estarão na cúpula.
Grupos ambientalistas há muito tempo defendem um programa de compensação, porque as florestas absorvem de forma eficiente o dióxido de carbono, o principal gás do aquecimento global. Estima-se que o desmatamento das florestas tropicais corresponda a 20% das emissões globais de gases estufa.
Para os países pobres, os pagamentos fornecerão uma fonte de renda muito necessária. Para os países mais ricos, o que atrai no programa não é o dinheiro, mas créditos de carbono que podem ser utilizados para cancelar, em parte, suas emissões industriais sob um mercado de carbono.
O novo plano representa uma importante mudança em relação a programas prévios da ONU, como o Protocolo de Kyoto, de 1997, no qual os países se comprometiam a coibir suas emissões industriais, mas não recebiam crédito pela redução das emissões por meio de mudanças no uso da terra.
WASHINGTON – Enquanto o representante do clima dos EUA muda de negociador, Todd Stern às vezes parece brincar de malvado, e parece se divertir com isso.
Ele chegou a Copenhague na quarta-feira, tomou uma chuveirada rápida, então participou de uma coletiva de imprensa. Em sua fala, ele amaldiçoou os chineses por não fazer nada para reduzir as emissões dos gases das mudanças climáticas, os europeus por exigir demais dos EUA e os países pequenos e pobres que exigem “compensações” dos países ricos pela poluição que causaram no planeta.
“Nós reconhecemos completamente nosso papel histórico quanto aos gases que emitimos na atmosfera”, disse Stern em tom severo. “Mas a sensação de culpa ou culpabilidade ou reparações, eu as rejeito categoricamente”.
Mas também há um bonzinho também. Aqueles que trabalham ou já se sentaram em uma mesa de negociação com ele dizem que ele pode ser brusco, geralmente Stern acomoda discreto e extremamente hábil em lidar com um dos portfólios mais difíceis na diplomacia do governo.
Jairam Ramesh, ministro do Meio Ambiente da Índia e representante na negociação do clima, disse nesta semana que “obviamente que a postura da Índia quanto às mudanças climáticas é bem diferente da posição dos EUA, e há muitas coisas na política dos EUA das quais eu discordo totalmente, mas que não são obstáculos para o desenvolvimento de nosso bom relacionamento pessoal”, ao falar sobre Stern.
Ramesh relembrou de um longo passeio que fez ao lado de Stern ao redor do lago em Copenhague, no último mês, durante um encontro preliminar à grande conferência climática que está ocorrendo neste mês. Os dois homens se engajaram em uma discussão detalhada sobre um assunto técnico, porém importante sobre as negociações do acordo climático: como verificar que os países em desenvolvimento estão cumprindo as promessas de redução de emissões.
Os EUA insistem em um regime razoavelmente intrusivo de monitoração, principalmente para aqueles projetos que receberem financiamento internacional. A Índia e outros países em desenvolvimento rejeitam algumas dessas medidas como uma infração da soberania dos países. Apesar de não chegarem a um acordo durante o passeio, Ramesh disse: “nós discutimos nossas diferenças francamente. Ele me entendeu melhor, eu acho, e com certeza compreendi totalmente seus fundamentos”.
Stern, 58, foi nomeado enviado especial para a mudança climática no fim de janeiro. Ele passou ao posto vindo de uma área mais política do que técnica, apesar de ter se envolvido com mudanças climáticas em 1997, quando ele era membro da equipe de negociação do Protocolo de Kyoto, na administração de Clinton.
Alguns países, principalmente na Europa, gostariam de ver o resultado dessa rodada de negociações como uma extensão ou expansão do acordo de Kyoto – disposições importantes as quais expiram em 2012 -, mas agora com o envolvimento dos EUA. E o malvado sai de cena.
“Com certeza não vamos aderir ao Protocolo de Kyoto, então isso não está em jogo”, disse Stern na coletiva de imprensa nesta quarta-feira. “Se você quer dizer pegar o Protocolo de Kyoto e colocar nele um novo título, também não vamos fazer isso”.
Uma autoridade sênior da administração, que é parte da atual equipe de negociação climática, disse que parte da severidade de Stern vem da experiência de um ano no cargo de porta-voz dos EUA para uma agenda frequentemente impopular.
“Isso é um assunto no qual os EUA tradicionalmente não têm muitos amigos”, disse o oficial, que pediu para não ser identificado para que pudesse falar com mais liberdade. “Eu me lembro de um encontro anterior no qual você não acharia que houve uma eleição aqui. Esses outros representantes estavam acostumados a acabar com os EUA sob a administração Bush que Todd e eu tínhamos de lembrá-los que agora há uma administração diferente e uma abordagem diferente”.
Stern disse que uma das maiores frustrações para ele foi a incapacidade de seus pares para entender sob quais coações políticas ele deve operar.
“Eles olham o que o Congresso já fez e dizem, “vocês não conseguem reduzir mais 10%? A resposta é não, não mesmo”, disse Stern. “Eles já aprendeu mais sobre nosso sistema congressional e coisas como regras de obstrução do que eles provavelmente gostariam de saber”.
CARACAS – Árvores de Boungainvillea fazem sombra sobre os caminhos do Cementerio General del Sur, onde os mausoléus de chefes de Estado e celebridades ficam ao lado de túmulos de aristocratas e centenas de cidadãos comuns. Esculturas de leões se elevam das sepulturas. A elegância, não a anarquia, era o que antes definia esse lugar de descanso. Mas não é mais.
NYT
Túmulo aberto e saqueado no Cementerio del Sur em Caracas, na Venezuela
Agora, os túmulos que antes estavam sob as regras militares foram saqueados. Os caixões, foram arrombados com um pé-de-cabra, estão espalhados sobre as árvores de Samanea. As caixas com grades e cadeados ao redor das covas de algumas famílias, como se os protegessem de uma realidade perturbadora: nem mesmo a cidade dos mortos de Caracas está segura.
Acompanhando o aumento dos assassinatos e sequestros na Venezuela, seus cemitérios são uma onda de um novo tipo de crime. Os assaltantes de tumbas buscam por ossos humanos, respondendo à demanda de alguns praticantes de uma religião cubana chamada Palo, que está crescendo rapidamente e usa os ossos em suas cerimônias.
Os críticos defendem que essa perturbação nos cemitérios reflete um colapso em uma sociedade na qual a impunidade é generalizada. O crime violento e a corrupção policial no país são penetrantes mesmo com o pedido do presidente Hugo Chávez para a criação de um “novo homem” como parte de sua revolução inspirada no socialismo.
“O cemitério se tornou um emblema icônico de nossa tragédia nacional”, disse Fernando Coronil, renomado antropologista venezuelano. “Em nossa luta diária para manter a ordem civil contra as múltiplas transgressões contra a propriedade e a regularidade, agora nem mesmo os mortos podem descansar em paz”.
Em nenhum lugar o tráfico de ossos é mais assustador do que no Cementerio del Sur, como é conhecida a necrópole fundada em 1876 pelo déspota francófilo Antonio Guzman Blanco. Para alguns, a grandeza de seus túmulos evoca o cemitério Pere Lachaise em Paris.
“Eu não compreendo como isso aconteceu”, disse Jesus Blanco, 42, treinador de cavalos que ficou desesperado ao visitar o túmulo de seu pai, Melecio, em fevereiro, e encontrá-lo aberto e vazio. Muitas famílias desistiram totalmente de visitar o cemitério. Durante o dia, bandidos bêbados perambulam pelas passagens a pé ou de motocicleta e, às vezes, assaltam os visitantes. Os crimes mais horrendos do cemitério, como o assassinato-suicida em novembro, enchem as páginas dos jornais.
Segurança
Os policiais rabugentos que guardam a entrada do cemitério fazem pouco contra a desordem, disse Armando Regalado, chefe da Aprofamiliares, grupo de cidadãos formado no ano passado para protestar contra o comércio de ossos humanos.
“A polícia está lá para repreender e intimidar, e ignorar os abusos que veem todos os dias”, disse Regalado, cujo filho foi morto a tiros há três anos, quando tinha 21 anos, está enterrado em uma área do cemitério chamada El Artista. Dezesseis caveiras foram dadas como roubadas dos caixões, neste ano.
Os praticantes de Palo no país defendem que a religião é mal-entendida e demonizada por causa dos relatos de caos no Cementerio del Sur. Eles reconhecem a importância dos ossos humanos para a crença, os quais são colocados em um caldeirão chamado nganga, junto com terra e gravetos, e dedicam a um espírito, ou mpungu. Mas os paleros, como são chamados que aderem à religião, defendem muitas de suas práticas dos forasteiros.
“Devemos tomar cuidado, porque é fácil culpar os paleros por todas as doenças da Venezuela”, disse Samuel Zambrano, 34, líder palero. “Será que se pode culpar todo católico por causa do comportamento de alguns padres?”, perguntou. “A hipocrisia e aversão são imensas, especialmente entre aqueles sem respeito e entendimento sobre nossas crenças”.
Evocando outros paleros, Zambrano disse que oficiais que administram o Cementerio del Sur eram responsáveis pela falta de controle que possibilita o mercado negro de ossos humanos. As caveiras custam cerca de US$ 2 mil e o fêmur cerca de US$ 450, de acordo com as divulgações da mídia.
Religião
Algumas pessoas cujos ossos de parentes foram roubados culpam o governo de Chávez, porque trouxe milhares de conselheiros políticos cubanos na última década. Mas especialistas da religião dizem que a migração do Palo para a Venezuela, e sua evolução no país com fortes influências venezuelanas, data de antes da subida de Chávez ao poder.
“O Palo provavelmente chegou na Venezuela com a primeira leva de cubanos, na revolução do começo dos anos 1960 e se fortaleceu com o recente influxo”, disse Andrew Chesnut, especialista em religiões da América Latina na Virginia Commonwealth University.
Em Palo, os ossos representam os ancestrais e espíritos dos mortos. Eles contêm a energia espiritual dos mortos, por isso quanto mais forte as pessoas foram em vida, mais forte são seus ossos, disse Chestnut.
Por isso, há atração por ossos em mausoléus ornamentados. Os saqueadores do túmulo de Joaquin Crespo, general que comandou a Venezuela nos anos 1980, arrombaram não só seu interior, como também o túmulo de seus descendentes.
A cena de destruição é repetida em todo o cemitério, que está conectado pelos caminhos de terra para as favelas da encosta. Milvia Santos ainda treme ao descrever como se sentiu no Dia das Mães, quando foi visitar o túmulo de sua mãe, e o encontrou aberto e sem a caveira.
“Naquela hora, senti como se quisesse ir embora desse mundo”, disse Santos, 40, servente público. “Depois percebi que poderia acontecer com meu corpo se eu morresse”, disse ela, “então eu sentei no chão e fiquei chorando”.
Ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz na quinta-feira, o presidente Barack Obama fez o discurso que precisava, mas suspeitamos que não fosse precisamente o que o comitê do Novel queria ouvir.
Obama foi adequadamente humild. Ele disse que “comparado a alguns gigantes da história que receberam este prêmio”, suas conquistas “são pequenas” e sugeriu que ele tinha sido escolhido não pelo que fez, mas pelo que esperam que ele faça.
Então, ele reconheceu que a maior parte do que ele chamava de “a controvérsia considerável” ao redor de sua premiação veio pelo fato de que ele é “o comandante-chefe do exército de uma nação que está no meio de duas guerras”. Ele não deu explicações por isso.
Em um discurso que foi tanto sombrio quanto crescente, ele falou e falou sobre o Afeganistão, argumentando que a guerra era moralmente justa e estrategicamente necessária para defender os EUA e outros dos ataques terroristas.
Em um momento de lembranças, ele invocou a memória de Mahatma Gandhi e do reverendo Dr. Martin Luther King Jr., dizendo que sem a visão, liderança e sacrifício, ele nunca estaria naquele palanque em Oslo.
Mas ele disse que não poderia ser guiado somente por seus exemplos: “não se enganem: o mal existe no mundo. Um grupo não-violento não poderia ter parado o exército de Hitler. As negociações não podem persuadir os líderes da Al-Qaeda a baixarem suas armas”.
Em sua introdução, o presidente do comitê do Nobel, Thorbjorn Jagland, fez apenas uma referência breve sobre o Afeganistão. Ele deixou claro que Obama foi escolhido por seu comprometimento, e ações anteriores, para desenrolar as piores políticas e abusos da presidência de George W. Bush.
Ele apontou para a abordagem “diplomática multilateral” de Obama, sua negociação com o Irã, sua decisão em proibir a tortura, seus esforços em reavivar as negociações sobre o controle de armas e participar da discussão sobre o aquecimento global. “O presidente Obama é um líder político que entende que mesmo os mais poderosos são vulneráveis quando estão sozinhos”, disse Jagland.
É um grande alívio ouvir um presidente americano descrever com tanta esperança e respeito. Em seu discurso, Obama lembrou seu comprometimento com essas políticas e princípios, advertindo que “nos perdemos quando nos comprometemos os ideais que lutamos para defender”.
O que mais surpreendeu foi que Obama, frequentemente, usava a guerra do Afeganistão para mostrar seus pontos. Ele disse que mesmo que os EUA confrontem “um adversário perverso que não obedece nenhuma regra”, esse país deve continuar sendo “um símbolo da conduta de uma guerra”.
Enquanto ele se reservava o direito de agir unilateramente em um mundo onde as ameaças são “mais difusas e missões mais complexas”, Obama disse que “os EUA sozinho não podem garantir a paz. Essa é a verdade no Afeganistão”. E ele desafiou diretamente a expansão da ambivalência e aversão à guerra nos EUA e na Europa. “A crença de que a paz é desejada raramente é o suficiente para consegui-la”, acrescentou.
Quando o presidente anunciou seu plano de mandar mais 30 mil tropas para o Afeganistão, na semana passada, o discurso de Obama foi bem argumentado, mas soava mais como um comunicado jurídico do que uma oratória presidencial exemplar. Naquele momento, ele saía de meses de complicados debates internos e sarcasmos dirigidos a ele devidos o ceticismo e a decepção de muitos integrantes de seu próprio partido.
Na quinta-feira em Oslo, Obama argumentou a questão de forma muito mais eloquente. Deixaremos para os filósofos debaterem o que é e o que não é uma guerra justa. Mas concordamos que essa guerra é bem complicada, porém necessária.
Nós também sabemos que não há chance de todos saírem vitoriosos, e a luta mais ampla contra o terrorismo, a menos que os EUA acabem com os padrões internacionais e sustente seus próprios ideais. Essa foi a promessa de Obama e seu desafio daqui para frente.
GUANGZHOU – A venda de automóveis está tão forte na China que, neste mês, uma teoria da conspiração inusitada tem circulando nos mercados de ações ocidentais: o governo chinês deve estar comprando secretamente centenas de milhares de carros e estacionando-os em algum lugar.
A principal evidência apresentada para a teoria é de que o número de galões de gasolina consumidos, neste ano, na China foi estável. Mas os executivos da indústria automobilística e os compradores chineses negam o rumor, que foi tão divulgado que economistas começaram a fazer relatórios sobre por que a teoria não seria plausível.
Kevin Wale, presidente da General Motors na China, disse que os fabricantes de automóveis sabiam quem estava comprando os carros e não viram evidência nenhuma de uma conspiração na compra de carros. Grandes desenvolvimentos para levantar a economia – em parte porque o governo ordena e em parte pela mudança na preferência dos consumidores para carros menores – ajudam a explicar a diminuição do crescimento nas vendas de gasolina, disse ele.
Uma série de aumentos recentes no preço do combustível também pode ter desencorajado alguns motoristas, acrescentou.
Em entrevistas nas últimas três semanas, em Kunming no sudeste da China, em Nantong, no centro-oeste, e em Guangzhou, ao sudoeste, os moradores reclamaram que os carros estavam esgotados nas concessionárias, porque muitas pessoas queriam comprar enquanto os salários estavam altos, os empréstimos estavam disponíveis e novas estradas estavam sendo inauguradas.
Li Qi, 45, negociante de venda de madeira que já tem uma televisão de tela plana de 40 polegadas e uma BMW 325i Sedan, sentou em uma mesa próxima a longa fila de uma concessionária. Ele reclamava de ter perdido a chance de comprar uma Land Rover SUV, quando viu no mês passado diversos modelos em uma concessionária.
“Eu pensava tanto nisso e agora acabou”, disse ele, acrescentou que tinha acabado de por seu nome em uma longa lista de espera mensal.
A Nissan está esperando uma lista de espera da China de dois a três meses por seu modelo de carro Nissan Teana, que é de um tamanho parecido com o Altima, vendido nos EUA. Contudo, na China, ele é mais caro e vem com mais equipamentos padrão, como um computador de auxílio à navegação.
A Nissan produz o carro na China para o mercado chinês. A companhia não pode importar o Teana fabricado no Japão porque as especificações técnicas são um pouco diferente para o mercado japonês e porque a China ainda cobra impostos altos por carros importados, disse Kimiyasu Nakamura, executivo-chefe e presidente da Dogfeng Motor Co., uma joint-venture da Nissan na China.
Mas o crescimento das vendas de automóveis não está diretamente ligado ao consumo de gasolina. Stephen Green, economista do escritório da Standard Chartered em Xangai, calculou que o número de carros registrados na China poderia crescer 24% neste ano, um pouco mais que a metade do crescimento na taxa de vendas. Os carros mais velhos e menos econômicos estão sendo deixados de lado e substituídos por modelos eficientes, disse ele em um relatório de 16 de novembro. A indústria de produtos leves calcula que o consumo de gasolina na China seja de 40% e desacelerou por causa das dificuldades econômicas, enquanto o comércio de caminhões pequenos, que também utilizam muita gasolina mas provavelmente estão sendo menos usados por causa do enfraquecimento na demanda de fretes, segundo Green.
A J.D. Power & Associates espera que os EUA retomem a liderança anual no número de carros e caminhões pequenos de 2012 a 2014, com a recuperação econômica do país após a recessão. A J.D. Power também prevê que a China irá adiante para se manter líder em 2015, porque tem quatro vezes mais pessoas que os EUA.
NAIROBI – Há alguns meses, o exército da ONU foi explicitamente advertido por consultores jurídicos para não participar da operação de combate ao lado do exército congolês, caso houvesse indicações de que eles violassem os direitos humanos, de acordo com documentos internos. Mas a missão foi em frente – e os abusos ocorreram como era esperado.
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Soldados indianos da ONU se preparam para patrulhar Rutshuru, distrito no norte de Goma
De acordo com documentos da ONU fornecidos ao “The New York Times”, a Agência de Relações Jurídicas da ONU escreveu ao chefe de departamento de manutenção de paz, em abril, dizendo que os oficiais “não podiam participar de qualquer forma de operação conjunta” com o exército congolês, “caso houvesse sinais substanciais de que eles estivessem violando a lei humanitária internacional”.
Os avisos se provaram sólidos. Poucos meses depois, os soldados do governo congolês, que foram abastecidos com munição e alimentos pelos boinas azuis (como são conhecidos os mantenedores da paz da ONU) mataram centenas de civis, estupraram mulheres e chegaram a cortar a cabeça de alguns homens, de acordo com grupos de direitos humanos.
Muitos oficiais pareciam temer que isso pudesse ocorrer, e os documentos do jurídico revelam que o nível de debate interno – e desconforto – em relação à participação dos soldados em uma missão com o exército congolês, que durante anos foi acusado de pilhar, estuprar e matar grande parte da população, a qual deveria proteger.
“Nós sabíamos que era uma operação arriscada”, disse Alain Le Roy, subsecretário-geral para as operações de paz, em uma entrevista na quinta-feira. “Não temos outra opção”.
A ordem para a missão de paz no Congo, uma das maiores do mundo com 19 mil soldados, expira em algumas semanas. O Conselho de Segurança espera renová-lo, embora com condições estritas na cooperação militar.
NYT
Mulher desabrigada vive em campo de refugiados, com 10 mil, em Buhimba
Mas agora não está claro quanto tempo os boinas azuis ficarão. O governo congolês ficou mais suscetível a perceber o apoio das forças internacionais e pediu à ONU um plano de saída. Agora as autoridades do órgão estão dizendo que a ordem deve ser estendida por apenas seis meses e que, depois disso, a missão deveria ter o objetivo de reconstrução e não de manutenção de paz.
Obviamente, não há soluções simples para a situação no Congo. Muitos especialistas dizem que o país se tornou um sumidouro da ajuda externa, com pouco progresso apesar dos bilhões de dólares colocados na operação. O governo central com base na capital, Kinshasa – principalmente na costa leste da África -, permanece perigosamente fraco, enquanto as guerras continuam se espalhando por quilômetros na densa floresta do oeste. Os soldados congoleses frequentemente não recebem salário, o que acaba com sua lealdade, enquanto vários grupos armados motivados por interesses étnicos, comerciais e criminais, assombram as colinas, depredando os civis que encontram pelo caminho.
Essa tem sido a situação por anos, e os boinas azuis têm uma tarefa especialmente complicada porque os dois principais tenentes da missão – proteger civis e ajudar o exército congolês a combater grupos rebeldes – frequentemente entram em conflito.
Recentemente, os soldados da ONU tiveram que confrontar esses problemas por causa da intensidade da atividade militar. Em janeiro, uma ofensiva entre ruandeses e congoleses se uniram para combater redutos rebeldes que cometiam assassinatos brutais de represália. Então veio a ofensiva apoiada pela ONU, que também pretendia acabar com os rebeldes. Os boinas azuis ajudaram no fornecimento de suprimentos ao exército e transportavam seus soldados para zonas de batalha. Novamente, centenas de civis foram mortos e milhares ficaram desabrigados. De acordo com grupos dos direitos humanos, foi o exército congolês o responsável pela maior parte das mortes.
“O Human Rights Watch documentou que soldados congoleses mataram deliberadamente ao menos 270 civis”, disse a organização em um relatório de novembro. “A maioria das vítimas eram mulheres, crianças e idosos. Alguns foram decapitados. Outros foram golpeados até a morte com facão, espancados com porretes ou levaram tiros enquanto tentavam fugir”.
Em novembro, a ONU cortou seu apoio à brigada congolesa, culpada pelo massacre de civis. Mas muitos grupos de direitos humanos queriam que a organização fosse mais além, o que foi também foi sugerido pelos advogados da própria ONU.
“Se as violações são numerosas ou graves”, escreveram os advogados em uma carta ao departamento de manutenção de paz, em abril, a missão “deve cessar sua participação na operação como um todo” e até mesmo usar força armada contra o exército congolês para proteger os civis.
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Soldado do exército congolês patrulhando em território controlado pela milícia rebelde FDLR, em Goma
Le Roy disse, na quarta-feira, que após saber dos crimes cometidos pelos soldados congoleses, a ONU pesou os riscos de retirar a operação completa.
“Foi um dilema”, disse. A operação foi bem-sucedida em expulsar os rebeldes de seus redutos e dispersando-os pela mata, acrescentou Le Roy, dizendo que os oficiais estavam preocupados com que “se parassem a operação, eles voltassem e fizessem represálias nas vilas. O que com certeza aconteceria”.
Ele também disse que os boinas azuis tinham preocupações com o próprio trabalho por ser próximo aos militares congoleses. Segundo Le Roy, eles iniciaram uma correspondência com o escritório jurídico antes do início das operações, para ter certeza de que haveria cobertura para todas as eventuais complicações.
“Colocamos toda a informação na mesa”, disse ele, acrescentando que o Conselho da Segurança recentemente decidiu avançar com as operações militares, que ainda estão em andamento.
O departamento jurídico também advertiu especificamente que os boinas azuis não deveriam participar em qualquer combate com manobras lideradas por Jean Bosco Ntaganda, comandante congolês procurado pelo Tribunal Penal Internacional por acusações de crimes de guerra.
Bosco, ex-rebelde amplamente conhecido como o Exterminador, e centenas de outros ex-rebeldes recentemente foram recrutados para o exército congolês por meio de um acordo arriscado de divisão de poderes. De acordo com a negociação, os comandantes congoleses são nominalmente responsáveis, mas os ex-rebeldes controlam seu próprio território e até impõem seus próprios impostos. Outro analista descreveu a situação como “uma insurgência vestida com uniforme militar”.
Apesar de o governo congolês garantir aos boinas azuis da ONU que Bosco não faz parte das últimas operações militares, um conselho de especialistas da ONU levantou documentos que mostram Bosco como representante no comando de operações recentes e que os soldados da ONU estavam trabalhando com um fugitivo procurado. O presidente do Congo, Joseph Kalia, disse que perseguir Bosco provocaria mais derramamento de sangue e que agora, para o Congo, a paz é mais importante que a justiça.
As propostas do presidente Barack Obama para impulsionar a oferta de empregos são lembretes bem-vindos, mesmo que tardios, de que o objetivo do governo em estabilizar a economia é colocar mais americanos de volta ao trabalho.
Em um discurso na terça-feira, Obama apresentou uma razoável lista de programas que podem se desenrolar nos próximos meses. Mas temos medo de que sua recusa em estipular um preço demonstre que ele não está preparado para uma batalha verdadeira contra os republicanos no Congresso (e alguns democratas), que prometeram impedir qualquer despesa de incentivo adicional. Para funcionar, esse esforço precisa de dinheiro de verdade para sustentá-lo.
Mais de sete milhões de empregos foram eliminados desde que a recessão começou, e hoje mais de 15 milhões de americanos estão sem trabalho. A maioria dos economistas ainda espera que o desemprego piore antes da situação melhorar.
O pacote do presidente forneceria um impulso substancial aos empregos, mas apenas se conseguisse dinheiro suficiente. As propostas dos democratas da Câmara que poderia aprovar US$ 150 bilhões para o trabalho e mais US$ 100 bilhões para estender o seguro-desemprego o mínimo necessário.
Obama propôs um pedido ao Congresso de US$ 50 bilhões, no próximo ano. Esse é o único programa com um preço definido e seria usado em investimentos adicionais para o serviço público, que traria um grande número de pessoas de volta ao trabalho. Ele pediu mais incentivos para o investimento em energia eficiente, incluindo bônus para consumidores que reequiparem as casas. Além disso, o presidente propôs a oferta de empréstimos baratos a pequenos empresários e uma ordem de redução de impostos que incentive o investimento e a contratação.
Infelizmente, ele fez apenas uma referência passageira à ideia de oferecer mais assistência ao aos governos estaduais e locais com pouco dinheiro, e estender o seguro-desemprego. Autoridades da administração sugerem que o dinheiro poderia ser fornecido por meio de outras iniciativas, mas, sobretudo os republicanos do Congresso se opõem à medida. Esperamos que isso não seja um sinal de que a Casa Branca esteja recuando diante as melhores ideias para incentivar a criação de emprego, ajudar os desempregados e estimular a economia.
Nós também estamos preocupados com o tamanho do déficit. Mas criar empregos e garantias as quais a incipiente recuperação econômica não prejudique, são mais importantes agora. E assim como Obama apontou, o pacote bancário deve custar US$ 200 bilhões a menos do que as estimativas anteriores, o que abre um espaço no orçamento.
Obama chamou o conflito aparente entre o estímulo para criar empregos e a redução do déficit fiscal de uma “escolha falsa”. O buraco no orçamento não pode ser fechado de uma forma sustentável sem que primeiro haja um crescimento no mercado de trabalho. Ele também criticou os republicanos que defendiam avidamente o aumento do orçamento e a redução de impostos durante a presidência de George W. Bush, para então posarem como falcões do déficit.
Ainda há outra hipocrisia a ser ressaltada. O Congresso que concordou em gastar centenas de bilhões para resgatar grandes instituições financeiras está querendo gastar bem menos para colocar os americanos de volta ao mercado de trabalho. O presidente pode ganhar com esse argumento utilizando dos méritos de solidez e equidade da economia. Mas ele tem que querer lutar.
NOVA YORK – Os nova-iorquinos podem estar comprando menos produtos luxuosos para si mesmos por causa da recessão, mas eles parecem relutantes em economizar com seus bichos de estimação. Como resultado, um relatório de profissionais de bens imobiliários mostra que houve uma pequena explosão de varejistas de animais em Nova York.
Esse surgimento não reflete apenas nos mimos dados aos animais. Em um mercado desacelerado, os arrendadores antes relutantes agora veem mais um interesse em negociações de comércios ligados a animais, e alguns varejistas, particularmente aqueles que têm animais em suas premissas, estão aproveitando essa chance para expandir.
Por exemplo, o Spot, antes conhecido como Paw Stop, assinou um contrato de aluguel por dez anos neste mês, por um espaço de cerca de 460 metros, na West 20th Street, na vizinhança de Chelsea, em Manhattan. O negócio, que vende alimentos, produtos para tratamento e creche para cães, tem uma loja no centro em TriBeCa, e seus donos dizem que continuam buscando um espaço comercial na parte leste da cidade.
“Nossos negócios em TriBeCa vão bem”, disse Anisha Khanna, um dos donos da Spot. “As pessoas não param de gastar com seus animais e seus filhos durante a recessão. Eu acho que com esse vínculo emocional, eles gastam mais do que nunca”.
Com o declínio do aluguel de escritórios e espaços comerciais, cerca de 25% nos últimos 12 meses, outros vendedores de animais estão se fixando em um local ou procurando algum. Em outubro, a Fetch NYC, uma creche para cachorros, assinou um contrato de arrendamento de um espaço de cerca de 560 metros na South Street, na parte baixa de Manhattan, e outra companhia de creche para cachorros chamada Paws and Relax, alugou um local de 120 metros na Avenida B, em East Village. Ambos os acordos foram feitos pela corretora comercial JDF Realty.
A Dogmatic Products, fabricante de produtos de cachorros vendidos pela internet, assinaram um arrendamento de um escritório com cerca de 260 metros no Soho. “A indústria animal é um verdadeiro nicho nos negócios que se estabeleceu em Nova York”, disse Victor M. Menkin, fundador e presidente da Menkin Realty Services, que trabalhou na venda de bens imobiliários por mais de três décadas, em Nova York e apontou um aumento da demanda por espaços relacionados a animais.
“O fato de esse nicho continuar demonstrando força em tempos de dificuldade é uma verdadeira indicação sobre a importância de como os animais são importantes para as pessoas”, disse ele. “Há muitas pessoas solteiras em Nova York, e o animal se torna, até certo ponto, um vínculo provisório para pessoas que não têm filhos ou companheiros”.
Um lugar grande de hospedagem para cachorros, o Biscuits and Bath, tem seis locações em Manhattan e pretende abrir mais quatro ou cinco, além de talvez mais duas no Brooklyn e uma no Queens ou Hoboken, em Nova Jersey, disse John Ziegler, co-fundador e presidente da companhia.
Ziegler disse que certas divisões do negócios estão em dificuldade. Por exemplo, a procura por hospedagem de animais decaiu, porque as pessoas não estão mais viajando tanto em férias ou a trabalho. Além disso, os donos de cachorros estão pedindo tosas mais curtas para os cachorros ficarem limpos por mais tempo, disse ele.
Ziegler estima que recentemente ele perdeu cerca de 100 a 150 clientes por mês, mas ganhou cerca de 350. Segundo ele, apesar de a procura por hospedagem ter declinado, os clientes que apareceram são pessoas novas na cidade, que acabaram de adotar animais ou pessoas que precisam de hotéis para cachorros por terem que trabalhar por mais horas.
Uma pesquisa conduzida em outubro pela agência de notícias The Associated Press e Petside.com, uma loja virtual de animais e veterinária, mostrou que mesmo que 93% dos americanos afirmarem que gastariam menos em presentes de final de ano do que no ano passado, mais ou menos o mesmo tanto que há um ano, e 52% dos donos de animais planejavam comprar um presente para seus bichos – mais do que os 43% no ano passado.
“As vendas de animais em geral estão boas em relação a outros comércios”, disse Andrew Mandell, sócio da corretora Ripco Real Estate New York City, que busca novos locais para a Petco, uma cadeia de lojas de animais.
Quando a demanda é alta no mercado de arrendamento, os proprietários geralmente se recusam a negociar com varejistas de animais que tem premissas, por razões óbvias. “Ninguém olha com bons olhos para os animais”, disse Dan Rubenstein, fundador e um dos donos da Spot. “Eles acham que cheira mal, que fazem barulho, eles pensam em todas as coisas ruins possíveis”.
Mas com um mercado de imóveis fraco, os proprietários tendem a ser mais receptivos, disse Rick Johnson, diretor da corretora First New York Realty, que encontrou um local para a Dogmatic Products. “Quando o mercado está fraco, os proprietários são muito mais lenientes”, disse.
Nos últimos dez anos, Jesus Leonardo anda por um salão de apostas em Manhattan, recolhendo tickets, que de acordo com suas contas, já lhe renderam quase meio milhão de dólares em bilhetes premiados de corridas de cavalos de puro-sangue, que acontecem em todo o país.
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Jesus Leonardo fora do salão de apostas Off-Track Betting no centro de Manhattan
Durante sua gloriosa jornada, Leonardo, 57, nunca fez nenhuma aposta.
“É literalmente dinheiro achado”, disse ele em uma tarde recente em seu círculo particular, onde passa mais de dez horas por dia verificando milhares de cartões de apostas descartados em um scanner de ticket, em uma busca sem fim pelo tesouro perdido de alguém.
“Isso se tornou meu trabalho, minha vida”, disse. “É assim que alimento minha família”. Em uma corrida de cavalos, Leonardo, que veste um terno completo e amarra seus cabelos grisalhos e sua longa barba em um rabo de cavalo, é conhecido como “stooper”, pessoa que freqüenta corridas e salões de aposta pegando tickets abandonados por outra pessoa. Quase todo ticket não é premiado, mas os tickets premiados são suficientes para valer a pena o tempo gasto. Para seus amigos que freqüentam o salão de apostas, Leonardo é o chefe dos stoopers.
“Ele é uma lenda”, disse Paul Pepad, 57, músico desempregado que vive em Manhattan. “Todos sabem que esse é seu ganha-pão e que todos os tickets jogados fora pertencem a ele. Sempre foi assim, desde que eu me lembro”.
T. D. Thornton, um jornalista que cobre corrida de cavalos e escreveu sobre os stoopers em seu livro de 2007, “Not by a Long Shot: A Season at a Hard-Luck Horse Track”, disse: “Stoopers são os compiladores do mundo das corridas. Eles têm uma relação com as corridas de cavalo que data da época em que surgiram as apostas em grupo, no começo dos anos 1930. Há uma lei não escrita na corrida, que diz que os stoopers são tolerados desde que não sejam vistos assediando ou perseguindo clientes”.
“Eles têm permissão para viver à margem da sociedade”, acrescentou.
No entanto, Leonardo quase nunca vive à margem. Ele disse que com isso ganha de US$ 100 a US$ 130 por dia, e mais de US$ 45 mil por ano. No mês passado, ele recebeu US$ 8,040 de um ticket de apostas feitas em corridas no Santa Anita Park, em Arcardia, na Califórnia. Ele recebeu o maior prêmio em 2006, quando recebeu US$ 9.500 de uma corrida no Retama Park Race Track em Selma, no Texas.
É um ganho tarifado. “Eu coloco meus ganhos no imposto de renda todos os anos”, disse. Freddy Peguero, 53, de Manhattan, já torceu para que o resultado de um bilhete de Leonardo fosse premiado. “Todos aqui adoram Jesus”, disse ele. “Quando ele ganha, todos nós comemos e bebemos. Jesus é um homem bem generoso”.
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Leonardo segura um pacote de bilhetes que recolheu do salão de apostas
Leonardo, que já foi apostador da Associação de Corridas de Nova York, é casado e tem duas filhas jovens que vivem em Wanaque, Nova Jersey. Ele, que fala com um forte sotaque dominicano, se tornou um stooper por acaso.
Em 1999, ele entrou no mesmo salão de apostas e jogou. Ele observou a corrida e teve certeza de que perderia, então jogou seu bilhete fora. “Mas quando estava indo embora. Eu olhei para uma TV e percebi estava tendo uma investigação”, disse ele, referindo-se à revisão do resultado da corrida após a verificação de possíveis infrações. “Depois disso tudo, os resultados mudaram e, na verdade, eu ganhei US$ 900. Ele iniciou uma busca frenética por seu bilhete, pegando centenas de outros no chão, em cinzeiros e latas de lixo. Ele não conseguiu encontrar, mas implorou pela ajuda da gerente de plantão.
“Ela disse que não havia nada que pudesse fazer”, disse Leonardo. “Eu fiquei tão chateado, quase chorei. Finalmente, ela disse, ‘olhe, se você quiser levar o lixo com você pra casa e procurar o bilhete, vá em frente’”.
E foi o que ele fez. Apesar de não ter encontrado o ticket premiado, ele encontrou no lixo outros dois, que lhe renderam US$ 2 mil.
“Foi inacreditável”, disse Leonardo, que sempre sustentou sua família e manteve seu sonho de escrever músicas com empregos temporários, incluindo pintar casas e limpar janelas. “Eu comecei a pensar que deveria haver bilhetes premiados jogados no lixo todos os dias”.
Desde então, ele volta quase todos os dias, espera pacientemente para que o lixo do salão de apostas seja colocado na rua e ele possa pegar as centenas de bilhetes. Ele os coloca em um saco separado e entra no trem para voltar para casa.
“No começo, minha mulher achou que eu estava maluco, mas então ela percebeu que eu estava conseguindo muito dinheiro com os bilhetes premiados, às vezes conseguia até US$ 200 por dia”, disse ele. “Depois de um tempo, ela não achou mais que eu era tão maluco”.
Com o tempo, Leonardo fez um plano para aumentar seus ganhos. Ele recrutou a ajuda de dois amigos que pegam o lixo em outros quatro salões de apostas na cidade e levam até ele por US$ por saco. Enquanto volta para casa de trem, Leonardo costuma carregar de dois mil a sete mil bilhetes descartados.
Quando chega em casa, outros dois amigos o ajudam a separá-los em grupos de 300, e Leonardo os coloca em uma mochila vermelha. Ele volta para Nova York de manhã, e gasta horas em frente para verificar seus bilhetes, um por vez. Se outra pessoa precisa usar a máquina, ele se afasta e espera o outro terminar.
“É um trabalho tão exaustivo que meu horário de almoço é de uma hora”, disse. Os bilhetes premiados não descontados nas apostas em corridas, em Nova York, chegaram a um total de US$ 8,5 milhões nos últimos dois anos, de acordo com o New York State Racing e Wagering Board.
É por isso que Leonardo diz que não pretende parar de fazer isso tão cedo. “Olha aqui”, disse ele a Peguero após tirar um bilhete com o crédito de US$ 6 de uma máquina. “Outro premiado”.
Pela lei federal, as pessoas que representam risco de comportamento violento não podem comprar armas de fogo, inclusive criminosos condenados, pessoas que cometeram abusos domésticos ou que possuem problemas mentais, além de diversas outras categorias. Suspeitos de terrorismo não estão elas.
Os indivíduos na lista de suspeitos de terrorismo do governo podem ser proibidos de entrar em aviões, mas não de comprarem armas ou explosivos. A legislação bipartidária em ambas as Câmaras do Congresso poderiam facilmente acabar com essa lacuna ridícula, que geralmente é chamada de “terror gap”.
Introduzida no Senado por Frank Lautenberg, democrata de Nova Jersey, e na Câmara pelo representante Peter King, republicano de Nova York, essa reforma foi proposta pela primeira vez em 2007, com o apoio da administração de Bush, um desvio raro na linha partidária do lobby de armas. A administração de Obama endossou o projeto.
Essa não é uma questão pequena. Um balanço do Government Accountability Office (GAO), órgão fiscalizador do Congresso dos EUA, divulgado em junho deste ano, descobriu que desde 2004 as pessoas na lista de suspeitos de terrorismo conseguiram comprar armas de fogo 865 vezes em 963 tentativas. O número de recusas relativamente pequeno geralmente tinha a ver com outros fatores como a condenação por algum crime. Em 2005, uma revisão da GAO mostrou que as pessoas na lista de suspeitos conseguiam comprar armas em 35 de 44 tentativas, entre fevereiro de 2004 e junho de 2004.
A Associação Nacional de Rifles (NRA, em inglês) se opôs à legislação. Para justificar sua posição, o grupo menciona um relatório do inspetor-geral do Departamento de Justiça de maio deste ano, mostrando que milhares de pessoas estavam na lista de terroristas equivocadamente, enquanto pessoas com verdadeiros vínculos com o terrorismo, que deveriam estar na lista, não estavam. O Departamento de Justiça precisa melhorar esse registro. Mas as imperfeições da lista são bases para prevenir o governo de bloquear a venda de armas e explosivos àqueles suspeitos de ter ligações com o terrorismo.
A medida para essa brecha no terrorismo é mais modesta e equilibrada do que seus oponentes a fazem parecer. Ela não desqualificaria automaticamente as pessoas da lista de suspeitos de comprar armas. Ao invés disso, o procurador-geral teria poder decisório para negar a entrega de armas e explosivos nestes casos em que o governo tem razões para acreditar que a pessoa pode usar a arma em atos terroristas. A autoridade teria de ser exercida de acordo com as orientações formais. O devido processo legal é construído para permitir que a pessoa em questão possa contestar a recusa.
Uma coalizão de segurança pública, chamada Mayors Against Illegal Guns (Prefeitos Contra Armas Ilegais, em tradução livre), liderada pelo prefeito de Nova York Michael Bloomberg, começou a direcionar alertas aos legisladores e ao povo para esse assunto. Nós aclamamos a reação do grupo à intimidação dos ataques políticos da NRA, e pedimos que os democratas do Congresso dos EUA mostrem a mesma firmeza em seus discursos.